O guia da montanha

Zane Grey






Captulo I


Naquele dia quente de Junho, a cidade de Santo Antnio, no Texas, dir-se-ia uma colmeia. O ano de 1871 parecia destinado a ficar na histria como o das maiores levas 
de gado para o Norte, desde que, em 1868, Jesse Chisholm fizera a primeira. Durante a Guerra Civil, o gado multiplicara-se nas vastas plancies do Texas, atingindo 
centenas de milhar de cabeas, sem haver mercado para ele, pois os ranchos eram pouco distantes uns dos outros, e os habitantes muito pobres. Fora, por isso, que 
Chisholm concebera a ideia ousada de conduzir uma manada para o Norte e a a vender, empresa que conseguiu levar a cabo, apesar da interminvel distncia, da consequente 
fadiga e dos perigos que correra. Este feito modificou a histria do Texas.
Na Primavera de 1871 a Pista Chisholm tornara-se factor decisivo na recuperao econmica do pas: os cascos dos bois de grandes chifres e dos cavalos de sangue 
espanhol haviam aberto uma senda com uma milha de largura atravs das terras ondulantes do Lone Star State.
Adam Brite fizera j uma leva naquele ano. Partira em Maro com 2.500 cabeas de gado e sete guias, levando a palma aos ndios e realizando a sua mais lucrativa 
proeza. Como principiara muito cedo, as desventuras dos guias que o seguiram no lhe diminuram o nimo para tentar segunda leva. Talvez, at, pudesse fazer trs 
viagens, naquele ano auspicioso! Comprando gado a torto e a direito, pagando a pronto, conseguira reunir uma manada de 4.500
cabeas - a maior de uma s leva para o Norte. O seu problema imediato e vital era, agora, o de arranjar guias.
Do Rancho Uvalde vinha j a caminho de Santo Antnio uma manada, conduzida por cinco rapazes que contratara no acto da compra, pois Brite no ousaria embrenhar-se 
em aventuras de tal monta sem ter como guias pelo menos dez dos melhores cavaleiros e atiradores da regio. Como, em Dodge, os seus sete guias se haviam sumido entre 
o fumo e a poeira dos postos fronteirios, logo no dia seguinte ao do seu regresso a Santo Antnio tratara de procurar quem os substitusse. Estava, porm, contente 
por ter conseguido para capataz um dos guias mais conhecedores da Pista Chisholm, cuja chegada esperava, cheio de ansiedade e esperana.
Fora o seu velho amigo e grande criador de gado, coronel Eb Blanchard quem lhe recomendara Texas Joe Shipman e prometera enviar-lho.  medida que a tarde findava, 
iam aparecendo grupos de cavaleiros poeirentos, prontos para partir. Do vestbulo do "Hotel lamo" saam, tambm, magotes de vaqueiros, com as suas botas caractersticas, 
as suas esporas e os seus cintures, ao mesmo tempo que diminua a algazarra no salo. Mexicanos de olhos negros e trajos coloridos, passeavam pela rua. Brite comeava 
a impacientar-se quando o coronel Blanchard apareceu, acompanhado por um jovem que se tornaria notado mesmo entre uma hoste de altos e serenos texanos de olhos claros. 
- C estamos, Adam! - saudou Blanchard, em tom alegre, empurrando para a frente o seu companheiro. - Tex, cumprimenta o meu velho scio, Adam Brite, o mais limpo 
negociante deste Estado! Adam, este  Joe Shipman, que tem trabalhado para mim muitas vezes e que j fez duas levas pela Pista. Podes estar descansado; respondo 
por ele!
- Como est, Shipman? - cumprimentou Brite, em tom conciso, estendendo-lhe a mo.
O rapaz aparentava ter vinte e quatro anos, era alto, de ombros largos, quadris estreitos, flexvel e desempenado. As suas feies irradiavam arrojo e simpatia, 
tinha cabelos escuros, olhos cor de mbar, claros e singularmente francos, e um pequeno sorriso frio e indolente.
- Como passa, senhor Brite? Desculpe estar bbado, mas encontrei um velho compincha, Less Holden, e, diabos o levem, fez-me entornar quase um barril de cidra!
Brite conhecia os texanos e no precisaria de olhar duas vezes para o valente rapaz para gostar dele e aceit-lo, mesmo sem a recomendao de Blanchard.
- Vou-me embora, para poderem conversar  vontade - anunciou o coronel. - Lembra-te de que andars bem se o contratares j...
- De acordo, coronel, muito obrigado - agradeceu Brite. - Vamos, Shipman, sentemo-nos. Toma um cigarro. Quanto queres de soldada, para seres meu capataz na prxima 
leva?
- Bom... quanto  que paga? - indagou o rapaz, mostrando bem que tal pormenor era, para ele, de somenos importncia.
- Quarenta por ms, tendo em conta que levaremos 4.500 cabeas.
- Ih!... E quantos guias, patro?
- Dez, pelo menos, ou quinze, se conseguirmos arranj-los.
- Bem, a coisa no se far s com dez. Pela certa vai haver o diabo na Pista, este Vero.
- Aceitas o lugar?
- Creio que sim - rouquejou. - J tinha jurado que no voltava l... Trs vezes  demais... J levei com uma
flecha dum comanche num ombro e trago chumbo aqui, num quadril...
- Sim, j reparei que coxeavas... Custa-te a cavalgar?
- Nunca ningum disse nada...
- Conheces alguns cavaleiros que possas contratar?
- Posso falar ao meu compincha, Less Holden - respondeu o rapaz, com um sorriso de satisfao. - Ningum percebe mais de cavalos. Mas  um tipo bravo...
- Isso no interessa. Convence-o a vir connosco e a mais meia dzia.  verdade, arranja, tambm, um cozinheiro. Tenho de comprar um vago novo; o outro fez-se em 
cacos em cima de ns. Tratarei, igualmente, das provises.
- Quando quer partir, patro?
- O mais depressa possvel. Se o pessoal do Uvalde chegar hoje, como espero, partiremos depois de amanh.
- Diabo! Tinha uma garota por a, na cidade, e no consigo encontr-la. Bem, isto  vida de co! No se esquea de que, com uma manada desse tamanho, precisa de 
pessoal capaz!
- Sim, dos melhores cavaleiros que houver.
- No vai ser fcil... Os guias comeam a ser to raros como os dentes nas galinhas. S este ms, devem partir umas cinquenta mil cabeas!
- Mais uma razo para nos despacharmos. -Eu iria, igualmente, mesmo que houvesse meia dzia de manadas  nossa frente. Farei o melhor possvel, patro
- concluiu Shipman, levantando-se.
- Volta aqui a dizer-me o que houver, depois da ceia
- rematou Brite, por seu turno, vendo-o afastar-se preguiosamente.
Coxeava um pouco, mas isso em nada prejudicava a sua aparncia impressionante. Brite pensou para consigo que gostaria de poder chamar-lhe filho. Sim, porque, afinal 
de contas,

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era um velho vaqueiro solitrio e mais de uma vez sentira estranha melancolia, quase que pressentimento desastroso acerca da leva que preparava. De facto, estas 
aventuras, j de si perigosas, devido s tempestades, s enxurradas, s secas e ao frio, aos relmpagos e  natureza extenuante do trabalho, haviam-se tornado ainda 
mais arriscadas, ultimamente, por os Comanches e os Kiowas se encontrarem em p de guerra. Sempre houvera no Texas distrbios provocados pelos ndios; no entanto, 
nunca to srios como ameaavam ser agora. Este facto, no entender de Brite, era devido aos bfalos e aos caadores de peles. Tempo viria em que os ndios no consentiriam 
que se abatessem bfalos e, ento, todos os caadores, guias e colonos teriam, forosamente, de unir-se, para combater os peles-vermelhas. Os jovens e irrequietos 
texanos troavam desta ideia, mas todos os antigos, como Brite, sabiam que assim sucederia.
Brite teve de abrir caminho  fora de ombros, para entrar no armazm de Hitwell, embora trs meses antes, quando ali fora comprar, tambm, provises, houvesse tido 
a loja toda para si. Uma confuso de vaqueiros, soldados, criadores de gado, guias, ndios e vadios, enchia a vasta quadra. Por fim, l conseguiu fazer-se ouvir 
por Hitwell, com o qual estivera associado no negcio de gado, antes da guerra.
- Que quer esta gente toda, Sam?
-  uma invaso! - respondeu o armazenista, esfregando as mos. - Se o velho Jess Chisholm previsse isto, ter-se-ia feito meu concorrente.
- Olha,  melhor duplicares a encomenda que te fiz em Maro e acrescentares ainda uma terceira.
- Quando partes, Adam?
- Depois de amanh.

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- Estar tudo pronto. Chegaram provises frescas de
Nova Orlees.
- E a respeito de um vago?
- Esgotado, Adam. No h nada!
- No poders arranjar-me um?
- Tentarei, mas h poucas probabilidades.
- Diabos! O melhor  eu ir procurar por a. Visitou outros armazns, sem resultado, e j o Sol se
pusera havia muito quando voltou ao hotel. Ceou e, seguidamente, foi esperar Shipman. O calor do dia passara, e era agradvel estar sentado c fora. Do outro lado 
da rua, encostado  porta de uma loja, estava um homem alto, de comprido casaco preto, camisa florida e chapu, tambm preto, de abas largas. Guias de gado, de botas, 
esporas e pistolas, entravam e saam, barulhentos e alegres, enquanto os cavaleiros andavam de um lado para o outro, junto das janelas iluminadas.
De sbito, o tilintar de esporas atrs de Brite desviou-lhe a ateno da cena.
- Bem, patro, tive sorte - comeou Shipman.
O interpelado voltou-se e deparou com o capataz, acompanhado por um jovem que aparentava ter menos de vinte anos, de olhos azuis e ar de atrevida insociabilidade.
- Ol, Shipman! Vejo que sim, que tiveste sorte! Mais do que eu, que no consegui desencantar um vago.
- Este  o tal compincha, Less Holden... Less, cumprimenta o senhor Brite.
- Donde  voc? - perguntou o velhote, aps a apresentao, fixando o rapaz.
- De Dllas. Nasci l.
- Pois no precisava dizer-me que era texano! Para quem tem trabalhado?

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- Para Dave Slaughter, vai para trs anos, mas nunca fiz a Pista.
- Bem, se trabalhou para o Dave, tambm serve para mim. E o resto da sorte, Shipman?
- Contratei um rapaz chamado Whittaker. No podia ser melhor. E falei tambm, com um da Pensilvnia, ainda tenro,  certo, mas com fibra, e que diz saber cavalgar. 
Creio que  melhor o patro deixar-me contrat-lo, pois,, embora Santo Antnio esteja cheia de vaqueiros todos tm trabalho.
- Sim, claro. Parece-me que vai custar um bocado arranjar pessoal. O que me rala mais  o vago!
- Eu e o Less procuraremos um em segunda mo.
- E no se esqueam do cozinheiro! No ouviram chamar pelo meu nome? - perguntou, admirado.
- Ouvi, sim! - respondeu Shipman, apontando. - Foi aquele rapaz que est a desmontar do cavalo.
Brite voltou-se na ocasio em que o indicado largava as rdeas e se dirigia a um dos homens presentes.
- Brite? - responderam-lhe. - Deve andar por a, sim.
- Estou aqui - disse este, indo ao encontro do recm-chegado, seguido pelos dois homens.
O cavaleiro era jovem, moreno como um mexicano, estava meio roto e sujo e exalava cheiro pouco agradvel.
-  o senhor Adam Brite?
- Sou, sim. Voc  um dos rapazes do Uvalde, no?
- Sou, patro. Acabamos de chegar e no perdemos
um novilho, sequer!
- Como se chama?
- Ackerman.
- Este  o meu capataz, Shipman, e o seu amigo Holden.

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- Como ests, Deuce? - cumprimentou o primeiro, estendendo a mo.
- Olha... diabos me levem... mas  o Texas Joe! - exclamou, por fim, com uma careta de alegria. E apertou, calorosamente, a mo do outro.
- Onde deixaste a manada, Deuce? - quis saber o capataz, depois dos cumprimentos.
- A umas cinco milhas daqui, ao p da enseada. A erva no  muita, mas h bastante gua. Os bichos so lindos e esto gordos como se fossem pombos. No viemos depressa.
- Tm algum vago?
- Claro, e um bom cozinheiro!  preto, mas tomaram muitos brancos... Ih, como ele cozinha!...
- Bem, senhor Brite, isto, para mim,  msica! - comentou Shipman. - Onde est o resto do gado?
- Tenho 2.000 cabeas em trs pastagens, mesmo  sada da cidade. Podemos junt-las na Pista sem grande trabalho e ir andando devagar, enquanto Ackerman leva as 
dele.
- Claro, patro, mas precisamos de guias - protestou o capataz. - J somos oito, contando comigo. Arrisco-me a ir s com mais dois homens, desde que sejam bons.
- Tens razo, havemos de arranj-los por a... E a respeito de provises?
- J as encomendei ao Hitwell. Ackerman, manda-nos o teu vago, amanh de manh, e, depois de carregado, pe-o na Pista.
- Demoras-te na cidade, Deuce? - perguntou Shipman.
- No posso. Dois dos rapazes esto por c e tenho de voltar. - E, despedindo-se, afastou-se a trote.
- E agora, patro, voltaremos Santo Antnio de pernas para o ar, se for preciso, mas havemos de arranjar mais dois guias! Amanh c estarei, para ajudar a carregar 
o vago.

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- Combinado! Encontrar-me-ei com vocs nas pastagens. Boas noites.
Brite encaminhou-se para o vestbulo do hotel, onde se lhe deparou um homem que conhecia bem, mas que, naquela ocasio, no se lembrava de onde. O mesmo no sucedia, 
porm, ao texano louro, de rosto duro, lbios finos e olhos perfurantes que se lhe dirigiu familiarmente:
- Viva, Brite! Ento, no me conhece?
- Conheo, com certeza, mas no sou capaz de lembrar-me do seu nome - replicou o velho, recuando um pouco a mo meio aberta.
- Pan...
- Oh, diabo de cabea a minha! Pan Handle Smith, pois claro! - exclamou, estendendo, desta vez, a mo, satisfeito.
O outro correspondeu ao cumprimento com um aperto de mo to firme que arrepiou Brite at  medula.
- Como vieste parar aqui?
- Ora, a cavalo! Vou para o Norte.
- Sempre em bolandas, Pan Handle! Espero que no seja por causa da mesma velha histria...
- Ah, mas ! No posso ter descanso. Entrei numa jogatina e fui comido. Fiquei danado, claro, e pus-me  coca, at descobrir um dos tipos a fazer batota. Chamei-o, 
mais ao parceiro. Tinham andado a trabalhar nos campos de bfalos e no me conheciam. Vai, os parvos, comeam a atirar-me, da mesa a que estavam sentados! Claro, 
tive de abrir caminho a tiro e safar-me, deixando l a massa. Agora, estou farto de correr, esfomeado e sem vintm.
- No te rales. Ainda bem que me encontraste - animou-o Brite, estendendo-lhe uma nota.
No mesmo instante, porm, assaltou-o uma ideia que o fez esquecer-se do arrepio que a histria lhe causara.

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- Andas fugido, ento?
-  como diz. Isto aqui pode tornar-se quente para mim, enquanto o caso no esquecer...
- Se bem me lembro, costumavas conduzir gado...
-  verdade - respondeu Pan Handle, com um sorriso melanclico.
- Gostarias de ajudar-me a levar uma grande manada para Dodge?
- Se gostava! Nem queria soldada! Em Dodge poderia arranjar-me - respondeu, ansioso.
- Pois ento ests contratado, mas com soldada, evidentemente. Que ferramentas tens?
- Pouca coisa. Um esplndido cavalo, mas necessitado de descanso; sela, manta e uma "Winchester". O resto das minhas propriedades terrenas trago-o s costas...
- E nas ilhargas, tambm, pelo que vejo... - murmurou Brite, deitando uma olhadela ao personagem abatido que tinha na sua frente e, em especial, s coronhas dos 
revlveres que saam dos coldres, significativamente descados. - V, vai comer qualquer coisa, que bem precisas, e encontra-te aqui comigo, dentro de uma hora, 
pouco mais ou menos. Deves precisar de munies e de mudar de farpela.
- No sei como agradecer-lhe, Brite - respondeu o outro, afastando-se.
O velho ficou-se a segui-lo com os olhos e s quando o perdeu de vista avaliou o que fizera. Contratara para guia de gado um dos mais conhecidos pistoleiros do Texas! 
Dera asilo a um fora da lei! O facto, em si, impressionou-o um pouco. Contudo, pensando melhor, soltou uma gargalhada. Dodge ficava na fronteira do Texas e todas 
as comunidades possuam um pistoleiro, do qual, geralmente se orgulhavam. Wess Hardin,

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Buck Duane, King Fisher e grande poro de astros de menor grandeza, eram to representativos do Texas como, por exemplo, Crockett, Travis ou Bowie! Por outro lado, 
havia homens que se tornavam notados a darem rpido e mortfero trabalho ao gatilho e que, pelos seus actos, bem mereciam ser postos  margem da lei - ladres, bandidos, 
possessos, xerifes com mais tendncia para matar do que para prender, vaqueiros, vadios e jogadores que atiravam para encobrir a batota. Pan Handle fora, tambm, 
posto fora da lei,  certo, mas era mais vtima do que agressor. Feitas bem as contas, tivera sorte em contratar o foragido para a segunda leva, pois qualquer coisa 
lhe dizia que ia haver dificuldades. 4.500 cabeas de gado! Agora, era demasiado tarde para desistir da audaciosa aventura. Tinha de ir para a frente! Contudo, sentia 
um frio na espinha quando pensava nas possibilidades... Quantos guias no tinham ficado pelo caminho, sem verem o fim da longa Pista!

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Captulo II


O primeiro acampamento de Brite foi em Pecan Swale, a umas doze milhas, ou talvez mais, de Santo Antnio. A erva escasseara at ali e a gigantesca manada andara 
mais depressa do que era hbito, chegando a Swale antes do pr do sol. Shipman com o vago e Ackerman com a outra manada, ali se reuniram.
- Vem alguma leva atrs de ns? - perguntou Brite, da sombra onde estava a descansar.
Sentia-se arrasado! Apesar de vigoroso, levava alguns dias a acostumar-se  sela e  Pista.
- Nenhuma, patro. O Henderson deve ser o primeiro a vir, com duas manadas, mas ainda precisa de alguns dias, para estar pronto. Depois dele, ser uma avalanche.
- Antes assim. Creio que deves dar, agora, as tuas ordens, Shipman.
- Ento, ser melhor ficarmos todos aqui, at depois da ceia. O stio parece-me ptimo para o gado.
Tinha razo. O local era, de facto, excelente e os guias no gostariam de deix-lo, sobretudo os que j haviam percorrido mais vezes a Pista. Um bosque de carvalheiras, 
nogueiras e amoreiras silvestres cobria a parte superior do vale de ramagens verdes e amarelas, enquanto em baixo um ribeiro preguioso e pouco profundo serpenteava 
entre salgueiros. A erva crescia abundantemente nas terras do fundo e nas encostas suaves. Esta paisagem buclica era perturbada, aqui e ali, por nuvens de poeira 
levantadas pelo trotar dos cavalos.

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Os guias atiraram as selas, as mantas e as rdeas para o cho, e eles prprios em seguida, fazendo voar luvas, chapus e botas. Os rapazes queriam divertir-se e 
desfrutar um pouco o cozinheiro que, pelo visto, tinha um fraco pelo assobio. Chamavam-lhe Alabama Moze e era um negro forte, de idade difcil de avaliar. O vago 
que lhe servia de cozinha era vasto, tinha argolas para as loias e todos os apetrechos indispensveis. Naquele instante, estava a desmontar uma larga porta, para 
servir de mesa, aps o que pegou no machado e saiu,  procura de lenha. O instrumento, porm, de pouco lhe serviria, naquele bosque de rvores de grande porte...
Do local onde se encontrava, Brite observava os seus homens, incluindo o cozinheiro. Shipman no conseguira arranjar mais guias, o que o levava a felicitar-se por 
ter contratado Pan Handle Smith. Este apressou-se a seguir Moze, para ajud-lo. Assim, sem casaco nem chapu, possua uma bonita figura. Mesmo nas fronteiras do 
Texas, onde eram comuns os homens de aspecto impressionante, Smith atrairia mais do que um olhar. Na realidade, merecia-o mais do que Joe Shipman, embora este no 
fizesse qualquer observao a seu respeito.
Bender, o rapazote tenro da Pensilvnia, era simptico, bem humorado e mostrava vontade de ser amigo de todos, embora se revelasse tmido diante dos texanos de faces 
duras e olhos verrumantes. Possua feies carregadas e firmes, que condiziam bem com os seus ombros fortes, os cabelos emaranhados, cor de estopa, e os olhos azuis, 
francos e ardentes. Whittaker era um cavaleiro de vinte e dois anos, de faces coradas e olhos sonolentos, notvel pelo seu soberbo fsico.
O quinteto do Rancho Uvalde despertava grande interesse em Brite. Numa terra onde os homens jovens,

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ardorosos e endiabrados, constituam mais regra do que excepo, este grupo nada tinha de especial que atrasse as atenes. Todavia, Brite amava o Texas e os texanos, 
e, por isso, ao observar aqueles rapazes, tinha a impresso de que alguma coisa os diferenava dos vulgares condutores de gado. Nenhum deles fizera ainda vinte anos. 
Deuce Ackerman, moreno, delgado e de pernas arqueadas, parecia ser o de mais vincada personalidade. San Sabe, outro jovem do grupo, tinha sangue ndio ou mexicano 
e a esbelteza tpica do autntico vaqueiro. Rolly Little, cujo nome quadrava bem  sua pessoa, pois era baixo e rolio, possua cabelos amarelos, sardas e olhos 
castanhos, cintilantes e aguados como punhais. Ben Chandler era um perfeito texano: alto, esgrouviado, desengonado, dotado de cabelos e pele claros, cor de areia, 
e olhos azuis, luminosos. O ltimo dos cinco, Roy Hallett, parecia apenas um membro do grupo: jovem, sossegado e taciturno.
Os preparativos para a ceia prosseguiam sem pressas. Brite notou que Pan ajudava o negro sempre que podia. Os guias notaram-no, tambm, com olhares significativos, 
pois no era hbito, durante as levas, qualquer dos seus compartilhar as tarefas dos pretos. O interesse pessoal pelo pistoleiro crescia de momento a momento, mas 
ningum parecia disposto a interrog-lo ou a duvidar do prazer com que fazia tudo.
Texas Joe afastou-se, a fim de, do alto da encosta, observar o vale, e ficou visivelmente satisfeito com o que viu. Na opinio de Brite, o gado no se desgarraria; 
contudo, no era costume deix-lo sem guardas, um s momento que fosse. Joe olhou, seguidamente, para Norte e, quando regressou ao acampamento, anunciou:
- H guias a caminho de Santo Antnio. Vi sair um cavaleiro duma encruzilhada.

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- Bem, Shipman, com certeza veremos mais cavaleiros do que desejamos, nesta leva - comentou Brite.
- Refere-se a cavaleiros pintados, patro? - indagou Ackerman.
- No me refiro especialmente a esses, se tivermos sorte. Na ltima leva tive de encher a barriga a uma quantidade de Comanches, mas no fizeram desacatos. Confesso 
que os cavaleiros que mais me preocupam so os que fazem tresmalhar o gado.
- Talvez essa malta ache melhor passar adiante, quando vir este pessoal - rosnou Shipman.
- Assim o espero! Nunca se pode dizer o que o pessoal vale, enquanto no  experimentado.
- Porqu, senhor Brite? - quis saber o tenro Bender, cheio de curiosidade.
O patro riu da pergunta e Shipman antecipou-se-lhe na resposta:
- Ora, rapaz, tudo quanto pode acontecer no passa de uma brincadeira!
- Hoje nada sucedeu e est-me c a parecer que os apregoados perigos da Pista no passam de exagero...
De sbito, um dos rapazes de Ackerman soltou um potente brado, logo seguido de estridente assobio do cozinheiro:
- Venham, est pronto!
Ouviu-se grande alarido e, logo aps, o silncio. Os rapazes, esfomeados, no podiam perder tempo com conversas. Brite pediu ao cozinheiro que lhe levasse a ceia 
onde estava e no precisou de muito tempo, para ver que aquele Moze era um tesouro.
O sol ps-se, no cu dourado e sem nuvens. De quando em quando, um mugido vinha da beira da gua, quebrando o silncio, e uma brisa fresca agitava as ramagens, levando 
para longe o fumo do acampamento.

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Brite sentia-se satisfeito por estar, de novo, na Pista e ao ar livre, pois a maior parte da sua vida fora assim passada.
- Donde s tu, Moze? - perguntou Shipman, levantando-se.
- Sou "nego" de Alabama, "si" - - respondeu o interpelado. -  por isso que me chamam Alabama.
- Bem, enquanto me encheres a barriga desta maneira, garanto-te que no deixarei os peles-vermelhas escalpelarem-te.
- No me esquecerei, "si", no me esquecerei.
- Bem, rapazes, custa-me diz-lo, mas temos de montar guarda - continuou Shipman, mudando de tom e dirigindo-se a todos. - Somos dez; portanto, quatro at  meia-noite, 
trs at s trs da madrugada e outros trs at de manh. Quem vem agora comigo?
Fez-se roda, para se combinar a escolha da primeira guarda, e Brite declarou:
- Shipman, irei tambm, na minha vez.
- Diabos me levem! Mas que pessoal  este, que todos querem trabalhar, at o patro?!
-  a primeira noite... - insinuou algum.
- Confesso que acabarei por tornar-me antiptico - retorquiu o capataz, resignado. - Bender, sela o teu cavalo, e tu, tambm, Lester. Quanto a ti, Smith, estarei 
mais descansado, se ficares aqui.
- Calha bem - respondeu o fora da lei, contente - nunca durmo.
- Deuce, acordar-te-ei  meia-noite, mais ou menos. Escolhe dois, para te acompanharem.  verdade, patro, quem trata dos cavalos? Fizemos uma grande corrida...
- Pois sim, mas eles no so bravos. Deixa-os com o gado. onde houver boa erva.

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- Est bem; mas  preciso escalar algum para esse servio. At logo.  um bom princpio.
Brite concordou com as ltimas palavras do capataz, apesar dos estranhos pressentimentos que, por vezes, o assaltavam.
A sua manada de 4.500 cabeas, marcadas com trs ferros antes de ter sido comprada, levava bom avano sobre as que se lhe seguiam e cerca de trs semanas de atraso 
em relao  ltima que partira para o Norte. A erva e a gua no faltariam, salvo nalguns lugares, e o gado podia passar alguns dias sem erva, desde que no lhe 
faltasse gua. No entanto, a Primavera fora tardia, retardando a migrao anual dos bfalos para o Norte e, portanto, deviam encontrar-se com eles, algures na parte 
setentrional do Rio Vermelho.
- No podes arranjar carne fresca, Moze? - perguntou Deuce ckerman.
- Costumo guardar um quarto inteiro de boi, "si" ckerman. Bem sabe que sou um cozinheiro econmico.
- No entanto, vi um bando de veados que calhavam mesmo bem, no achas?... Ande Ben, ainda temos meia hora de dia.
Os dois rapazes pegaram nas carabinas e desapareceram atrs da encosta.
Hallett declarou a Little, de modo peremptrio, que ia tomar banho, o que causou espanto e consternao:
- Meu Deus, Roy! Que tens tu, homem? No faltaro rios e enseadas pelo caminho, no  verdade, patro?
- , sim, . E se estiverem cheios e gelados, vocs ficaro fartos de gua por dez anos! - replicou Brite.
- Mesmo assim, vou!
- Tambm irei, se me descalares as botas. H uma semana que as trago nos ps...

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- Acredito!... Vamos!
Em breve no acampamento ficaram apenas Moze e o seu eterno assobio, e Brite, que se entreteve a desenrolar a sua lona e a estender o cobertor. Uma boa cama era o 
que os guias mais desejavam e raramente conseguiam. Afinal de contas, pouco tempo se podiam aproveitar dela. Feita a cama, Brite encheu o cachimbo. O sol morria 
no poente, dardejando os seus ltimos raios dourados, e  sua luz recortou-se a silhueta dum cavaleiro solitrio, montado num cavalo negro. Brite examinou-o com 
ateno, assegurando-se de que no era ndio, mas logo a seguir, o cavaleiro dirigiu o cavalo para o Swale e desapareceu por entre as rvores. Brite ficou  espera 
de v-lo surgir no acampamento. Ao longo da Pista Chisholm era corrente aparecerem destes desconhecidos, muitos dos quais, infelizmente, indesejveis. O de agora 
reapareceu, por fim, com evidentes sinais de haver atravessado o ribeiro, e dirigiu-se para o vago. Antes do cavaleiro parar, Brite pensou que, at ao fim da Pista, 
muitos e muitos encontros teriam ainda. Este era apenas o primeiro.
- Ol, cozinheiro! - saudou o recm-chegado, com voz juvenil e vibrante. - Ds-me alguma comida, antes de a deitares fora?
- Pois dou, meu rapaz, mas j te digo que este cozinheiro no deita nada fora. Anda, desmonta e entra.
Brite reparou que a montada do rapaz no era um cavalo vulgar, mas maior e mais fino do que os cavalos espanhis. Era magnfico, negro como alcatro, possua belas 
pernas, peito e cabea de campeo. O cavaleiro, pelo contrrio, parecia um rapazito.
Quando ele desmontou, o velho notou-lhe a baixa estatura, contrastando com as pernas rolias fortes que cruzou, ao sentar-se, para atacar o tacho de comer que Moze 
lhe dera.

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Brite aproximou-se, esperanado em conseguir outro guia.
- Viva, rapaz! - saudou-o, com bom humor. - Por aqui, sozinho?
-  verdade - redarguiu o interpelado, levantando a cabea, mas baixando-a, rapidamente, logo a seguir.
Apesar da rapidez do gesto, Brite pde divisar-lhe o rosto simptico, dourado pelo Sol, no qual brilhavam, com ar furtivo, quase assustado, dois grandes olhos negros 
e profundos.
- Donde vens?
- De parte nenhuma.
- Vaqueiro solitrio, hem? Isso interessa-me; tenho falta de rapazes como tu. Queres trabalho? Chamo-me Brite e vou com uma leva de 4.500 cabeas para o Norte, para 
Dodge. J alguma vez conduziste gado?
- No, senhor, mas tenho lidado com gado toda a vida.
- Ah, ento deve ser h muito tempo! - observou o
velho, com ar de brincadeira. - Que idade tens, meu filho?
- Dezasseis anos, mas sinto-me como se tivesse cem.
- Onde vives?
- Em parte nenhuma.
- Sim? E a tua famlia, quem ?
- No tenho famlia, senhor Brite. Os ndios assassinaram meus pais, quando eu era garoto.
- Oh, que pena, meu filho! Isso aconteceu a tantas crianas texanas! E que tens feito, desde ento?
- Andado de um rancho para outro... No consigo parar muito tempo no mesmo stio.
- Porqu? s um rapaz simptico...
- Bem... no aguento os trabalhos mais pesados e... "... h outras razes.
- E quanto a tratar de cavalos?
- Ah, disso gosto muito! Vai dar-me trabalho?

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- Por que no? Acaba de comer e, depois, vai ter comigo.
Durante a curta conversa, Brite no deixara de observar o rapaz, de modo que a sua curiosidade dos primeiros momentos acabara por transformar-se em simpatia e interesse, 
apesar do seu interlocutor no haver levantado a cabea do tacho. Tinha diversos buracos no velho e amassado chapu preto, de abas largas, atravs de um dos quais 
espreitava uma madeixa de cabelos ruivos e anelados. As mos eram trigueiras e bonitas, pequenas, mas geis e fortes, e, do lado esquerdo do casaco, aparecia a coronha 
duma arma pesada. Vestia calas compridas, calava botas mexicanas de salto alto e usava grandes esporas, tudo em muito mau estado, devido ao longo uso.
Brite voltou a sentar-se sob a carvalheira e, mirando o esplndido cavalo, descobriu um pequeno saco de lona, seguro atrs da sela. Para consigo mesmo pensou que 
bastava apenas algum embrenhar-se um pouco naquele Texas extenso e bravio, para se lhe depararem, a cada passo, experincias tristes, estranhas e trgicas. Quantos 
filhos do Texas havia como aquele garoto! Que duro e sangrento imposto o imenso Estado extorquira aos pioneiros!
Comeava a escurecer quando o rapaz se apresentou diante dele e se anunciou, com ar tmido:
- Chamo-me Bayne, Reddie Bayne.
- Alcunha por causa do cabelo, no?
- No, no me chamo assim por causa da cor do cabelo; Reddie  o meu verdadeiro nome.
- Est bem, no interessa. No Texas, qualquer alcunha chega e serve. J alguma vez ouviste falar de Kennedy, "O Comilo", de Jones, "O Cara Suja", ou de Pan Handle 
Smith, "O Cabo de Caarola"?
- Do ltimo, j.

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- J? Ento, vais v-lo, no tarda. Vem comigo, nesta leva. Bem, aceitas a minha proposta?
- Sem dvida! Obrigado.
- Quanto a soldada?
- Trabalharei pelo comer.
- No, assim no te aceito. A Pista  dura. Trinta dlares por ms est bem?
- Nunca ganhei tanto! Quando comeo?
- Amanh de manh tens tempo, filho. Shipman e os rapazes juntaram os cavalos para esta noite.
- Quantos tem?
- Duzentos, mais ou menos. Mais do que precisamos, sem dvida, mas so todos bons e no do muito trabalho. Bem vs, quando chegar a Dodge vendo gado, cavalos, vago, 
tudo!
- J ouvi falar muito da Pista Chisholm e tenho vindo a campo descoberto desde Bendera, na esperana de encontrar uma leva de gado.
- Bem, realizou-se o teu desejo, Reddie. S espero que no te arrependas.
- Pelo contrrio, estou muito satisfeito, at! Agora o melhor  ir tirar a sela ao "Sam".
Bayne conduziu o cavalo para debaixo de outra carvalheira, desaparelhou-o e tornou a sentar-se perto de Brite.
- Quantos homens tem no seu pessoal?
- Agora, doze, contando contigo.
- Pessoal regular, do Texas?
- Do Texas, sim, mas novo para mim. Creio, porm, que  regular. Texas Joe Shipman  o capataz. J fez a Pista trs vezes,  um prtico nisto e pode dar-me sorte. 
O resto  uma grande mistura, excepto cinco rapazes do Uvalde, excelentes, segundo me parece. Tenho, tambm, um tenro, da Pensilvnia,

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chamado Bender, Less Holden, um amigo de Shipman, e, ainda, um carolino, Whittaker, que se  to bom como parece no pode ser melhor. Ah, esquecia-me!... E Pan Handle 
Smith, um pistoleiro fora da lei, mas que, como alguns da sua classe, vale quanto pesa.
- Dez... contando consigo, comigo e com o cozinheiro... faz treze.  nmero azarento, senhor Brite!
- Treze?...  verdade!
- Talvez seja melhor eu ir-me embora. No quero dar-lhe azar.
- Pelo contrrio, hs-de dar-me sorte, rapaz!
- Oxal! J tenho dado azar a tanto pessoal! - exclamou Bayne, com um suspiro.
Brite ficou impressionado com a resposta do garoto e a sua curiosidade aumentou. Nesse instante apareceram Deuce Ackerman e Chandler e, logo a seguir, Little e Hallett.
- Patro, vi ali um soberbo cavalo preto! No  nenhum pnei,  um cavalo grande, j feito, que nunca notei entre os nossos - declarou Ackerman.
- Pertence aqui ao Reddie Bayne, que se juntou a ns. Bayne, aqui tens quatro rapazes do Uvalde.
- Boas-noites a todos - cumprimentou o garoto.
- Boas-noites, vaqueiro - respondeu Ackerman, espreitando para diante. - No te vejo bem, mas tenho prazer em que estejas aqui. Eh, rapazes, Reddie Bayne parece 
um nome bem texano!
Todos cumprimentaram o novo camarada. Depois, um deles deitou lenha na fogueira, que brilhou com mais intensidade. Bayne, porm, no se aproximou.
- Ouviu o meu tiro, patro? - indagou Ackerman.
- No. Deste algum?
- Dei. Apareceu um veado, mesmo a calhar, mas j estava escuro e perdi-o de vista. Amanh de manh tirarei a desforra; hei-de apanhar um.

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- Se me tivesses emprestado a carabina, teramos caado o bicho - declarou Ben.
- Ah, sim? Aposto como no s capaz de vencer-me!
- Quanto apostas?
- Bem, custa-me ficar com o teu dinheiro, mas... - comeou Ackerman. Calou-se, porm, de sbito, e apurou o ouvido. - Aproximam-se cavaleiros!
Brite ouvira, tambm, o estropear de cascos de cavalos e depreendeu que, quem quer que era, descia a encosta.
- No deve ser nenhum dos nossos - prosseguiu Ackerman, com os olhos fixos na escurido. - Amigos,  melhor estarmos prontos para tudo!
Divisavam-se j as sombras negras dos cavaleiros,  luz do fogo do acampamento,  entrada do qual pararam.
- Quem vem? - perguntou Ackerman, em voz sonora e forte.
- Amigos! - respondeu uma voz spera.
- Ento, avancem, amigos, para que os vejamos.
No mesmo instante, Brite sentiu-se agarrado com fora por um brao e, voltando-se, viu Reddie Bayne ajoelhado a seu lado. Tirara o chapu, descobrindo o rosto plido, 
no qual os grandes olhos negros brilhavam de febre.
-  Wallen! Vem procurar-me - murmurou, ansioso. - No o deixe...
- Est quieto! - ordenou Brite, segurando o garoto e dando-lhe um pequeno safano.
Os recm-chegados aproximaram-se mais do lume, mas no o suficiente para se verem distintamente. O chefe parecia ser um homem forte, moreno, violento e antiptico. 
Brite vira j bem um cento de homens como ele, nas pradarias do Texas.
- Guias de gado, hem? - perguntou, com os olhos brilhantes fitos nos rapazes que se encontravam junto do fogo.


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- No somos ndios Comanches, com certeza! - replicou Deuce, com voz dura.
- De quem  o pessoal?
- Brite, de Santo Antnio. Levamos 4.000 cabeas e vinte guias. Quer saber mais alguma coisa?
- Contrataram um novo cavaleiro, h pouco, no?
- Se contratmos...
Brite, porm, levantou-se e aproximou-se do lume, indagando :
- Quem  voc, afinal, e o que quer daqui?
- Chamo-me Wallen, de Braseda. Vimos  procura de... dum... mido chamado Reddie Bayne.
- Reddie Bayne?  esse o nome do rapaz? E por que o procuram?
- Isso  comigo. Est aqui?
- No, no est.
- Ento, esteve, Brite.
- Pois esteve. Ceou connosco e, tomou o caminho de Santo Antnio. J l deve estar a esta hora, no te parece Deuce?
- Talvez. O cavalo era rpido - respondeu o interpelado, em tom natural.
- H alguns acampamentos entre o vosso e Santo Antnio? - quis saber Wallen.
- Quando passmos, no havia; mas, agora, talvez haja.
- Se no se importa, ficaremos aqui esta noite, Brite - pediu Wallen, em tom velhaco.
- Tenho pena, meu caro desconhecido, mas uma das minhas normas  no ser demasiado hospitaleiro durante as levas por esta Pista - respondeu Brite. - No  a primeira 
vez que isso me custa muito caro...
- Est a correr comigo? - inquiriu o outro, agressivo.
- No quero ofend-lo, mas  a minha norma.

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- Hum! Mas muito reles, para um texano, concorde.
- Pois concordo - declarou Brite, em tom frio.
O cavaleiro esporeou a montada, praguejando entre dentes, e, seguido pelo silencioso companheiro, perdeu-se na escurido.
Brite ficou  espera de ouvi-los na estrada e s ento voltou para onde deixara o garoto. Bayne estava encostado a uma rvore e nas suas mos brilhava uma arma.
- Pronto, intrujei-os, Bayne! Espero ter feito bem.
- Se fez! Obrigado, senhor Brite! - respondeu o garoto, em voz baixa.
- Patro - chamou Ackerman, que seguira Brite - aquele tipo no fazia farinha comigo! Tenho a impresso de que j o vi em qualquer lado.
- Quem  Wallen, meu filho?
- Um rancheiro para quem trabalhei, em Braseda.
- Que tem ele contra ti?
No obteve resposta.
- Tratava-te mal, hem, Reddie? - perguntou Deuce, inclinando-se para o rapaz. - Bem, no te censuro. Agora, rapaz, fala, se quiseres; se no quiseres, fica calado, 
que para ns,  o mesmo.
- Obrigado... Eu no sou alcoviteiro... nem ladro... nem nada de mau. Apenas... Oh, no posso dizer! - declarou, emocionado.
- Ento, foi, com certeza, qualquer coisa com uma rapariga...
- Sim... tem razo... uma rapariga - concordou Bayne, apressadamente.
- J sei o que isso , rapaz... Oxal aquele tipo no seja o pai dela, seno, mais tarde ou mais cedo, ficar rf.
E afastou-se, gritando para os amigos:
- Faam as camas, rapazes,  preciso dormir!

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- Bayne, estou satisfeito por no teres feito nada de mau - declarou Brite, em tom paternal.
Um dos rapazes atiou o fogo e,  luz mais forte que irradiou da fogueira, o velhote pde ver, com mais clareza, o rosto do seu novo empregado. A expresso amarga 
e dura adoara-se-lhe, dando-lhe um ar triste que comoveu Brite.
- Eu... eu... hei-de dizer-lhe uma coisa... se no me denunciar - prometeu o garoto, afastando-se, seguidamente, a passos largos.
Brite enrolou-se no cobertor e ficou a pensar na confisso de Bayne: qualquer coisa com uma rapariga! Assim lhe sucedera, a si prprio, h muitos anos, e talvez 
a isso devesse a sua vida solitria. Sem saber porqu, gostava daquele rfo. A velha Pista era dura e sangrenta, mas, s vezes, encontrava-se nela algo de valor!...

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Captulo III


Um tiro de espingarda despertou Brite, de madrugada. Moze assobiava, o que queria dizer que o acampamento no fora atacado pelos ndios. Afastou a manta, calou 
as botas e vestiu o casaco, ficando assim pronto para todo o dia. Enrolou a cama e, de toalha na mo, encaminhou-se para a enseada. Texas Joe estava a levantar-se. 
Trs outros rapazes dormiam ainda, com os rostos serenos e juvenis iluminados pela luz cinzenta do novo dia, prestes a nascer.
- Ai, patro, custa tanto a levantar de madrugada! - observou Moze,  guisa de cumprimento.
- Principalmente a mim, que estou cada vez menos novo, Moze!
Perto da gua, Brite encontrou Bayne atarefado com as suas ablues.
- Bons-dias, filho. J a p e em aco, hem?
- Bons-dias, senhor Brite - respondeu o rapaz, erguendo o rosto molhado e bonito, como o de uma rapariga.
Brite achou exagerada a pressa com que o rapaz vestiu o casaco e cobriu os cabelos ruivos e anelados com o velho e amachucado chapu de abas largas, tanto mais que, 
s depois disso, se deu ao trabalho de enxugar as mos e a cara ao leno.
- Vou buscar o meu cavalo antes do pequeno almoo - disse Bayne, afastando-se.
A gua estava lmpida e fria. Brite bebeu-a e lavou-se com o prazer de um guia de gado que sabe avaliar tal privilgio.

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Em muitos lugares a gua  lamacenta, mal cheirosa e morna, e noutros nem sequer existe. Quando se encaminhava para o acampamento o dia nascera e ouvia-se o mugir 
do gado. O cu estava avermelhado, para o lado do Este; cantavam pssaros nas rvores, fugiam coelhos por entre os salgueiros, na margem oposta avistavam-se gamos, 
com as orelhas muito compridas e direitas, e, para tornar o ambiente ainda mais agradvel, s narinas do velho chegou a fragrncia da madeira a arder.
Ao chegar ao acampamento foi testemunha de um interessante colquio:
- Quem diabo s tu, rapaz? - perguntava Texas Joe, surpreso. - No me lembro de j ter visto a tua cara!
- Chamo-me Reddie Bayne. Cheguei aqui a noite passada e o patro contratou-me.
- Sim? E para qu? Para acartares gua?
- No! Para cuidar dos cavalos.
- Ah! No est mal o garotelho, no senhor!...
- No tenho culpa de no ser uma velha girafa como...
- Como quem? Como eu? Fica sabendo, fedelho, que,
de manh, tenho muito mau gnio!
- Assim parece - retorquiu o outro, secamente.
- Para que trazes esse canho a, do lado esquerdo?
- Como proteco contra certas coisas...
- No te perguntei se era para vista, mas sim por que o trazes do lado esquerdo.
- Sou canhoto.
- Compreendo. Disparas com a esquerda, no ? E tens uma quantidade de golpes na coronha!...
Bayne no se dignou, sequer, responder-lhe, mas via-se que estava um bocadinho aborrecido com o frio e sarcstico capataz. Por isso, os olhos brilharam-lhe quando 
viu Brite.
- Bons-dias, patro - - saudou-o Shipman. - Vejo que contratou outro pistoleiro...
- Quem? Reddie Bayne?
- Decerto, quem havia de ser? Que ser o Texas para os rapazinhos que, em vez de estarem em casa a mugir vacas, vm para as pistas de gado armados de grandes canhes?
- Isso no  comigo; no tenho casa - retorquiu Reddie, com esprito.
- Vamos, Reddie, aperta a mo ao meu capataz, Texas Joe Shipman - cortou Brite.
- Prazer em conhec-lo, senhor Shipman - cumprimentou o rapaz, ressentido, frisando bem o "senhor" e no estendendo a mo.
- Igualmente, mariquinhas - rosnou Joe. - Vai buscar o teu cavalo e mostra-mo, assim como as tuas coisas.
Bayne corou e afastou-se, enquanto Brite aproveitava a ocasio para contar a Shipman o incidente da vspera.
- Um inferno, bem vs. Pobre garoto! E agora tenho a impresso de j ter ouvido o danado daquele nome: Wallen. Apostava as minhas esporas em como no  boa pega... 
 daqueles tipos que no caem em graa, nem mesmo no diabo do nome.
- Eh, entranadores de rabos de vaca, venham ao almoo
- clamou Moze.
San Sabe entrou no acampamento com um grupo de cavalos que os homens prenderam e Texas Joe gritou para Bender:
- Botas e selas aqui, meu tenro Hal da Pensilvnia! Isto  para todos! V, toca a despachar, que o dia vai ser de trabalho!  preciso misturar uma manada de bois 
bravos com outra de bois mansos.
Um enxame de mos morenas comeou a mover-se e,

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como por encanto, os cavalos ficaram selados. Depois todos comearam a comer, mesmo em p, e o capataz foi o primeiro a montar.
- Preparem os cavalos, rapazes! - ordenou, em tom vibrante. - Eu aponto a manada, patro, e mando Ackerman e a sua guarda comer. Vocs sigam e no se esqueam do 
rapaz, do Bayne.
Em poucos instantes, Brite ficou s com Moze. O Sol comeava a espreitar por entre as nuvens e o bosque enchia-se de melodia. Ao longe, o mugido dos bezerros recm-nascidos 
atestava o aumento que a noite trouxera  manada. O cavalo preto entrou no acampamento como uma flecha e Bayne desmontou, alegre:
- Tudo junto e pronto, patro. Ih, que beleza de bichos! Nunca os vi mais bonitos! Posso tratar de todos sozinho.
- Se conseguires isso, meu filho, conquistars a admirao de Texas Joe.
- Quero l saber desse vaqueiro! Prefiro a sua estima, patro.
- Pois sim, anda comer.
Brite dirigiu o seu cavalo para o alto da encosta e ficou a ver os guias apontar a manada. Embora habituado a tudo quanto se referisse a gado, no pde deixar de 
admitir que o espectculo era soberbo. O Sol brilhava j em todo o seu esplendor, cobrindo com os seus raios maravilhosos lguas e lguas de pradaria; o ar estava 
fresco, suave, com uma promessa de calor para o meio-dia; bandos de melros erguiam-se, como nuvens, sobre o gado, e, l de baixo, do bosque de carvalheiras, vinha 
como que uma onda de msica da passarada nele escondida. A enseada desaparecera sob a massa de gado, com bem uma milha de largura, que fazia esparrinhar gua por 
todos os lados. No meio de tudo aquilo,

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ouviam-se os tiros dos guias, atestando que os seus homens abatiam os bezerritos, que no poderiam acompanhar as mes.
Como um colossal tringulo, com o vrtice para a frente, os animais comearam a subir laboriosamente a outra encosta, abandonando o vale. A manada de Ackerman ia 
 frente - o que era acertado, pois j estava habituada  Pista; a segunda e a terceira seguiam amontoadas atrs, formando o maior conjunto de bois bravios que jamais 
vira. Os seus chifres brancos, pretos e cinzentos pareciam uma interminvel floresta de troncos de rvores desenraizadas, redemoinhando e entrechocando-se no vale 
e na encosta verdejante. Moviam-se processionalmente, com ritmo, firmes como um todo, embora irregulares na cor, e dando a impresso de uma fora irresistvel. Para 
Brite, o quadro representava o grande movimento de gado, agora na sua culminncia, o encaminhamento do Texas para um imprio, a beleza pica das manadas e dos guias 
que fariam a histria do Oeste. Nunca, at ento, avaliara o tremendo significado da cena colorida que se oferecia aos seus olhos maravilhados de velho criador de 
gado. Atrs daquela avalanche de animais, dir-se-ia cavalgarem, assobiando e cantando, todos os valentes filhos do Texas. Era aquela a sua oportunidade, depois da 
Guerra Civil, que a tantos deixara rfos e, a todos, sem dinheiro. O corao de Brite comoveu-se, encheu-se de simpatia por aqueles donairosos cavaleiros. S ele 
pensava na verdadeira natureza da tarefa que empreendera; por isso, uma sbita apreenso o assaltou; e o porvir?
Eles no pensavam no futuro; bastava-lhes o momento presente. Guiar uma manada, trabalhar conscientemente, atingir o objectivo em vista - eram a sua obrigao.

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Dever inaltervel, assumido  partida! Por isso, Brite ficou a conhec-los melhor e a estim-los mais.
Finalmente, o grosso da manada atravessou o riacho, deixando-o qual campo lamacento e revolvido. Logo atrs, ordeiramente, passaram os cavalos. Brite divisou Reddie 
Bayne, escarranchado na sua esplndida montada negra. O garoto estava como peixe na gua, tratando dos cavalos! Moze, conduzindo o vago, surgiu na estrada, por 
detrs de Brite.
Por fim, a parte menos densa da manada, o vrtice do tringulo, com Texas Joe no flanco esquerdo e Less Holden no direito, perderam-se de vista, na subida da encosta. 
Mais para baixo, os outros dois guias montavam guarda. Os restantes, no tinham posio estvel: ora cavalgavam aos flancos, ora corriam como demnios, na retaguarda, 
sempre que algum grupo mais turbulento fazia algazarra e erguia uma nuvem de poeira. Cada um dos rapazes parecia ter o seu prprio assobio especial, que Brite esperava 
acabar por conhecer e diferenar, com o tempo, e todos eles cruzavam o vale, estridentes e agudos.
Brite observava os guias enlameados, as nuvens de p que, momentaneamente, pareciam querer encobrir o Sol nascente, e, por fim, o corpo da manada, que procurava 
vencer a encosta. Uma floresta de chifres longos e pontiagudos parecia querer furar o cu. Quando o ltimo tero dos animais abandonou definitivamente o vale, iniciando 
tambm, a subida da encosta, o espectculo tornou-se assombroso, at para o velho Adam Brite! Metade daquela manada, sem o elemento selvagem, seria mais do que suficiente 
para conduzir a Dodge! S agora compreendia - agora que lhe era impossvel voltar atrs! E, com um aperto no corao, perguntou a si prprio, angustiado, quantas 
cabeas de gado e quantos guias no chegariam, nunca, a Dodge.

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Brite afastou-se, cavalgando, para a parte mais alta da encosta. Ali, alongou o olhar atento sobre a Pista, voltado para o Sul. Um guia de gado considerava quase 
to importante o que se passava atrs de si, como o que o esperava  sua frente. Misturar a sua manada com alguma que o seguisse, era mau negcio; havia a certeza 
de se extraviarem e perderem animais. Contudo, para seu alvio, a Pista estava livre ao Sul, e apenas uma pequena neblina indicava a direco de Santo Antnio. Para 
o Norte, estendiam-se por lguas e lguas as terras purpreas da pradaria, com as suas filas negras de rvores, ao longe. Parecia um mar ondulante de erva vermelha, 
no qual s para alm da linha do horizonte podia esconder-se alguma ameaa.
A grande manada subira j a encosta e mostrava-se agora, inteiramente, em forma de seta. Enquanto permanecera no vale, parecera demasiado grande para l caber, mas 
agora, em campo aberto, dir-se-ia estender-se e dilatar-se,  procura de espao. Comeara, finalmente, a sua lenta caminhada para o Norte, devorando toda a erva 
que se lhe deparava. Num dia, nunca percorreriam mais de oito a dez milhas. Quando o tempo estava bom e nada molestava o gado, era com verdadeira alegria que os 
guias se entregavam quela espcie de passeio. O infernal paradoxo da sua vida estava no facto de tanto poderem percorrer toda a Pista com absoluto conforto e descanso, 
como no meio de perigos e dificuldades de toda a ordem. A Brite nunca sucedera ter de arrostar com os infortnios de que ouvia falar constantemente, mas para si 
o trajecto fora sempre extenuante e arriscado.
O velhote juntou-se ao vago e, por momentos, cavalgou ao lado dele, conversando com o bem humorado negro. Comeando por perguntas acerca do Rio Grande e dos vaqueiros 
de Uvalde, acabou por informar-se a respeito do quinteto que trouxera a manada do Sul. Moze mostrou-se loquaz e,

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a breve trecho, divulgou quanto sabia de Deuce Ackerman e dos seus camaradas.
- Sim, "si", so os melhores e mais valentes rapazes que conheo! - concluiu o cozinheiro. - Trabalhei no Uvalde uns dois ou trs anos. Primeiro, foi o "crunel" 
Miller quem dirigiu aquele pessoal; mas, depois, vendeu-o ao Jones... e ele deve ter ficado bem contente por se ter visto livre dos cinco rapazes... Todos os dias 
de pagamento disparavam para a cidade, para catrapiscarem "miss" Molly, a filha do "crunel"! Faziam a vida negra ao patro!
- Bem me parecia a mim que no deviam ser diferentes dos outros rapazes, quanto a raparigas bonitas.
- So diferentes num ponto, "si":  que eles so amigos e parecidos como irmos gmeos, e "miss" Molly no podia escolher. Gostava tanto de todos que o "si" Jones 
teve de vender-lhos juntamente com o gado.
- Bem, Moze, alguma coisa se nos h-de deparar ao longo da velha Pista, mas esperemos que no apaream raparigas bonitas enquanto no chegarmos a Dodge! - exclamou 
Brite, com uma gargalhada.
- Tenho ouvido dizer que, nestes dias, a cidade  um buraco quente...
- Espera-lhe pela pancada, Moze! Bem, estamos quase a juntar-nos  manada; depois, ser um passeio pachorrento.
De facto, dentro de instantes Brite encontrava-se junto da rectaguarda irregular e com uma milha de largura da sua manada. Estavam  vista quatro vaqueiros, mas 
o primeiro que o alcanou foi Hallett, que ia sentado na sela, de pernas cruzadas, deixando o cavalo pastar  vontade.
- Como vai isso, Roy?
- Menos mal, desde que acabmos a subida. Na segunda manada h alguns bois velhos e fracos e outros retorcidos que nem chavelhos! Texas Joe teve de atirar sobre 
dois touros, para faz-los sair do vale.

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- D azar disparar sobre o gado - observou Brite, em tom pensativo.
- Bem, mas ns somos poucos e temos de alcanar o nosso destino... o que me parece que no conseguiremos nunca.
- Havemos de conseguir! Onde est Reddie Bayne com os cavalos?
- A meio da subida, parece. O Rolly deve andar perto, pois esteve a ajudar o garoto.
- Sim?... E como se porta ele?
- Bem, patro. So muitos cavalos para um garoto s, mas creio que ele se teria desembaraado sozinho, se no fossem os danados dos bois velhos.
Brite afastou-se. Rolly Little era o cavaleiro que se seguia e parecia atarefado com alguns novilhos teimosos. Havia vacas que berravam e queriam voltar atrs, desejando, 
evidentemente, juntar-se aos bezerritos que fora foroso abandonar.
 - Eh, patro, nesta manada h bichos velhos e teimosos que nem danados!
- Tem pacincia, Little - respondeu Brite.
Os cavalos vinham devagar, umas cem jardas, ou talvez mais, atrs, do gado. Brite dirigiu-se para junto de Reddie Bayne, que estava inclinado sobre o pescoo do 
cavalo, deixando-o comer.
- Viva, Reddie!
- C vamos, senhor Brite!
- Irei ao p de ti, para te ajudar no que for preciso. Vai tudo bem?
- Sim, patro. Nunca fiz trabalho que tanto me agradasse !
Que garoto simptico! Parecia ter menos do que os dezasseis anos que dissera, com aquelas faces que, sem serem gordas, tinham um belo rosado, apesar de queimadas 
pelo tempo.

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Assim, recebendo em cheio a luz do Sol, as suas feies mostravam-se tal qual eram: correctas, finas e atraentes. Talvez os seus lbios fossem demasiado pronunciados 
e vermelhos para um rapaz, mas os olhos compensavam esse pequeno seno: eram vivos, luminosos, denunciadores de uma personalidade exuberante e intensa.
- Ainda bem - replicou Brite, contente por haver conquistado a estima do rapazito. - Sabes que a noite passada fiquei um bocadinho preocupado contigo? Os meus rapazes 
foram bons para ti?
- Claro que foram e eu j me sinto mais  vontade! So as pessoas mais simpticas com quem j trabalhei... excepto esse tal Texas Joe.
- Bem, bem. Mas que fez o Joe?
- Oh! Nada! Simplesmente, embirrou comigo... - respondeu, em tom triste que contrastava singularmente com o das suas primeiras palavras. - Acontece sempre assim, 
senhor Brite, em todos os lados onde apareo... H sempre algum, geralmente o patro ou o capataz, que embirra comigo e me pe a andar.
- Mas porqu, Reddie? Tens a certeza de que no te enganaste com o Texas Joe? Ele  um excelente rapaz, como os outros!
- Acha? Ainda no dei por isso! Esta manh ralhou comigo com um palavreado!...
- Srio? Bem, isso no quer dizer nada. Sabes que ele  o meu capataz e isso, numa leva destas,  uma grande responsabilidade. Mas, por que te ralhou ele?
- Ora, por nada! Eu sou capaz de juntar os cavalos to bem como ele, mas o tipo embirrou comigo, e pronto!
- Talvez fosse apenas para te arreliar, Reddie! No te esqueas de que s o mais novo de todo o pessoal e de que, portanto, tens de suportar algumas brincadeiras.
- No me importo, senhor Brite, desde que eles sejam decentes.

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Gostava tanto de conservar este emprego! Gosto do trabalho e acho que serei capaz de faz-lo como deve ser.
- Mas o emprego  teu, meu rapaz, garanto-te! No te rales por isso.
- Obrigado, patro! E... j que  to. bom penso que... acho que devo confessar...
- Olha, mido - interrompeu Brite - no precisas de confessar nada. Estou certo de que s um rapaz s direitas e isso me basta.
- Mas  que eu... no sou um rapaz como pensa! - teimou o outro, corajosamente, voltando o rosto.
- No? Tolices! - exclamou Brite, comovido com a tremura que mais adivinhara do que vira nos lbios do garoto.
- Qualquer coisa me diz que devo confessar-lhe a verdade antes que...
- Antes qu? - perguntou o patro, j com curiosidade.
- Antes que me descubra.
- Olha, meu filho, no precebo onde queres chegar. Podes confiar em mim, embora me parea que tomas por uma montanha o que no passa de um cabeozinho. Mas, vamos 
l. desembucha!
- Senhor Brite, eu... eu... no sou o que.
pareo!
- No? Bem, como s um rapaz perfeito e simptico, acredita que me custa ouvir-te dizer isso. E porque no o s?
- Porque sou uma rapariga!
Brite apertou os calcanhares com tanta fora que o cavalo deu um salto. Pensou que no devia ter ouvido bem, mas Bayne estava de cabea baixa e com o rosto escondido, 
numa atitude que era mais eloquente do que as suas palavras.
- O qu?! - exclamou, por fim, o homem, espantado.
Bayne levantou a cabea e fitando-o, desta vez, bem de frente,

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tirou o velho chapu. Brite deu consigo a olhar boquiaberto, para uns olhos cor-de-violeta, que a perturbao tornara mais escuros.
- Sou uma rapariga - repetiu Bayne. - Tenho-me sempre esforado por guardar o meu segredo, em todos os lados, mas acabam sempre por desmascarar-me e, depois, ainda 
sofro mais.  por isso que lhe digo... que confio em si. Se for descoberta, talvez me ajude e seja meu amigo.
- Sou uma besta! - explodiu Brite. - Uma rapariga! Bem, agora vejo que sim, que s uma rapariga! Reddie, minha pobre pequena, podes estar descansada que guardarei 
o teu segredo e serei teu amigo, se vierem a descobrir!
- Oh, eu bem sabia! - respondeu Reddie, voltando a pr o chapu.
Assim sem o Sol a bater-lhe nos grandes olhos e nas faces coradas, sobretudo sem os seus rebeldes caracis, dum vermelho doirado, voltava a ser um rapaz.
- No sei porqu, faz-me lembrar o meu pai - rematou, pensativa.
- Nem sabes como gosto de ouvir-te dizer isso, pequena! Nunca tive uma filha, nem um filho, e s Deus sabe quanto lhe tenho sentido a falta! No queres contar-me 
a tua histria?
- Sim, qualquer dia.  bem longa e triste!
- H quanto tempo andas disfarada de rapaz?
- H trs anos, ou mais. Bem v, era preciso ganhar a vida, e isso, para uma rapariga,  difcil. Tentei tudo e, confesso, detestava ser criada, mas quando cresci 
mais ainda foi pior. Quase sempre os homens e os rapazes me tratavam com delicadeza, como  hbito dos texanos, mas aparecia sempre algum, ou alguns, que... que 
me queriam e no me deixavam em paz. Por isso fugi e me lembrei de que, se me disfarasse de rapaz, talvez fosse mais fcil viver.

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Ajudou um bocado,  verdade, mas acabei sempre por ser descoberta. Tenho um medo de morte de que aquele Texas Joe j desconfie de alguma coisa!
- Oh, no, no! Tenho a certeza de que no, Reddie!
- Mas chamou-me... mariquinhas! - exclamou Reddie,
com ar trgico.
- Isso  por seres to... to... bonita! Palavra que se o Texas desconfiasse, realmente, se portaria de modo diferente contigo! E todos eles, todos, sem excepo, 
se mostrariam tmidos, como carneirinhos! Olha, Reddie, no ser melhor contarmos tudo ao Joe e aos outros?
- Por amor de Deus, no, senhor Brite! Palavra, se o fizssemos nunca mais chegaramos a Dodge!
Brite soltou uma risada, mas lembrou-se subitamente do que Moze lhe dissera a respeito dos rapazes do Uvalde:
- Sim, bem vistas as coisas, deves ter razo. E... parece-me bem que o tal Wallen sabe que s uma rapariga.
- Pois sabe, e o mal  esse!
- Apaixonado por ti?
- Ele! Wallen  demasiado reles para amar seja quem for, mesmo a prpria famlia, se alguma vez a teve.  de Big Bend e j ouvi dizer que em Braseda ningum gosta 
dele. Afirma que me comprou com uma quantidade de gado, como se eu fosse uma escrava negra! Eu trabalhava para o John Clay e ele deixou-me ir com o gado que vendeu, 
mas no sabia que Wallen fizera o negcio por ter descoberto que eu era uma rapariga. Foi por isso que fugi e que ele veio atrs de mim.
- Agora ser melhor no te seguir mais, Reddie.
- Salvava-me? - perguntou, com calor.
- Sem dvida. Mas o Texas Joe ou o Pan Handle atiravam sobre ele, sem me darem tempo a mexer um dedo! - afirmou o velho, de cara franzida.

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- Faz-me crer que o meu sonho se tornar realidade... algum dia! - exclamou a rapariga, fitando-o com meiguice.
-E como, Reddie?
- Sempre tive esperana de que algum bom rancheiro, algum verdadeiro texano, me adoptaria... e de que poderia voltar a usar vestidos de rapariga. Teria uma casa 
e... e... - no foi capaz de concluir.
- J tm acontecido coisas mais estranhas, Reddie! - observou Brite, comovido, s no se comprometendo desde logo a adopt-la porque o som de diversos tiros  distncia 
o chamou  realidade.
- H ali qualquer coisa, senhor Brite! - gritou Reddie, apontando uma grande nuvem de poeira que se levantava na extremidade da manada voltada para Oeste. -  melhor 
ir at l. Eu tomo conta dos cavalos!
Brite esporeou a montada e galopou na direco indicada. No via Hallett nem Little, talvez encobertos pelo p, mas aos seus ouvidos chegava o rudo abafado dos 
cascos dos animais. Quando chegou mais perto reparou que o grande corpo da manada permanecia intacto, embora algumas cabeas de gado se afastassem para a esquerda, 
precisamente donde vinha a poeira. Para l se dirigiu, verificando que um grupo de animais abandonava a manada principal, em ngulo recto. Pelo barulho que faziam 
e apesar da distncia, dava a impresso de tratar-se duma desgarrada, o que, com to poucos guias como ele tinha, podia ocasionar a debandada na direco oposta 
 da manada principal. Exceptuando, porm, alguns pequenos ncleos, os animais agiam racionalmente e os guias dianteiros faziam j retroceder os fugitivos, voltando-os 
para o Norte. Com grande alvio, Brite afrouxou o galope e foi postar-se atrs da parte mais exposta da manada.

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Os animais movimentavam-se muito rapidamente, como se uma onda de inquietao os envolvesse a todos; porm, gradualmente, voltaram ao andamento vagaroso habitual 
e tudo pareceu normalizar-se. Little passou por Brite, a galope, e gritou qualquer coisa que este no compreendeu.
A leva continuou pois, no seu andamento ordenado e processional, como se importasse, apenas, vencer o tempo. Passaram horas. O Sol quente iniciou a sua corrida oblqua 
para o ocaso, limitado por tudo quanto se relacionava com a leva: o descanso, o andamento, os arrancas, o movimento incessante do gado, o bater dos cascos, o mugir 
das vacas, o eterno cheiro a p, estrume e corpos suados - e, at, pelo cu que os cobria, os outeiros que pareciam acenar-lhes e a terra vermelha que se estendia 
at aos confins do horizonte, para os lados do Norte...
Uma hora depois, a grande manada rodeou um pequeno lago, no centro dum vale pouco profundo. As rvores notavam-se pela ausncia, e Moze pde dar graas a Deus por 
ter tido a sensatez de fazer proviso de lenha. Brite precisou de cavalgar uma boa milha ao longo do flanco esquerdo dos animais, antes de alcanar o vago e o acampamento, 
instalado numa pequena eminncia de terreno donde se avistava todo o centro do vale. A erva era boa, embora pouco abundante, mas o gado precisava de ser reunido 
naquela noite.
Reddie Bayne aproximou-se, tambm, balanceando-se sobre o belo cavalo preto que era um deleite para os olhos dos cavaleiros, e colocou-se ao lado de Brite.
- C estamos com o dia passado e novamente acampados. Oh, senhor Brite, sou quase feliz!
--Ainda bem! Aproveita essa felicidade, pois s Deus sabe o que nos espera!

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- Oh, l est o tal Texas Joe! -- exclamou Reddie. -Todo importante e vaidoso por ter feito os bichos voltar ao seu lugar! Patro, como devo proceder quando ele... 
implicar comigo outra vez?
- V como falas, Reddie - aconselhou o velho, em voz baixa e sria .- Resmunga, fala como ns, se puderes, solta, de vez em quando, uma praga ou um palavro. Vers 
como te ser precioso.
- S Deus sabe quantos j ouvi!
Quando entraram no acampamento j Texas Joe tirara o chapu, a camisa e os coldres, e, sem saber porqu, Bride pensou que o jovem gigante de olhos cor de mbar e 
cabelos castanhos era bem capaz de pr em perigo o corao de alguma rapariguita descuidada.
- Ol, patro! - saudou, com o seu sorriso atraente. - S agora o vejo, desde manh. J pensava que tivesse
voltado para Santo Antnio...Foi uma boa jornada, hem? Quinze milhas e um lugar para os bichos descansarem.
- Fico nervoso l na rectaguarda, Texas - queixou-se Brite, desmontando.
- Mas no houve novidade, nenhuma mesmo. S quero inform-lo de que este aqui, o Pan Handle Smith, parece que fez a primeira Pista com Jess Chisholm e nunca mais 
fez outra coisa.
- Obrigado, Joe, mas no mereo isso - replicou o fora da lei, que parecia demasiado absorvido na tarefa de sacudir a poeira do fato.
Lester Holden estava tambm presente, sentado numa pedra, a carregar a arma.
- Tive de dar quatro tiros naquele maldito touro preto, velho como o diabo! As balas estoiraram-lhe a cabea.
- No atirem aos animais, rapazes, por muito teimosos que sejam! Guardem o chumbo para os Comanches!
- C est o nosso Reddie! - exclamou Texas, zombeteiro. - Quantos cavalos deixaste fugir, menino?

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- No os contei - respondeu Reddie, em tom sarcstico.
- Nesse caso, vou eu cont-los e se no estiverem l 189 bem podes fugir.
- Ento o melhor ser fugir; voc no  capaz de contar mais do que at dez!
- Ests muito vivao, no haja dvida! Parece-me bem que tenho de pr-te de guarda, esta noite...
- s ordens! At me dar prazer. No ficarei, porm, mais do que o tempo que me competir, senhor Texas Jack.
- Muito bem. Sou ento "senhor" para ti... Mas repara que me chamo Joe, e no Jack.
- Para mim  o mesmo - replicou Reddie, enquanto escovava o cavalo.
- J viram como o mido mima o bicho? - comentou Shipman. - Assim no admira que o animal seja bonito... Raios me partam se amanh no irei nele!
- A toque de sino  que voc vai.
- Estava a brincar, refilo! S os ladres de cavalos montam os que no lhes pertencem.
- No o conheo muito bem, senhor Shipman...
- Mas, pelos vistos, hs-de conhecer-me melhor do que poderias desejar, antes de terminar a leva!
Brite no compreendia por que motivo aqueles dois se guerreavam por tudo e por nada, mas reparou que Reddie, embora tivesse resposta pronta para tudo quanto Texas 
Joe dizia, evitava descobrir o rosto.
- Conhecer-nos-emos ambos, antes de chegarmos a Dodge - ripostou Reddie.
- Ests a provocar-me! Olha que te arrependes... - recomendou o capataz, agressivo.
- No me provocou a mim tambm?
- Olha, menino, eu sou o capataz da leva de Brite e tu o rapaz da gua, no te esqueas!

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- Engana-se, eu sou o encarregado de juntar os cavalos desta leva, sou o encarregado...
- Tu?! No eras capaz de juntar uma vara de porcos gordos e lazarentos! Ficaste muito senhor de ti, assim de repente, pois, se bem me lembro, esta manh estavas 
mais meiguinho!
- V para o inferno, Texas Joe! - ripostou, atrevidamente.
- Que disseste? - perguntou Joe, j zangado.
- Disse que voc  um guia refilo, vaidoso e trangalhadanas como uma girafa, pronto!
- Ah, ele  isso?
- replicou o visado, furioso, e, rpido, como um gato, arrancou-lhe a arma e atirou-a para longe.
Reddie, que estava ajoelhada e de costas voltadas, soltou um grito, mas Texas Joe, impiedoso, segurou-a com fora pela gola da blusa, obrigando-a a levantar-se.
- Ouviu bem que este mido me faltou ao respeito, patro - gritou o capataz, sentando-se e deitando-a sobre os joelhos -, portanto, tem de levar o correctivo!

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Captulo IV


O que mais espantava o assustado Brite era a imobilidade de Reddie, nos joelhos do vaqueiro. Sem dvida, a pobrezita estava petrificada de ansiedade e terror, e 
o velhote de bom grado mandaria Texas Joe suspender o castigo se a expresso foribunda e, ao mesmo tempo diabolicamente alegre do rapaz no o houvessem privado do 
uso da palavra.
- Pan Handle, no achas que devemos castigar os rapazes desobedientes? - indagou Texas.
- Com certeza. Mas, em minha opinio, o Reddie foi, apenas, respondo.
- De acordo. Mas se no o torcermos j de princpio, no seremos capazes de conduzir o gado, com ele a papaguear-nos aos ouvidos.
- D-lhe um par de palmadas, Texas - decretou Lester. - O Reddie  bom mido, concordo, mas est terrivelmente mimado.
Texas ergueu a mo forte e morena, ao mesmo tempo que Reddie gritava com a voz estrangulada pelo medo:
- No se atreva... a aoitar-me... Shipman!
Contudo, a mo caiu, com uma pancada sonora, levantando nuvens de poeira das calas de Reddie e fazendo-lhe saltar a cabea e os ps, ao mesmo tempo, com a violncia 
do golpe. A rapariga soltou um grito agudo de raiva e dor, e comeou a espernear, como uma gata assanhada. Texas Joe conseguiu, porm,

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dar-lhe ainda mais trs sonoros aoites, antes que ela conseguisse libertar-se e pr-se de p. Ento, se antes Brite ficara petrificado, agora dir-se-ia assombrado, 
tal era a fria que a garota personificava naquele momento - uma fria que a tornava bela e que, ao mesmo tempo, causava calafrios. Pareceu-lhe que s cabeas duras 
e olhos cegos, como os dos seus guias seriam incapazes de ver que o seu companheiro era uma rapariga doida pelo furor.
- Oh, malvado! - gritou ela, procurando no coldre a arma que Texas lhe tirara e Lester apanhara, discretamente.
- Eh, mido, nada de tiros! - gritou este ltimo. - Foi tudo uma brincadeira.
- Para o diabo a pardia! - e, rpida como um raio, pregou um tremendo pontap numa canela de Texas, que tinha o rosto convulso de riso.
- Ah! - gritou o alvejado, agarrando a perna e torcendo-se com dores .- Oh, meu Deus, a minha perna doente!
Reddie ergueu o p, para duplicar a receita, mas desistiu e, vagarosamente, baixou a bota.
- Hem, di, no  verdade?
- Se di? Oh, rapaz, no tarda um minuto que no esteja morto! - gemeu Texas. - Tenho a perna cheia de chumbo.
- Se me voltar a tocar-me, eu... eu encho-lhe de chumbo o resto da carcaa!
- J no se pode brincar? Estava s a divertir-me um pouco. O guia mais novo tem sempre de aguentar um bocadinho de pardia.
- Bem, Texas Jack, se o que me fez  uma amostra das brincadeiras dos guias de gado, passo bem sem elas no resto da viagem.
- Mas tu no s mais do que os outros! - protestou Texas, em tom dorido. - Pergunta ao patro! No foste bom camarada...

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no devias ficar to zangado.
Reddie voltou-se implorativa e muda, para o velhote.
- Tm os dois razo - declarou este, ansioso por ser conciliador. - Tu, Texas, bateste com demasiada fora para ser s a brincar; bem vs que o Reddie no  nenhum 
latago...
- Sim... pareceu-me, at, muito macio... Queres apertar-me a mo e esquecer o caso, garoto? Garanto-te que o pior foi para mim; parece que tenho uma quantidade de 
dentes a rasgar-me a perna!
- Antes queria morrer que apertar-lhe a mo! - replicou Reddie, empurrando o chapu para trs e tirando a arma ao relutante Lester.
- Diabos me levem! - gritou Texas, pesaroso, quando ela se afastou. - Quem diria que o gaiato tinha um gnio destes? L arranjei outro inimigo!
- Foste bruto, Texas - admoestou-o Brite.
- Bruto? A mim, quando tinha a idade dele, davam-me com um chicote de duas pontas! - e, coxeando, afastou-se para o seu trabalho.
Pouco depois, Moze chamou-os para a ceia, finda a qual partiram, com cavalos frescos, para render a guarda. Deuce Ackerman veio dizer que o gado no havia estado 
sossegado, devido  presena de uma alcateia de lobos, e Brite partiu para a sua ronda, levando a carabina. Ao passar pelo cavalo preto de Bayne, reparou que os 
outros estavam reunidos a alguma distncia do gado. Ainda se sentia calor, embora o Sol j houvesse desaparecido, e o velho rancheiro parou entre os cavalos e o 
gado, iniciando uma tarefa de que nunca gostara.
Os animais ainda no se haviam deitado e o barulho que vinha de longe confirmava que a outra extremidade da manada estava

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inquieta. Brite patrulhou uma grande distncia, com a arma atravessada na sela e mantendo-se alerta contra os lobos. Viu coiotes, coelhos e, ao longe sobre a grama, 
alguns gamos assustados. Ainda a noite no cara completamente quando Reddie Bayne surgiu com os cavalos, conduzindo-os para Leste, na direco de uma angra abrigada, 
a cerca de meia milha do local onde se encontrava Brite. O lusco-fusco comeava a cair sobre o acampamento e no horizonte, do lado do poente, apareciam e desapareciam 
pequenos raios doirados.
Pouco depois, Reddie veio ao encontro do patro: - Os cavalos ficaram bem - anunciou. - Parece-me que devo manter-me por aqui; todos recebemos ordem para continuarem 
de guarda at nos virem render.
- Pode ser que acontea alguma coisa... ou pode ser que no acontea... Quem sabe?
- Creio bem que na cabea daquele tipo  que est a acontecer qualquer coisa...
- Qual tipo, Reddie?
- Bem sabe... No acha indecente o que ele me fez, senhor Brite?
- Sim, foi um bocadinho duro - concordou Brite. - O Texas agiu to depressa que at fiquei aparvalhado!
- De facto, o senhor foi pouco cavalheiresco - avanou a jovem. - Agora, j tenho as minhas dvidas a seu respeito...
- Acredita que fiquei como que paralizado, por saber que eras uma rapariga.
- Eu julgava que "isso" o "paralisasse" a ele, tambm, mas no! Olhe que estive mesmo para dizer-lhe que insultara uma senhora!
- Raios me partam! Tens razo, mas ele era capaz de abandonar a leva!
- S eu sei quanto desejo que ele no saiba que o sou - murmurou Reddie, pensativa.
- Esperemos que ningum descubra.
- Nunca perdoarei a mim prpria, se lhe trouxer azar, senhor Brite.
 --No penses nisso, Reddie.
- Escute! - exclamou ela, de sbito.
Uma cano cortou o ar quente, na escurido. Brite reconheceu a balada espanhola de um vaqueiro.
-  o San Sabe que canta para a manada - esclareceu Brite.
- Oh, que bem ele canta! - notou a rapariga.
Vindo doutra direco, ouviu-se outro canto extravagante e, quando este cessou, ergueu-se outra voz, mais fraca e melodiosa. O bater dos cascos terminou e s o mugir 
ocasional de uma ou de outra vaca cortava o silncio. San Sabe recomeou a sua cano de amor, cujo estribilho melanclico ressoou  volta da manada. Era assim, 
quase por magia, que os guias aquietavam os animais desassossegados.
A Lua nasceu, envolvendo nos seus raios prateados a vasta clareira. Reddie ps-se a passear, para c e para l, trauteando uma cano, perdida na beleza e na serenidade 
da noite. De sbito, o uivo dum lobo da pradaria, longo, desolado, de fazer gelar o sangue nas veias, quebrou o encanto e acordou-os para a lembrana angustiosa 
de que a morte rondava por ali e os esperava a cada passo. Depois... mais nada: os vaqueiros continuaram a fumar e a cantar; o gado aquietado; a brisa nocturna, 
perfumada e suave, a fazer ondular a grama; os patos a voejar, dum lado para o outro, sobre o lago - e as estrelas a empalidecerem, ofuscadas pelo claro da Lua 
cheia...
Texas Joe apareceu, a trote:

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- O patro e o Reddie podem ir para a cama. Agora so duas horas de guarda e duas de descanso, para cinco de ns. Ainda no tenho a certeza de tudo estar bem.
Reddie nem sequer parou de cantarolar a toada doce com que Se entretinha. S Brite respondeu: - O qu? Ainda no deve ser meia-noite, Texas!
- Talvez. Em todo o caso, vo... Reddie, tens uma voz demasiado fina, para um rapaz... Comeo a desconfiar de ti.
- V, patro? - murmurou a jovem, assustada, agarrando um brao de Brite. - Este homem desconfia de mim!
- Deixa-o l! Se descobrir, tanto pior
- Para ele ou para mim?
- Para ele, sem dvida!
- Porqu, patro?
- Ora, porqu? Porque ficar to doidinho por ti que...
- Oh, meu Deus! - exclamou Reddie, aterrada, dando de esporas  montada e sumindo-se na sombra.
"- Bem, foi uma ideia! - murmurou Brite para consigo, atrapalhado, ao aperceber-se que dissera algo desagradvel  rapariga. - No me fugiu, hem?!"
E dirigiu-se vagarosamente para o acampamento, onde Hallett e Ackerman j se encontravam, sentados perto do lume, a beber caf.
San Sabe apareceu, tambm, ainda a acabar uma cano. Brite foi enrolar-se nos cobertores, notando, de passagem, o cavalo de Reddie, parado ali perto, e uma figura 
negra, curvada junto de um pequeno macio de arbustos.
Quando, na manh seguinte, Brite foi tomar o pequeno almoo, s Whittaker e Pan Handle estavam presentes, a comer  pressa.

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- A manada j est em andamento, patro - anunciou Smith. - Fomos chamados.
Brite saudou-os, apurando o ouvido para o distante matraquear dos cascos. Era muito cedo, o Sol ainda no nascera, mas um cu balsmico e sem nuvens prometia bom 
tempo.
- O Reddie?
- Est com os cavalos. Quando ouviu o assobio do Joa largou o comer, como um coelho assustado! Eu pedi-lhe cavalos novos.
- Deve haver qualquer coisa... - monologou Brite. - Bem, j vai sendo tempo.
- A leva, assim, no presta - blasonou Whittaker. - Que pasmaceira! Estou desejoso de aco! ,
- Hum, hum!... T-la-s com fartura, descansa - declarou Brite, taciturno.
- A vem o Reddie com os cavalos - anunciou Pan Handle. - Gosto do mido, patro!  simptico e sossegado, monta como um vaqueiro e percebe de cavalos!
- Eh, homens, segurem nos bichos! - gritou Reddie, desaparecendo logo em seguida.
Foi cada um por si. Uma corda que por ali havia ajudou-os a dominar os cavalos, repousados e ariscos, com pouca vontade de suportarem a sela. Brite prendeu o seu, 
um pequeno baio zaragateiro, e, depois, foi acabar a refeio, enquanto os outros se afastavam.
- Que aconteceu, para a manada abalar to cedo, Moze?
- No sei, patro. Parece que foram os prprios bichos que comearam a andar. So uns almas danadas e nem Deus sabe por que fazem as coisas!
- Est bem. Arruma tudo, mesmo sem lavares a loia, e pe-te, tambm a andar.
- Sim, "si".

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Brite montou o pequeno baio e logo calculou que ele ia dar-lhe que fazer. Todo o pessoal tinha de montar os cavalos que Reddie conseguia laar mais prontamente, 
e aquele mostrava todos os indcios de no ser boa pea. Conseguiu, porm, amansar-lhe o gnio, dando-lhe de esporas pela pradaria fora.
Um disco vermelho comeara a espreitar, no horizonte, anunciando ao universo que mais um dia nascera, e bandos de pssaros saam da gua, na direco do gado. Uma 
nuvem de poeira, baixa e distante, indicava o movimento da manada, para o Norte. Bayne reunira os cavalos de reserva no flanco direito, cerca de meia milha atrs.
Ackerman deteve a sua montada, esperando pelo patro, que vira aproximar-se:
- Viu aquele boi morto, no caminho?
- No, no vi.
- Fui eu que tive de atirar-lhe.
- Porqu?
- Algum o estropiou. Tinha uma perna partida, com balas de agulha.
- Que dizes?! No temos armas para bfalos, nesta leva!
- Tambm me admirei. Devem ter ferido o bicho antes de amanhecer.
- O Texas sabe?
- Provavelmente, no. S entrou de guarda comigo, ao alvorecer. Mas algum dos rapazes deve ter ouvido o tiro, com certeza!
- Hum!... Parece-me que esteve por aqui perto um acampamento... H muito lixo, no lago. Bem, foi talvez algum que precisava de carne.
Brite afastou-se por entre o gado, ps o cavalo a passo e, descansadamente, observou o horizonte com ateno. Apesar de tudo, no podia deixar de considerar agradveis 
as longas horas que iam passando.

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Pelo meio da tarde a interminvel ladeira, quase imperceptvel enquanto a no venceram, ficou para trs. Agora, a terra descia, at ao vale, onde largas faixas de 
areia branca apareciam, aqui e ali, por entre o lenol de gua que o vento encrespava. Nas margens, tufos verde-negros de arvoredo e verde-claros de erva convidavam 
a acampar. Quatro guias, um aps outro, transmitiram as ordens do capataz:
- Cruzamento adiante! Continuar a andar!
Brite observou a vanguarda da grande manada desviar-se para Oeste, ao longo da margem, e sete guias juntarem-se desse lado. O gado tinha sede e no mudaria de direco 
enquanto a no satisfizesse. O maior perigo consistia no facto de alguns bois tresmalhados haverem forado a barreira que lhes era oposta pelos vaqueiros, tomando 
caminho errado. Diversos tiros soaram, indicando que os rapazes tinham dificuldade em faz-los voltar ao seu lugar. Brite no sabia, ao certo, onde a Pista cruzava, 
mas devia ser perto dali. Smith acenou com um leno vermelho, do cimo de uma pequena elevao. S ele estava do lado da manada virado ao Oeste, mas, de sbito, desapareceu 
e, acto contnuo, como uma avalanche invencvel, o gado comeou a descer a ladeira. A parte posterior da manada empurrou a da frente e, num momento, o entrechocar 
de chifres e o mugir das vacas tornou-se ensurdecedor. Brite verificou que a sua presena se tornava mais necessria no flanco direito, para ajudar a manter no seu 
lugar os bois mais recalcitrantes e impedir que os mais vagarosos ficassem para trs. Quando a vanguarda da manada - uma amlgama de vermelho e branco - passou o 
cruzamento, em turbilho desorientador, tornou-se ainda maior a dificuldade em conter a rectaguarda e, ento, essa tarefa passou a ser desempenhada um tanto ou quanto 
ao acaso. Os sete rapazes que se haviam reunido de um s lado ficaram impossibilitados de actuar.

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Reddie Bayne alinhou os cavalos de reserva do lado esquerdo e foi juntar-se aos cavaleiros da direita. Brite gritou-lhe que no se pusesse  frente dos animais, 
pois alguns deles arremetiam furiosos, erguiam as patas como mulas teimosas e sacudiam ameaadoramente as cabeorras. Quando, por fim, a rectaguarda enfurecida conseguiu 
entrar na gua, Brite verificou que alguns tinham ficado atolados na areia molhada e revolvida pelos milhares de cascos impacientes. Na sua maioria, eram bois turbulentos, 
que haviam sado antes de tempo da margem. Uns debatiam-se furiosamente, outros afundavam-se, mas todos berravam com fora.
Texas Joe voltou atrs, a galope, e gritou para Reddie Bayne, com os olhos despedindo chispas:
- Por que diabo no ficaste ao p dos cavalos? Sai daqui!
Reddie no respondeu. Limitou-se a entrar na gua com o cavalo.
- O patro tambm c no  preciso - continuou o capataz, depois de mandar embora Whittaker, Bender e Smith. - V com eles.
- Deixa-os ficar, Texas - aconselhou Brite. - So s vinte e uma cabeas.
- No, que diabo! - gritou Joe, desatando o lao. - No fica c nenhum. A postos, rapazes, preparem os laos! No se aproximem do lodo; Puxem-nos para cima!
Dito isto, Shipman afastou-se da margem, volteando o lao sobre a cabea. O seu cavalo enterrava as patas na lama at aos jarretes, mas sem deixar de mover-se, e 
o cavaleiro, jogando a corda com fora, laou um boi que tinha apenas a cabea de fora. Depois, gritando e esporeando a montada, entregou-se  dura tarefa de arrancar 
o animal do lodo. Os outros rapazes imitavam-no, e a cena que se seguiu foi de extenuante e ruidosa actividade.

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Todos foram rpidos e eficientes. Alguns animais puderam ser facilmente retirados da crtica situao em que se encontravam, mas outros s  custa de enorme esforo 
de cavalos e cavaleiros conseguiram salvar-se. Texas no conseguiu libertar o alentado animal que laara e Brite gritou-lhe que o deixasse. Nesse instante, porm, 
a montada do capataz atolou-se, tambm, at aos flancos. Rpido como o raio, Texas desmontou, com sela e tudo, mas, embaraado pelo lao que, numa ponta, estava 
preso  sela e, na outra,  cabea do boi, acabou por afundar-se. O cavalo lutava, para desatolar-se, mas Shipman teve de gritar por socorro. Ackerman e San Sabe 
correram em seu auxlio:
- Agarra-te! - gritou o primeiro, lanando-lhe um lao aberto.
- San, vai l a baixo e prende-me aquele maldito bicho com o teu lao! - ordenou Texas, pegando na ponta da corda de Ackerman e prendendo-a  sela, apesar de estar 
enterrado at s coxas e a afundar-se a olhos vistos.
- J est, Deuce! - gritou San Sabe, fazendo voltear o cavalo. - Agora  puxar!
Os cavalos enterraram-se mais no lodo, os laos zuniram e Texas Joe foi puxado para cima, sem largar a corda a que se segurava. Os dois cavaleiros safaram o touro, 
comearam a pux-lo e, pouco depois, com um terceiro lao a envolv-lo e literalmente arrastado, o bicho pisava terra firme, como uma gigantesca tartaruga enlameada. 
Texas apostrofou-o, com pragas e palavres, como se o animal fosse um ser humano.
Brite, que assistira maravilhado a toda a cena, s uma vez achou necessrio dar uma ajuda, mas esta nem chegou a ser precisa. Como ndios Comanches, aqueles jovens 
gritavam e laavam, de olhos chispantes e feies crispadas. A sua rudeza e os seus modos condiziam com os seus actos; eram, como eles,


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duras, primitivas e indomveis.
A ltima vaca estava por demais distante e atolada para ser possvel salv-la; mas nem por isso deixaram de tentar. Fizeram tudo quanto foi possvel; os laos, porm, 
eram curtos e apenas um conseguiu prender-se-lhe num chifre, mas mesmo esse deslizou e soltou-se.
- Est perdida, rapazes! - gritou Brite. - Deixem-na!
- Pois sim, mas primeiro, acabemos-lhe com o sofrimento! - gritou um deles.
Soaram diversas detonaes. As balas zuniram, mas falharam o alvo, perto da cabea do animal.
- Julgava que os tipos do Uvalde soubessem atirar, mas enganei-me! - berrou Texas, puxando da sua arma.
Fez pontaria, com cuidado. Acto contnuo, um olho do animal saltou-lhe da rbita, a cabea descaiu-lhe e o corpo enterrou-se-lhe no lodo, ficando apenas  vista 
a ponta do comprido chifre.
- Raios! - exclamou Deuce Ackerman, com uma gargalhada, guardando a arma.
- Bem, espero que acertes assim quando algum pele- vermelha se preparar para levar-me o cabelo! - elogiou Less Holden.
Texas, porm, nada disse. Retirou a sela da lama, sacudiu a manta e colocou-a sobre o cavalo. Ps-lhe, depois, em cima a sela encharcada, montou e seguiu os outros, 
na travessia do pequeno ribeiro. Brite imitou-o, com cuidado, deixando o cavalo escolher o caminho.
Guiaram as vinte cabeas de gado salvas para a margem e conduziram-nas para l do arvoredo, onde a grande manada pastava tranquilamente na erva tenra, alheia aos 
cuidados e trabalhos que dera naquele dia.
- Aqui est bem - declarou Texas cansado. - Deuce, v quando vem o Moze. Deve precisar de ordens e, talvez,

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de ajuda para atravessar. Irra, estou derreado! Estafado, molhado e com as botas cheias de gua! Raio de sorte, as minhas lindas botas novas! Eh, Red, s bom rapaz 
e descala-mas, anda!
- Quem era o seu escravo negro o ano passado? - perguntou Reddie, friamente.
- No interessa quem fosse, diabos te levem! - gritou, mas logo a seguir mudou de tom: - Foi um favor que te pedi; tenho as mos todas esfoladas.
- Est bem - concordou Reddie, que, com bons modos, o descalou.
- Texas, viste aquele boi aleijado, esta manh? - perguntou Deuce.
- No. Aleijado como?
- Com uma perna partida por um tiro de caadeira de bfalos. Tive de abat-lo.
- Caadeira de bfalos! O pessoal tem alguma?
- No.
- Tens a certeza, Deuce? - insistiu Joe, com interesse crescente.
- Absoluta. Conheo-as bem, assim como os buracos que fazem.
- Que pensas tu?... Eh, patro! Ouviu?
- J me tinham dito esta manh. Pan Handle Smith interveio:
- Eu ouvi o tiro, Shipman. Foi disparado ao alvorecer por algum que no pertence ao nosso grupo.
- Ento, havia algum acampamento perto do nosso. Agora me lembro de ter-me cheirado a fumo quando descemos para o lago!
-  verdade, eu vi fumo para os lados do Oeste.
- Algum que precisou de carne, com certeza - declarou Brite, sugerindo o que desejaria que fosse na realidade.

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- Hum... - duvidou Deuce, reflectindo. - O bicho era velho e o tiro foi dado de muito longe. Algum apontou sobre a manada, mas no por falta de carne...
- Porqu, ento? - indagou Texas.
Ningum respondeu, mas Brite sabia perfeitamente que os trs pensavam o mesmo que ele, embora no exteriorizassem as suas suspeitas.
- L vem o Moze - informou Ackerman. - Reddie, traz um cavalo grande, para lhe darmos um reboque.
Afastaram-se os dois, por entre as rvores, dirigindo-se para a margem. Moze parara o vago do lado oposto e era evidente que procurava o melhor stio para atravessar.
Texas olhou de Pan Handle para Brite e o brilho frio que havia nos seus olhos, naquele momento, merecia a pena ser visto:
- Vocs acham que estamos a ser perseguidos?
- Tanto podemos estar a ser como no... - replicou Brite.
- Se nos perseguem, o que procuram? - inquiriu Smith. - Somos doze homens fortes... Seria uma tolice.
- O caso parece-me feio, Smith. O Texas j fez a Pista mais vezes e sabe, to bem como eu, que devem vir-nos na peugada alguns tipos especializados em tresmalhar 
o gado. A minha manada  muito grande e o pessoal muito pouco...
- Sim?...
- Nunca me tinha acontecido - prosseguiu Brite - encontrar-me com essa gente. A sorte tem estado sempre comigo, mas sei o que se tem passado com outros. Alguns apanham 
umas cabeas aqui, outras acol, e acabam por formar uma manada prpria, que conduzem a Dodge; h, tambm, os criadores invejosos que contratam esses tipos para 
tresmalharem a manada que vai  frente... Enfim, um negcio porco.
- Um negcio para liquidar a tiro,  que ! - replicou Texas,

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com os olhos coruscantes. - O patro acha que, esta noite, devemos dar uma vista de olhos l para trs ou que esperemos a ver se...
-  melhor esperar - aconselhou Brite. - Se nos seguem, acabaremos por sab-lo mais cedo ou mais tarde; se no nos seguem, escusamos de perder tempo. Perguntem ao 
Moze se viu algum cavaleiro na rectaguarda.
Durante a noite, Brite foi acordado de repente, sem saber porqu. As trs estrelas to suas conhecidas obliquavam ainda para Oeste, sinal de que a manh estava longe. 
O silncio era profundo; no se ouvia a manada nem sequer a cano de algum vaqueiro solitrio que estivesse de guarda. Os prprios insectos quase no faziam ouvir 
o seu melanclico zumbido e a fogueira do acampamento mal bruxuleava. Apenas, l para o Norte, se ouvia o queixume penetrante dos coiotes. De sbito, a descarga 
de uma arma rasgou o silncio, acordando-o de todo: - "Calibre 45" - monologou Brite, tentando ver, nas trevas, quem dormia perto de si.
Trs dos dorminhocos nem se mexeram. Logo a seguir, soaram trs detonaes mais fortes, que Brite reconheceu provirem de caadeiras de bfalos. Um dos vaqueiros 
ergueu-se de um pulo, ficando hirto como um espectro: Texas Joe! Escutou na direco do Sul e o matraquear duma "45" f-lo gritar uma ordem seca:
- Fora daqui, rapazes! Peguem nas armas e toca a andar, sem fazer barulho!
Dois dos interpelados acordaram ao mesmo tempo, levantaram se, pegaram nas armas e seguiram Shipman, que j se afastava na sombra; o terceiro, porm, despertou pouco 
a pouco, estremunhado: era Hal Bender.

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- Levanta-te, Bender - ordenou Brite, erguendo-se, tambm.
- O que foi, patro? - perguntou o tenro, calando as botas.
--No sei bem. Foram uns tiros. Anda, pega na arma.
- Ah! E o que  isto?
Um trotar abafado, para o Sul, chegou aos ouvidos apurados de Brite.
- Cavalos! Devem andar atrs da nossa manada, suponho - respondeu Brite, afrouxando o andamento.
No podia avanar depressa, pois arriscava-se a ir de encontro s rvores, tal era a escurido. Bender resfolgava, perto dele. O patro parou duas vezes, procurando 
apurar, pelo barulho, a direco que seguiam os cavaleiros. Deixaram, por fim, o arvoredo e encontraram-se numa clareira a que a plida luz das estrelas dava uma 
cor acinzentada. Vozes estridentes guiaram-nos mais para a esquerda. Brite correu, com cuidado, para no tropear na grama, com a carabina aperrada e os olhos bem 
abertos.
- Quem vem a? - perguntou a voz de Texas Joe.
- Brite. Onde ests?
- Aqui. Cuidado com os buracos.
Brite e Bender em breve se juntaram a um grupo de quatro homens, um dos quais montado.
- no sei nada, alm do que ouvi - dizia este. - Cavalos a correrem, furiosos, e, depois, tiros. Dois tiros de caadeira de bfalos e um duma "45".
- De que lado, San?
O vaqueiro apontou para o Sul.
- Escutem todos - ordenou Texas, deitando-se no cho e apoiando o ouvido na terra.
O silncio era vibrante, intenso; nada o perturbava. - Cavalos a mexerem-se algures - informou Texas, levantando-se.


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- Inquietos, apenas; j no correm. Agora, ouam o resto...
Texas ps as mos em concha, sobre a boca, inspirou com fora e gritou, por fim:
- Eh, Reddie!
O grito rompeu o silncio e como que rolou pelo espao, estranho e selvagem. Logo a seguir, ouviu-se a resposta, fraca, mas clara, vinda do Sul.
- Olhem, parece...
- Caluda! Ouam com ateno - interrompeu Texas. Ouviu-se outra resposta, da direco contrria, e, depois
um grito, muito distante, a Oeste. Seguiu-se nova resposta, mais perto, localizando a manada.
- Dispersem, amigos, e corram nesta direco - ordenou Texas. - Parem de cem em cem jardas, mais ou menos e vejam se vem os cavalos. Vamos ter que fazer, creio 
bem.
San Sabe puxou as rdeas ao cavalo e desapareceu. Brite voltou-se para a direita, obedecendo s ordens. Parou cerca de uma dzia de vezes, at que, por fim, ouviu 
barulho de cavalos mas no os viu. Depois, continuou a andar, quase desfalecido, mas sem desistir. Texas Joe no reagira com serenidade, daquela vez. O relinchar 
de cavalos f-lo voltar atrs, para a esquerda, e em breve se lhe deparou uma grande mancha negra no meio da noite.
- Onde diabo ests tu, Reddie? - gritou Shipman.
- Estou aqui! - respondeu a voz aguda que Bride j conhecia to bem.
- Que ests aqui a fazer, a esta hora? - perguntou Texas, peremptrio.
- No fui para o acampamento - respondeu Bayne.
- E por que no obedeceste s ordens?
- Estava desconfiado, Shipman; fiquei com os cavalos. Ouvira umas vozes e vira umas luzes... Juntei os animais e conduzi-os

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para longe da manada. No tardou que ouvisse o bater de cascos e que surgisse um grupo de cavaleiros, a toda a brida. Atirei ao da frente e acertei nele ou na montada, 
mas no desistiu e apontaram todos para os cavalos. Quando comearam a disparar, vi logo o que queriam. Isolaram alguns dos nossos cavalos e levaram-nos. Disparei; 
dispararam, tambm... e creio que foi tudo.
- Ladres! O Deuce tinha razo! - declarou Texas.
- Vamos atrs deles - sugeriu Holden. Brite no achou a ideia acertada, mas calou-se.
- Quantos roubaram, Reddie?
- No sei, mas poucos.
- Bem,  melhor esperarmos o romper do dia. Tu, Reddie, vai para o acampamento descansar o resto da noite.
- Se no se importa, prefiro ficar - volveu Bayne.
- Como quiseres. Vocs, rapazes, dispersem e cerquem os cavalos. Gritem se algum se aproximar.
Mais uma vez o silncio caiu sobre a pradaria. Os cavaleiros desapareceram, um a um, e Brite ficou de ronda, junto de Texas Joe.
- Que dizes a isto, Joe?
- Era de esperar. Vamos ter dores de cabea sem conta. Muito gado e poucos homens...
- Tens razo - concordou Brite, pensativo. - Mas, se chegarmos a Dodge apenas com metade do que levamos, ainda farei bom negcio e, com certeza, no me esquecerei 
de vocs.
- A mim no me interessa que percamos ou no algumas cabeas, mas no deixarei roubar um nico boi, mesmo velho, sem lutar at ao fim! Quanto mais cavalos! Fico 
furioso! E que me diz do mido, Brite? Ficar assim, sozinho, alerta! Diabos o levem! Faz-me o juzo em gua, mas gosto dele, no sei porqu.

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- Tambm eu, Texas, e bem desejaria que o tratasses um pouco melhor.
- Bem sei, mas nesta leva no haver favoritismos. Tero de aturar-me e de fazer o que eu mandar, at chegarmos a Dodge, pois, de contrrio, nunca l chegaremos.
- Arranjei-te uma carga! - murmurou Brite, tristonho.
- E se ela  pesada! Bem, est a clarear. Vamos a ver o que nos trar o novo dia.
Brite continuou a ronda, fitando as estrelas que empalideciam e se sumiam, vendo colorir-se o nascente, dissolver-se o negrume, como que por encanto, e tudo tomar 
forma e cor: gado, cavalos, terra...
Pouco depois, Texas Joe acenou-lhe que fosse para o acampamento. A manada principiou a mover-se, vagarosamente, para o Norte, e mais uma vez o tempo prometia estar 
bom. Quando chegou ao acampamento San Sabe, Bender e Ackerman rodeavam Alabama Moze, de tigelas na mo.
A seguir chegou Texas Joe, a p, com os olhos vivos semicerrados e os lbios finos apertados um contra o outro.
- Deuce, tu apontas a manada e continuas o caminho - ordenou, em tom seco. -- Manda o Pan Handle e os outros para c.
- Que vais fazer?
- E Reddie vem a com alguns cavalos. Parece-me que vou dar uma olhadela l por trs, pelo Sul... Perdemos mais de vinte e cinco cavalos!
- Fraco prejuzo, se ficar por a.
- Parece-lhe? Pois olhe que, para um velho texano, acho-o mole demais com esses ladres!
- Qualquer destes dias passa-lhe a moleza, Texas - disse Deuce, com um sorriso.

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Reddie entrou no acampamento atrs de meia dzia de cavalos bravios e os rapazes atiraram-lhe os laos, para os encurralarem a um canto. Em breve apenas Brite, Texas 
Joe, Reddie e o negro ficaram no local. Joe estava taciturno, esfomeado e cheio de pressa. Reddie pegou no comer que Moze lhe deu, sentou-se num banco improvisado 
e comeou a deglutir sem dar ateno a mais nada.
O Sol espreitava no horizonte, rubro e quente, e toda a terra parecia envolta numa luz rsea. At os pssaros pareciam modificados. A grama brilhava como prata, 
as flores abriam as suas corolas, voltadas para o nascente, a natureza renascia! Brite respirou fundo, extasiado. Texas Joe ergueu-se, de repente, praguejando entre 
dentes, e inclinou-se para o Sul, na posio de quem escuta.
- Que ests a ouvir, Texas? - perguntou Brite.
- Cavalos.
- E que tem isso? - inquiriu, de novo, o patro que, tambm, os ouvia agora.
- Nada. Mas se nos lembrarmos do que aconteceu esta noite, o caso muda de figura.
Pouco depois, um grupo de cavaleiros apareceu  entrada do arvoredo. Bride contou sete ou oito, todos de mau aspecto e a trote largo. Texas examinou-os com ateno 
e, em seguida, voltou-se para Brite:
- Tm-nos estado a espiar, patro - afirmou, com os olhos em fogo. - Os nossos rapazes no esto c, nem a guarda  vista...
De sbito, Reddie Bayne levantou-se, deixando cair o tacho do comer:
-  o Wallen e o seu pessoal! - gritou, aterrada.
- Tens a certeza? - perguntou o capataz.
- Absoluta! Conheo-o... e apostava que foram eles quem espantou os cavalos. Agora, vm  minha procura.
- Bem, fica a atrs e toma cuidado com a lngua.

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Brite, ponha a Winchester  mo. Eu falo... Agora  que nos seria til o seu Pan Handle Smith.
O grupo de cavaleiros aproximou-se rapidamente e formou um semicrculo em frente do fogo e do vago. Desta vez, Brite no teve iluses acerca do que pretendiam! 
Reconheceu o moreno Wallen que, com os grandes olhos atrevidos, percorria o acampamento e o terreno  volta. Entre os outros homens, encontrava-se um ainda mais 
impressionante do que o prprio Wallen - um tipo de cinquenta anos, de rosto empedrenido e gelado, e olhos duros. Brite j o vira, algures. Os restantes cinco no 
passavam de dignos servidores dos chefes: eram vaqueiros jovens, magros e irrequietos.
- C est o nosso Reddie Bayne - rosnou Wallen, estendendo a mo pesada para Reddie.
- No h dvida, Wal - confirmou o seu lugar-tenente, em voz seca e crispada.
- Mentiu-me, h dias, hem, Brite? - observou Wallen, pousando em Brite os olhos arredondados.
- No tenho satisfaes a dar-lhe! - exclamou Brite, sentindo o sangue a ferver-lhe.
Texas Joe deu um passo em frente e outro para o lado, saindo fora do alinhamento do vago, com um significado que no escaparia a nenhum texano.
- Wallen, vi alguns dos seus homens armazenarem caadeiras de agulha nas selas - disse com sarcasmo.
- E depois? Andamos a caar bfalos!
- Isso  o que voc diz.
- Falarei com Brite e no contigo, vaqueiro - declarou o outro, agressivo.
- Falar com Texas Joe! - declarou Brite, no mesmo tom.
- Brite, ns queremos esse garoto, o Reddie Bayne,

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que voc raptou - prosseguiu Wallen, como se no
tivesse ouvido.
- No estou habituado a perder palavras com homens
como voc, Wallen - interps Texas Joe, mordaz, e Brite teve a impresso de que o seu capataz estava a procurar ganhar tempo, talvez na esperana de que Pan Handle 
e os outros chegassem, entretanto, ao acampamento.
Deitou, por isso, um olhar furtivo  pradaria, mas nem sinal de cavaleiros! O caso era srio, pois ia haver sarilho ali. sem grande demora.
- Mas, quem diabo s tu? - inquiriu Wallen, furioso.
- Eu conheo o homem - esclareceu o scio de Wallen. -  Texas Shipman.
- Isso no significa nada para mim.
- Ento, fale, camarada - retorquiu o outro, em voz fria e dura, que fez Brite compreender que, dos dois, era ele o mais perigoso.
- No preciso que voc, Ross Hite, fale por mim! Ross Hite! Era um nome bem conhecido dos guias de gado, pois correra todas as profisses que o Texas pode proporcionar.
- Ento, fale, e no se demore! - gritou Texas. - Que quer?
- Quero Reddie Bayne. Ficou ao meu servio, depois de um negcio que fiz com o Jones, de Braseda.
- E Bayne deve-lhe esses servios?
- Claro!
- Que dizes, Reddie?
- Ele  um intrujo, Texas! - gritou Reddie, avanando. - J fugi de trs ranchos, para me ver livre dele.
- Cala a boca, seno  pior para ti! - gritou Wallen, por sua vez.

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- Mais devagar, Wallen! - aconselhou Texas. - Estamos num pas livre; o tempo da escravatura, branca ou preta, acabou-se!
- Reddie, diz-me por que  que ele te quer - interveio Brite, pois o seu sangue texano no podia aguentar por mais tempo aquela mentira. Alm disso, muito ao longe, 
avanava um cavaleiro a galope: Pan Handle!
- Oh, Tex! - quase soluou Reddie. - Ele quer levar-me porque... porque... eu no sou o que pensa.
Texas estremeceu, mas no se afastou, nem a grossura dum cabelo, do cavaleiro que estava  sua frente. O rosto de Wallen tornou-se ainda mais escuro, quase terroso.
- O que s tu, Reddie? - perguntou Joe, em voz baixa e fria.
- Sou... sou uma rapariga. E... e  por isso!
- Cuidado! - gritou Ross Hite, com voz estridente. Wallen levou a mo ao coldre e Texas pareceu danar
ante os olhos fixos de Brite. Uma arma vomitou fogo e, ao mesmo tempo, Wallen ergueu-se na sela, numa rigidez sbita e terrvel. A raiva que lhe contraa o rosto 
desvaneceu-se e ele caiu no cho, com um rudo seco. A montada desatou a correr e os outros cavalos relincharam, inquietos.
- Toca a andar ou furo-os a todos! - gritou Texas, de arma apontada. - Brite, para trs de um, com a carabina; Reddie, a mesma coisa.
Brite nem precisou da ordem; a sua carabina estava j levantada, antes de Joe comear a falar. Reddie avanou, tambm, ameaadora e sem medo.
Todos os cavaleiros, excepto Ross Hite, esporearam as montadas, com fria, e alguns afastaram-se. O lugar-tenente, porm, no revelou medo no olhar que deitou a 
Texas e ao prostrado Wallen. Ao longe, ouviam-se os gritos dos vaqueiros e o tropel dos cavalos, avanando a galope.
- Quer que levemos Wallen, Brite? - perguntou Ross.

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- Obrigado, ns trataremos dele! - replicou o interpelado, sarcstico
No mesmo instante, um cavalo passou, a galope, pelo vago, e, como o cavaleiro o fizesse deter-se abruptamente, espalhou poeira e terra por toda a parte. Pan Handle 
saiu do meio daquele pandemnio com uma arma em cada mo. S ento a ansiedade de Brite afrouxou.
- Que se passa? - perguntou Smith, serenamente. Ross Hite fitou-o e, por fim, soltou uma gargalhada
spera:
- Voc  previdente, Brite! Primeiro Texas Shipman e agora Pan Handle Smith!
- Desaparea daqui! - ordenou Texas.
- Homens, o negcio era de Wallen e no meu - replicou Hite, voltando o cavalo e afastando-se atrs dos companheiros que lhe restavam. Pouco depois, rompiam a galope 
e desapareciam por onde haviam vindo.
S ento Texas Joe se mexeu. Lanou um olhar rpido ao morto e, plido e de olhos febris, deu duas longas passadas em direco a Reddie:
- Disseste que s uma rapariga?
- Sim, Texas Joe... sou - respondeu a jovem, tirando o chapu, para o provar.
Tinha o rosto contrado e os olhos dilatados de terror. O rapaz segurou-a por um ombro, com a mo esquerda, e f-la erguer-se, bem defronte dos seus olhos perscrutadores. 
Os seus cabelos desgrenhados, pareciam a juba de um leo, mas a fria ia-lhe esmorecendo, dando lugar ao espanto:
- Tu... s uma rapariga?
- Sim, Texas - murmurou, tremendo, sob a mo de ferro que a retinha. - Eu... eu... no queria engan-los... disse ao patro... Quis dizer-lhe a si, tambm, mas ele 
no me deixou... Desculpe.

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Captulo V



Com ar sucumbido, Texas largou Reddie to subitamente que ela caiu.
-  incrvel! - exclamou o rapaz, enquanto o rosto plido se lhe tornava cada vez mais corado. - Fazer-se passar por rapaz, diante de todos ns... consentir que 
a espancasse e...
- Consentir! - gritou Reddie, ainda mais vermelha do que ele. - Que havia eu de fazer, seu grande bruto, se voc se atreveu a tanto?!
- E todas as pragas, todas as conversas grosseiras, diante de uma rapariga! - prosseguiu ele, como se no a ouvisse. - Fez uma coisa horrvel, "miss" Reddie Bayne!
- Concordo. Mas foram os homens malvados como ele - e apontou, com o dedo trmulo, o cadver de Wallen - que me obrigaram a isso!
Estas palavras tiveram o condo de fazer compreender a Texas Joe o lado trgico do que acontecera. Voltando abruptamente as costas  rapariga, guardou a arma que 
ainda conservava na mo direita e fitou o morto.
- Revistem-no - ordenou, com voz dura e fria. - Levem-no daqui e deitem-no  gua... Livremo-nos disto...
- Onde vais, Texas? - perguntou Brite, vendo-o afastar-se.
- Leve o meu cavalo - gritou Reddie, logo a seguir. Texas Joe, porm, no deu mostras de t-los ouvido, e desapareceu da vista, atrs dos arbustos.

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S ento afrouxou a tenso que se apoderara de todos. Reddie deixou-se cair, pesadamente, como se as pernas lhe enfraquecessem de chofre:
- J vi homens mortos a tiro... mas nunca por minha causa - murmurou. - Sinto-me como... uma assassina.
- Tolice, Reddie - ralhou Brite, em tom rspido. - Eu prprio o teria abatido, se o Texas no se antecipasse. Pan Handle, viste aquele camarada com um cavalo meu?
- No, patro, no reparei; toda a minha ateno estava concentrada em Ross Hite.
- Pois  verdade! Quando comprei os animais, fixei, por acaso, um pequeno baio com o focinho branco, e nunca me engano a reconhecer cavalos, depois de os ter visto 
uma vez! No h dvida, portanto, de que foi a gente do Wallen quem nos roubou, esta manh!
- Eu no conhecia o Wallen, mas a verdade  que andava em m companhia... - observou o fora da lei.
- Ah! Ento conheces esse Ross Hite? - inquiriu
Brite.
- Muito bem! Era negociante de gado, em Abilene, mas meteu-se em negcios escuros e aquilo aqueceu demais para ele. O que me espanta  v-lo envolvido no roubo de 
meia dzia de cavalos. Talvez tenha sido apenas de passagem, para aproveitar o tempo, pois deve ter em vista coisa mais importante...
- Sim, calculo que seja o cabecilha de alguma tramia - concordou o patro, apreensivo. - Os guias de gado chegam a perder metade das suas manadas e sei de um a 
quem roubaram os bichos todos!
- Joe devia ter feito ao Hite o mesmo que fez ao Wallen; o tipo vai arranjar-nos sarilhos, no resto da viagem! - afirmou Smith, pensativo.
Enquanto conversavam, Ackerman, Whittaker e San Sabe haviam retirado Wallen do acampamento. Voltaram pouco depois,

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carregando a arma e o coldre, as esporas, um grande relgio de prata e um alforge, pesado e ensebado.
- Abri isto, patro - declarou Ackerman, apontando o alforge. - Deviam andar atrs do tipo!
Brite abriu-o, tambm, e encontrou-o cheio de notas.
- Oh, deve ter assaltado algum Banco! - exclamou, admirado. - Esto aqui centenas de dlares! Que vamos fazer disto?
- Que lhe parece? - perguntou Ackerman, sarcstico. - Quer que corra atrs do pessoal de Wallen e lhe entregue a massa?
- Claro que no! Estava a brincar. Vou guard-la e dividi-la-ei por vocs, no fim da jornada.
Os homens deram largas ao seu contentamento. Brite guardou o dinheiro na sua mala e no vago os restantes pertences de Wallen.
- Repararam onde o Joe acertou no tipo? -- indagou Pan Handle, curioso.
- Vimos, sim! Mesmo no meio da algibeira esquerda da camisa. A bala atravessou o saco do tabaco.
- Foi uma boa chumbada! - murmurou Smith, reflectindo. - Este Texas Joe atira a valer!
Brite sabia o interesse que os pistoleiros demonstram pela eficincia dos outros e, por isso, informou-o de que o rancheiro que lhe recomendara Texas se referia 
especialmente  sua pontaria.
- Despachem-se com o comer - ordenou depois. - Temos de nos pr a andar.
Todos obedeceram, com rapidez, excepto Reddie, que continuou sentada, com o rosto apoiado nas mos e os belos caracis ruivos  vista de todos. Possua uma figura 
linda e pattica que, segundo Brite observou, j comeara a produzir os seus efeitos sobre o esprito dos vaqueiros.

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Deuce Ackerman fitou-a diversas vezes e, finalmente, dirigiu-se-lhe, galante, vencendo o seu embarao:
- Ento, Reddie, no tome o caso tanto a srio! Se ns podemos suportar isto, voc tambm pode. J sabemos que  uma rapariga, e se puder esquecer o nosso... o
nosso...
No concluiu, manifestamente incapaz de encontrar as palavras adequadas para exprimir a sua vergonha pelas conversas e pelo comportamento que tivera antes dos ltimos 
sucessos.
- Obrigada, Deuce - respondeu a jovem, compreensiva, procurando vencer, tambm, o seu embarao. - Nenhum de vocs me deve desculpas, pois o Texas foi o nico que 
me ofendeu. No calcula como estou satisfeita por no ter de mentir!
Whittaker ganhou, tambm, coragem para entrar na
conversa:
- Eu... eu confesso que sempre soube...
- O... qu?! - titubeou ela, alarmada.
- Ele no passa de um intrujo, Reddie! - afirmou Deuce. - Ningum sabia, pois no, San?
San Sabe, porm, perdera a fala, e at Moze, boquiaberto, encarava a jovem, de olhos arregalados.
- Enganou-nos a todos, "miss" Reddie, esta  que  a verdade! - declarou o cozinheiro, abanando a cabea. -  uma rapariga! Bem, estou satisfeito por haver uma senhora 
entre o pessoal!
- Podemos continuar a trat-la por Reddie? - Perguntou Pan Handle, secamente, fitando-a tambm.
- Claro que sim!
Em breve todos haviam comido e selado os cavalos, para a jornada daquele dia. Quando Brite se ps a caminho, reparou que os rapazes, ao sepultarem Wallen, nem sequer 
se haviam dado ao trabalho de cobri-lo. Talvez pensassem que a sua gente voltaria a procur-lo, o que era provvel.

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Aquele fora o primeiro acontecimento trgico de todas as levas que j fizera e, em seu entender, no augurava nada de bom. A verdade  que no podia ter sempre a 
mesma sorte fenomenal de que beneficiara at ali. Contudo, a circunstncia de a mais guias isso ter j acontecido, encorajava-o um pouco. Aquela manh trouxera mudana 
sensvel  vida em comum, dera-lhe novos aspectos; e o velho, observando a vastido da pradaria, tentava perscrutar mais alguma coisa do que a beleza habitual da 
paisagem.
A manada seguia algumas milhas adiante, bem apontada e em andamento regular. Reddie e Pan Handle cavalgavam a Oeste, com os cavalos de reserva. Brite subiu a uma 
elevao de terreno, a fim de poder observar melhor o que se passava  sua volta. O dia apresentava-se claro, transparente, e permitia-lhe ver, ao Sul, talvez a 
umas vinte milhas de distncia, uma mancha negra e rasteira. No poderia dizer se se tratava de bfalos ou de gado, mas inclinava-se a crer que eram os primeiros. 
 sua frente e a Oeste, havia neblina; e, por toda a parte, naquela manh, abundavam os coelhos, os gamos e os coiotes.
Por fim, meteu o cavalo a trote, na direco dos guias, que divisara junto da manada. Um deles conduzia um cavalo selado, naturalmente destinado a Texas Joe, que 
ia a p. Durante muitas horas, Brite no conseguiu descobrir o seu capataz.
J o Sol se punha, quando Shipman se deteve, para passarem a noite. Deviam ter percorrido cerca de quinze milhas, o que era muito para o gado. Felizmente, haviam 
passado por gua a meio da tarde, pois onde acamparam no a havia. A erva abundava, assim como os detritos de bfalo. Moze parou o vago na base duma rocha, nica 
salincia na terra plana. Depois de arrumar as suas coisas, Brite ocupou-se a juntar detritos para o lume,

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mas s quando o dia morreu por completo deixou de alongar a vista na direco do Sul.
Texas s apareceu depois da ronda da noite haver partido para a primeira guarda e vinha silencioso e taciturno, como Brite j vira outros homens, aps ceifarem uma 
vida humana. Comeu sozinho, ajoelhado ao lado da fogueira, e, por mais de uma vez, ficou de olhar vago, com a tigela na mo e o pensamento longe dali. A seguir, 
afastou-se na escurido, para no mais ser visto. Rolly Little, Ben Chandler e Roy Hallet manifestavam em todas as suas atitudes o prazer que sentiam com a presena, 
entre o pessoal, de uma rapariga, no s muito bonita, mas, tambm, comovedoramente romntica. Haviam-se transformado, os trs Exaltados, alegres, portando-se o 
melhor possvel, divertiam Brite. Nem uma s vez os ouviu referirem-se  morte de Wallen, facto que parecia ter-se dado muito tempo atrs. Rolly era o nico dos 
trs que tinha a coragem de dirigir-se directamente  rapariga, e fazia-o em voz alta, quase com jactncia, absolutamente diferente do que fora at ali. Bender, 
pelo contrrio, limitava-se a observ-la, disfaradamente.
A mudana mais notvel, contudo - e mais agradvel, tambm - operara-se na prpria Reddie Bayne. Mostrava-se natural, pela primeira vez, e nunca mais precisou de 
entrar ou sair apressadamente, com o velho chapu de abas largas puxado para os olhos. Na realidade, agora nem j o punha, e bastava olhar-lhe a linda cabea, para 
se ver que a lavara. Onde, gostaria Brite de saber. Depois do jantar, foi ajudar Moze na sua tarefa, parecendo no ligar importncia ao trio barulhento entretido 
 volta do fogo, embora um observador atento pudesse afirmar que no lhe escapara uma s palavra dita por eles. Mais de uma vez olhou, furtivamente, na direco 
por onde se


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sumira Texas Joe. Pouco depois, tirou do vago a trouxa das suas coisas, para ir estender a cama, e os trs rapazes correram ao seu encontro, atropelando-se.
- Onde quer estend-la, Re... "miss" Reddie? - perguntou Rolly, que fora o primeiro a chegar.
- Obrigada, mas no se incomodem - recusou. -- No tenho carregado a minha trouxa todas as noites? Ento, por que no hei-de carreg-la hoje, tambm?
- Bem v, "miss" Reddie, a menina... ns... bem, no  a mesma coisa, agora.
- Oh, no ?!...
- Sim... a sua situao aqui... ns j resolvemos: guiar os cavalos,  bastante; no precisa mais de acartar as selas, as camas, a lenha, a gua e outras coisas. 
Ns faremos isso.
- Vocs so muito bons, Rolly, mas esperem que eu no possa fazer isso tudo, para me ajudarem. Valeu?
E pegou de novo na trouxa e carregou-a significativamente, para onde Brite estendera a sua cama. Depois de fazer o mesmo, sentou-se junto do patro:
- Ainda estou mal disposta - confessou. - Tenho aqui uma impresso... - indicou, comprimindo as mos sobre o peito.
- Bem sei, Reddie. O que se passou esta manh... Eu j quase me esqueci; tenho mais em que pensar.
- Oh, e eu j pensei tanto que at me di a cabea! Estes vaqueiros so cmicos, agora;, depois que falei. J reparou?
- J. Bem vs, no  costume haver raparigas nas levas de gado. Se queres que te diga, vo ser, at, alguma coisa mais do que cmicos...
- Tambm o receio. O que pensa?
- Que s uma rapariga bonita e que isso vai trazer complicaes!...

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- Talvez tenha razo. Mas eles so rapazes decentes; gosto deles. At serei capaz de dormir  vontade! Nunca trabalhei com homens to direitos.
-  um cumprimento para todos ns, Reddie, obrigado. Como sei que gostaro de saber, hei-de dizer-lhes o que
pensas.
- A verdade  que no posso esquecer o que se passou
esta manh. Ele foi terrvel, no foi?
- Quem? Wallen?
- Wallen! Oh, esse limitou-se a cair! Refiro-me ao Texas Joe. Nem sei o que senti, quando ele disparou. Foi tudo to rpido! Precisamente no momento em que confessei 
que era uma rapariga... e o Wallen andava atrs de mim, zs, matou-o! E eu que havia rezado tanto para que algum guia o fizesse! Apesar disso, fiquei doente, o sangue 
gelou-se-me nas veias... mas o pior de tudo foi quando Texas me agarrou pela blusa e quase me arrancou para fora das botas! Nunca mais esquecerei o tom como perguntou: 
- "Disseste que s uma rapariga?".
- Tens razo, Reddie - concordou Brite. - Cus, com que rapidez ele furou aquele tratante! At o Pan Handle se admirou! Mas, deixemos isso, Reddie; ainda haver 
mais que ver, nesta viagem.
- Mas, senhor Brite... - titubeou - tenho a impresso... parece-me... que Texas pensou que Wallen tinha... bem que eu era... uma mulher de mau porte, compreende?
- Reddie! Garanto-te que no pensou tal coisa!
- Pensou, sim! Olhou-me de uma maneira, senhor Brite... E eu no poderia ir com a sua gente, se ele pensasse que eu... era uma rapariga sem juzo.
- No, o Texas ficou, apenas, espantado, como eu, como todos ns, afinal. No  vulgar cair-nos do cu uma linda rapariga, como tu. Compreendes, ele dirigira-te 
palavras feias, espancara-te, tocara-te diversas vezes, familiarmente,

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sem imaginar que no fosses um rapaz; e, quando descobriu que se enganara, ficou to envergonhado que nem tem cara para aparecer.
-  muito gentil dizendo-me isso, e eu gostaria de acreditar, pois ele matou um homem por minha causa, salvou-me de ir para o Inferno e de derramar o meu prprio 
sangue. No entanto...
- Ests cansada, Reddie - murmurou Brite, comovido ante o rosto plido e convulso da rapariga. - Deita-te, anda; amanh hs-de sentir-te melhor.
- Dormir! E o que impedir o tal Hite de aparecer aqui com o seu pessoal, mat-los a todos e fugir comigo?
A pergunta assustadora fez Brite pensar que no havia muito a opor a tal catstrofe. Eram precisos muitos homens para guardar o gado e o acampamento ficava quase 
sem defesa...
- Ests a ir atrs da imaginao, Reddie.
- J aconteceu o mesmo no caminho de Braseda, segundo ouvi.
- Eu tenho o sono leve, Reddie; nem os prprios Comanches seriam capazes de surpreender-me!
Reddie sacudiu a cabea encaracolada, em ar de dvida, e murmurou:
- J  difcil ser rapariga, na cidade; aqui, porm,  pior do que no inferno!
- S a gente de Wallen sabe e, com certeza, no se atrevero a enfrentar-nos outra vez. V, deita-te e dorme!
Brite ficou acordado muito tempo, pensando em Reddie e no facto de ela ter vindo perturbar um tanto a vida normal dos condutores de gado. Representava, na realidade, 
um contratempo

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e um risco, mas, apesar disso, no admitia, sequer, a ideia de abandon-la. Que era forte, boa amazona e guiava to bem os cavalos como qualquer vaqueiro, era verdade; 
contudo, tratava-se de uma rapariga - e de uma rapariga que, de minuto a minuto, se tornava mais atraente... Era impossvel impedir os rapazes de notarem esse facto 
perturbador e de reagirem com o natural fogo da juventude - da juventude texana, principalmente. Apaixonarem-se por ela, guerrearem por sua causa... Mas, supondo 
que o faziam!... Brite no acreditava que a juventude, beleza, esprito de conquista, fossem suficientes para virar a cabea a um grupo de valentes guias de gado. 
No, eles lutariam consigo prprios para que tal no acontecesse! A sua natureza livre, bravia, ousada, impediria que se transviassem! Reddie Bayne no era, portanto, 
um obstculo, mas sim uma ajuda!
Ao chegar a esta concluso, Brite compreendeu que a rf ocupava no seu corao um lugar que sempre estivera vazio. Os acontecimentos do dia no haviam sido de molde 
a facilitar um sono sereno. Brite estava ainda acordado quando a guarda rendeu,  meia-noite. Reddie Bayne tambm no dormira.
- Vou dar uma vista de olhos aos cavalos, patro.
- Irei contigo.
Ackerman trouxe os cavalos que deviam descansar e informou que tudo estava sereno e a manada deitada. A Lua, em quarto minguante, brilhava plidamente no cu, onde 
fiapos de nuvens, a Oeste, prenunciavam calor e temporal.
Quando cavalgavam juntos, Texas Joe saiu-lhes ao caminho e notou, carrancudo:
- Parecem inseparveis!
Brite ouviu Reddie murmurar qualquer coisa, em voz baixa, e admirou-se do modo como ela fitou o cavaleiro solitrio. Foram encontrar os cavalos a descansar, com
excepo de alguns, poucos, que pastavam ainda a erva alta. Ao longe, um grande quadrado negro sobressaa como uma mancha na plancie: a manada. San Sabe entoava 
uma cano, mas os outros guardas estavam silenciosos. Brite e Reddie contornaram duas vezes a manada e voltaram ao acampamento. Diversas vezes o patro quis conversar, 
mas Reddie apenas lhe respondeu por monosslabos. Deitaram-se e Brite adormeceu, por fim, at ao nascer do Sol.
O dia decorreu sem novidade. Shipman fez avanar a manada doze milhas, pelo menos, observando, com frequncia, o terreno que iam deixando para a rectaguarda. Nada, 
porm, perturbou a marcha e a noite foi, igualmente, calma. Outro dia se seguiu, saudado j com menos ansiedade, pois tinham a certeza de que, Ross Hite no os ultrapassara. 
No dia seguinte, uma pequena trovoada veio quebrar a monotonia da jornada; o gado apareceu com os chifres hmidos e brilhantes e a terra sequiosa exalava cheiro 
agradvel.
Coon Creek, Buffalo Wallow, Hackberry Fiat, The Meadows... Noite aps noite, estes nomes assinalavam outros tantos acampamentos. Estava-se em Junho. Comeavam a 
surgir pequenas manadas de bfalos, ao longe, para os lados do poente, assim como alguns cavaleiros suspeitos que, no entanto, no se aproximavam. Brite comeou 
a pensar que a boa sorte voltara a proteg-lo e esqueceu os seus receios.
Entretanto, com excepo de Texas Joe e de Pan Handle, todos pareciam formar uma famlia feliz. Reddie Bayne conseguira exercer benfica influncia sobre os seus 
companheiros e a rivalidade para beneficiar do seu favor, para ver quem mais podia ajud-la, manifestava-se com esprito de camaradagem, apesar do seu ardor. O sorriso 
tornara-se agora frequente nos lbios da rapariga, que andava alegre e despreocupada.

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Chegou o dia em que Brite decidiu que a adoptaria como filha se, antes disso, nenhum dos vaqueiros a conquistasse como esposa. No entanto, apesar da sua vigilncia, 
no descobrira ainda nenhuma corte sria. Jamais algum deles tivera oportunidade de encar-la sozinha, porque assim calhasse ou porque Reddie, suficientemente esperta, 
arranjasse as coisas desse modo. Quanto a Shipman, o fogo lavrava oculto: observava-a de longe, com olhos eloquentes, e Reddie, quando julgava que ningum a via, 
no deixava de desviar, tambm, o olhar sonhador na sua direco. Como capataz, Shipman era responsvel pela manada, e no o esquecia, dia e noite. Raramente se 
dirigia agora  jovem e no voltara a dar-lhe qualquer ordem; usava o sistema de dizer a Brite que a mandasse fazer isto ou aquilo relacionado com os cavalos. No 
acampamento, evitava-a sempre que podia, dando a impresso de um melanclico e cansado cavaleiro perdido nos seus pensamentos.
Brite reparava como Reddie se sentia magoada com aquele tratamento, pois nunca perdia a oportunidade de se lhe lamentar. A corte dos vaqueiros tornara-a orgulhosa 
e, tambm, um bocadinho vaidosa, apesar da sua pobre vestimenta masculina que, no entanto, jamais poderia continuar a faz-la passar por rapaz. Embora, no fundo, 
Brite j tivesse feito a sua escolha, era demasiado amigo dos seus rapazes, para deixar transparecer as suas preferncias. Todos se haviam modificado, graas  presena 
da jovem. Se ela manifestasse inclinao por algum deles com certeza surgiriam cimes; assim, porm, davam-se como irmos e a rapariga sentia-se feliz, excepto quando 
Texas Joe impunha a sua personalidade e a sua presena em cena.
Ao princpio de uma noite, encontravam-se todos acampados em Blanco River, depois de um dia que correra sem contratempos at ao momento de atravessarem uma larga 
ribeira.

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Nessa altura, porm, haviam cometido diversos erros, principalmente relacionados com os cavalos de reserva, e Texas Joe ficara furioso. Estavam a acabar de jantar 
e Texas preparava-se para a primeira guarda da noite, quando se lembrou de dar a Ackerman uma das suas ordens para Reddie.
- Mo ouo nada, Deuce! - disse a rapariga, fitando Joe com ressentimento. - Se o senhor Shipman tem alguma ordem a dar-me, que ma d a "mim" prpria!
- Dou as minhas ordens do modo que mais me agradar, "miss" Bayne - replicou Texas.
- Decerto, mas se h alguma coisa que queira que eu faa,  a mim que tem de diz-la, e no por intermedirios.
- Bem, dispenso os seus servios, quando chegarmos a Fort Worth - declarou Texas, em tom frio.
- Dispensa-me! - gritou, espantada e furiosa.
- Exactamente, "miss".
- Ento, despede o pessoal todo! - declarou Reddie, com mais calor. - Eu no fiz nada mal feito! Digam-lho vocs, rapazes, Deuce, Roy, Whit, Rolly, digam-lho!
Seguiram-se diversas observaes amigveis, confirmando as palavras da rapariga, que levaram Joe a exclamar, pesaroso:
- Que gente desprezvel! E tu, Less Holden, camarada, tambm?
- Claro, Tex - respondeu Lester, com uma gargalhada. - J no seramos capazes de conduzir gado sem a Reddie!
- Tambm tu, tambm tu! - repetiu Joe, desgostoso e espantado,.
- Sim, que raio de capataz  voc que precisa de intermedirios para dar ordens ao tratador de cavalos? - prosseguiu Reddie, trocista. - Fao parte deste pessoal, 
ganho dinheiro aqui, no pode ignorar-me!

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- No posso? - contestou Texas, enraivecido.
Era evidente que ele mesmo via no poder, de facto; mais evidente, ainda, que alguma coisa o punha fora de si, sem aparentar motivo.
- No pode, no! - continuou a jovem. - No pode ignorar-me sem me insultar, -Texas Jack Shipman!
- Deixe de chamar-me Texas Jack!
- Ainda lhe chamarei pior! E digo aqui, diante de todos, que  o mais vaidoso e emproado vaqueiro que conheo! Muito orgulhoso, para falar a pessoas sem importncia, 
como eu, d as suas ordens por intermdio do patro, dos rapazes e, at de Moze. Mas isso tem de acabar, Texas Shipman!
- Patro, acha que devo ouvir isto tudo? - perguntou Joe, envergonhado.
- Bem, Tex, no digo que devas. No teu lugar, porm, ouviria e no faria caso - respondeu Brite, conciliador.
Assim mimada, Reddie deu livre curso aos sentimentos que a dominavam e, saltando para junto de Joe, fitou-o de olhos coruscantes:
- Tem de dizer-me aqui, e j, diante de todos, por que motivo me trata como se eu fosse a poeira que pisa!
- Engana-se, "miss" Bayne, engana-se porque nem sequer penso em si!
Esta resposta pareceu a todos uma monstruosa mentira - a todos, menos  plida jovem a quem era dirigida.
- Texas Shipman, voc matou um homem, para me defender; mas no o fez por "mim", especialmente? Teria feito o mesmo por qualquer rapariga, boa ou... m?
- Certamente!
- E tinha as suas dvidas a meu respeito, nessa altura, no tinha?

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- Sim, confesso. E... ainda as tenho - afirmou com dificuldade, pois tinha-as a respeito de si prprio, o pobre rapaz, a quem a situao mortificava.
- Confessa que tem! - gritou Reddie, escarlate. - Diga quais so, ento, se no  cobarde! Primeiro, pensa que eu sou... m, no  verdade?
- Se lhe interessa tanto saber... no me parece, de facto, que seja muito boa!
- Oh! - gritou a rapariga, angustiada, esbofeteando-o com a mo esquerda e, depois, com a direita.
- Eh, compreendeu-me mal! - exclamou Joe, percebendo, horrorizado, o sentido que ela dera s suas palavras e recuando ante o gesto que adivinhava.
Era tarde, porm. Reddie estava to furiosa que no compreendia o que a Brite e a todos os outros parecia claro.
- Devia mat-lo pelo que disse, e mat-lo-ia, meu Deus, se no tomasse em considerao o senhor Brite! Sempre julguei que voc me considerava mal comportada e que 
o Wallen... Maldito, Texas Shipman, maldito porque no sabe diferenar uma rapariga decente das outras, quando encontra alguma!  preciso que saiba, e eu digo-lho, 
que Wallen era um porco e que no foi o nico a obrigar-me a fugir dum emprego. Tudo por eu querer ser decente... E sou-o,( Texas Shipman! To decente como a sua 
prpria irm ou a de qualquer outro rapaz! Pensar que... que... tive de dizer-lhe isto por palavras... eu que devia faz-lo com uma pistola... ou a chicote!
De sbito, porm, desatou a soluar.
- Agora, pode ir para o inferno... Texas Shipman... com as suas ordens... e com o que pensa de mim.  como poeira... sob os meus ps!

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Captulo VI


Reddie afastou-se, num repelo, como se tencionasse deixar o acampamento para sempre. Brite decidiu no a deixar afastar-se muito, mas, antes de ir atrs dela, olhou 
para o grupo reunido  volta do fogo. Texas Joe tinha os olhos fixos na direco por onde ela desaparecera e os outros vaqueiros comeavam a apostrof-lo em termos 
pouco amigveis quando Pan Handle os fez calar, com um gesto, e declarou, pondo a mo no ombro do capataz:
- Tex, o que aconteceu pode causar desentendimento entre o pessoal, o que  preciso evitar. Sabemos perfeitamente que no quiseste dizer que Reddie era mal comportada, 
mas "ela" ignora isso e no deve esquecer tal pormenor.
S ento Brite se apressou a procurar a jovem, que foi encontrar fora do alcance da luz do acampamento.
- No fujas de ns, pequena! - murmurou, detendo-a, em tom gentil.
- Oh... eu... eu... devia atirar-me ao rio! - soluou. - Sentia-me... sentia-me... to feliz!
- Tudo se arranjar, vers! - replicou o velhote, passando-lhe um brao pelos ombros e sentando-a num rochedo, ali perto.
- Diga-me que... no acredita! - suplicou a jovem, sensibilizada com aquela prova de ternura, encostando a cabea ao ombro do patro.
- Que no acredito em qu, filha?
- No que Texas pensa... a meu respeito,

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- Mas nem eu nem os rapazes acreditamos nisso! E afirmo-te que o prprio Tex... Olha, a vem ele, Reddie!
Ao ouvir as ltimas palavras, a rapariga empertigou-se e conteve a respirao. Texas avanava para eles, de cabea descoberta, e, no meio da escurido, s os seus 
olhos se viam, extraordinariamente brilhantes:
- Oua, Reddie Bayne - comeou, em tom severo - se no tivesse to mau gnio, no me teria feito cair no desagrado do pessoal. Eu...
- No desagrado do pessoal, voc? - interrompeu ela.
- Sim, eu. Juro-lhe, por Deus, que no quis dizer, nem pela cabea me passou, que voc no fosse to honesta e to... boa como qualquer rapariga, mas sim, apenas, 
que  um diabinho dotado de esprito de contradio, rancoroso e irritadio! Foi isto, somente, mais nada! Lamento t-la feito zangar e peo-lhe desculpa.
- Vem seis dias atrasado, Texas Jack! - gritou, fora de si, - E... e... pode ir para o inferno, da mesma maneira !
Ele olhou-a fixamente, com um olhar estranho, e respondeu com frieza, afastando-se:
- Bem, terei companhia, pois o inferno  o destino deste pessoal!
Reddie levantou um pouco a cabea, para espreit-lo por cima do ombro de Brite, agarrou-se com fora  camisa deste e, depois, devagar, deixou pender de novo, a 
fronte, titubeando:
- Pronto... j est! Devia ter-me comportado como... como... uma senhora, mas... detesto-o tanto!
Brite tinha a sua opinio a respeito da forma como ela "detestava" Texas Joe... Os sentimentos que ele prprio nutria pela jovem vibravam, no seu ntimo, com mais 
intensidade: aquele era o momentooportuno, para lhe transmitir as suas ideias acerca do futuro da sua protegida.

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- Ouve, minha garota -- comeou. - Creio que quem anda na Pista Chisholm sente de modo diverso do que quando est em casa, so e salvo; que os meus sentimentos so, 
talvez, mais fortes e profundos, e, tambm, melhores... Pois bem, tenho um pedido a fazer-te: Estou s no mundo, sem nenhum parente chegado, e gostaria de ter-te 
como filha. Que dizes?
- Oh, seria o meu sonho tornado realidade! - exclamou, extasiada. - Se ao menos eu o merecesse!...
- Deixa-me ser o juiz, nesse pormenor - observou ele, feliz. - Possuo um rancho  entrada de Santo Antnio, que ser o teu lar. S te peo que gostes um bocadinho 
de mim.
- Mas... eu gosto j muito de si! - afirmou, generosa, abraando-o. -  bom demais, para ser verdade!
- Aceitas-me, ento, como pai adoptivo?
- Nunca serei capaz de agradecer bastante a Deus! - foi a nica resposta que obteve.
- Visto isso, est combinado. E eu, tambm, tenho que Lhe agradecer, e muito!
- Que bondade a sua! Como tudo  agora diferente! S gostava de saber o que diro os rapazes, quando souberem e...
- E quem?
- aquele vaqueiro...
- Bem, ele agora ter de contar comigo!...  verdade, gostava de manter a nossa combinao secreta, at chegarmos a Dodge. De acordo?
Brite estava a desenrolar a manta quando sentiu qualquer coisa fria tocar-lhe o rosto. Chuva! Estivera to absorvido que nem dera pela mudana do tempo. As estrelas 
tinham empalidecido e para o Norte o cu apresentava-se carrancudo e negro.

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As tempestades constituam o flagelo dos guias de gado e o Texas era prdigo em memorveis frias dos elementos, desde o "del Norte" dos mexicanos at ao ciclone 
de Pan Handle.
- Vai chover, Reddie! - avisou. - Faz a tua cama debaixo do vago.
Mas Reddie encontrava-se no pas dos sonhos e no o ouviu. Brite pegou num oleado e foi estend-lo sobre a cama da rapariga, experimentando uma sensao nova para 
si, uma alegria doce, proveniente da sua recente responsabilidade paternal. Depois, encaminhou-se para o vago, debaixo do qual os rapazes se haviam j recolhido. 
O vento soprava com fora, atirando-lhe ao rosto uma chuva miudinha e fria.
- A nossa sorte mudou, patro - resmungou Texas, carrancudo. - Temos tido uma sorte dos diabos, mas agora est a chegar...
- O qu, ave agoirenta?
- Em primeiro lugar, temporal do Norte... depois, ainda no sei, mas palpita-me que no ser coisa boa.
- Isto no passa de uma Primavera tardia - replicou Brite.
- Onde ests metido, Moze? - perguntou Joe.
- Estava debaixo do vago, mas empurraram-me c para fora... - respondeu o negro.
- Trata de guardares bem toda a lenha seca que tiveres na cozinha.
- Sim "si".
- O machado? Quero ir rachar alguma. Patro, ns podemos servir-nos do outro encerado, por causa da chuva e do vento; o Moze tem um, em cima do vago. Cus, como 
so detestveis a chuva e o frio! No seria melhor acordar a Reddie e cham-la para aqui?

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- Cobri-a com o meu oleado - respondeu Brite, satisfeito com a solicitude do rapaz. - Estar bem, assim, a no ser que a chuva engrosse.
Texas afastou-se, falando sozinho, e em breve o bater do machado revelou em que se ocupava. Moze via-se atrapalhado para guardar a lenha na lona estendida sob o 
vago, pois os vaqueiros dificultavam-lhe a tarefa.
- Deixa-os dormir, Moze - sugeriu Brite. - Vamos servir-nos do outro encerado. Podes pr a lenha debaixo daquele, at de manh. Assim: ata uma ponta do oleado aos 
arcos do vago e prende a outra ao cho.
Texas aproximou-se, vergado ao peso da lenha que partira, e colocou-a no oleado, sem fazer barulho:
- Se o vento se torna mais forte e se vem mais chuva, teremos a manada a fugir, e ser mau para ns, se tomar a direco do Sul.
- Creio que o vento sopra de Noroeste, Tex - respondeu Brite, levantando a mo.
- A nica diferena  que o temporal do Norte dura trs dias. Talvez, at, no chegue a ser nada... Daqui a um par de horas saberemos. Entretanto, vou dormir.
Enrolaram-se nos cobertores, abrigados sob o encerado estendido, e Texas adormeceu com a rapidez prpria da juventude. Em breve, tambm, Moze ressonava, como uma 
serrao em actividade. S Brite no tinha sono. O calor dos cobertores permitia-lhe avaliar at que ponto o ar arrefecera. Deixou-se ficar quieto, de ouvido atento. 
O vento gemia, lamentoso, e, penetrando, em rajadas agrestes por debaixo do vago, sacudia a lona e afastava-se, uivando tristemente. Ouviam-se coiotes, perto do 
acampamento, e l ao longe, na noite escura e ventosa, o gado agitava-se, inquieto, nas suas camas. Os velhos touros mugiam e os guardas cantavam-lhes, para aquiet-los. 
Que singular e tremenda aventura era aquela de conduzir gado para o Norte!

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Ali deitado, desperto, Brite visionava a magnitude que o negcio atingira, o que representava para a salvao do Texas e o impulso que daria ao seu progresso. Jesse 
Chisholm fora o primeiro dos pioneiros a ter tal viso, e agora os vaqueiros que, s centenas, subiam a Pista - ou, antes, os que dentre eles sobrevivessem s suas 
dificuldades e aos seus perigos - veriam o dia em que os seus prprios ranchos deveriam tudo quele herico comeo.
A pouco e pouco, estes pensamentos mergulharam-no em sonhos, aos quais foi arrancado pelo bater de cascos e por uma voz que gritava:
- Todos a p! A manada vai a fugir!
Quando Brite se ergueu, j Texas estava de joelhos, enrolando a cama.
- Que horas so, Deuce?
- Passa da meia-noite. No posso ver o relgio. Est um frio dos diabos!
- Chove muito?
- Nem por isso. O que cai  geada, em Junho, imaginem! Ah, sim, j me esquecia de que estamos no Texas!... Vamos precisar de lanternas, Tex; no se v um palmo  
frente do nariz.
- Ests acordado, Moze?
- Sim, "si".
- As lanternas esto cheias? Onde as puseste?
- Esto prontas, patro, e guardadas onde as ponho todas as noites: entre os eixos das rodas da frente.
Brite vestiu o pesado casaco que lhe servira de almofada e aconselhou os rapazes a agasalharem-se o melhor possvel.
- Reddie Bayne! - chamou Texas.

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Nenhuma resposta. Joe gritou, de novo, com desnecessria irritao, segundo pareceu a Brite, mas continuou sem obter resposta.
- Deve estar morta, com certeza! Nunca teve o sono pesado.
- Ouo cavalos - avisou Deuce.
Dentro em pouco, Brite saa com os outros de sob o abrigo, alumiando-se com a luz frouxa e amarela das lanternas. O velho dispunha-se a ir acordar Reddie, quando 
o bater de cascos anunciou a entrada no acampamento de um grupo de cavalos furiosos.
- C est ela! - gritou Deuce.
Brite divisou o vulto de Reddie, de p, envolto no oleado que a gua fazia brilhar, segurando pelos cabrestos uma meia dzia de animais.
- Onde arranjou esses cavalos? - perguntou Texas.
- Tinha-os presos aqui perto.
- Hum!... Ento v no escuro, como os gatos?
-  verdade - respondeu a rapariga, em tom exageradamente dcil.
- Bem, custa-me diz-lo, mas a verdade  que percebe mais do ofcio do que os tratadores de cavalos que tenho conhecido - concluiu o capataz, com voz spera.
- Obrigada, Jack - replicou Reddie, no mesmo tom suave.
Arrearam os cavalos e, depois de montar, Texas pediu uma lanterna e abrigou-se do vento.
- Leva a outra lanterna, Deuce - ordenou. - E tu, Moze, aguenta-te aqui at voltarmos e prepara um bom lume e bebidas quentes, pois devemos vir bem precisados delas.
Brite e os outros seguiram-no. Os cavalos tremiam, muito chegados uns aos outros. Texas levantou a lanterna e perguntou, agressivo:
- No  o cavalo de Reddie?

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- , e eu estou aqui - respondeu a jovem.
- Volte para o acampamento. Isto no  trabalho para rapariguinhas.
- Voc vai quando h "calor", Jack, eu posso muito bem suportar o frio.
- Deixe de chamar-me Jack - ordenou, mal-humorado - seno, dou-lhe um puxo de orelhas! Eu disse-lhe que ficasse no acampamento.
- Mas, Texas, eu teria medo de ficar l, sem vocs todos- replicou, muito sria.
- Hum... pensando melhor, tem razo! Deuce, para onde vamos?
- Macacos me mordam, se o sei! Vi-me em apuros para dar com o acampamento; perdi meia hora, s cegas.
- A que distncia estava a manada?
- Um par de milhas, creio.
- Segue pela direita, Deuce, e avana enquanto puderes ver a minha luz. Vocs fiquem entre ns dois... Raios, est de todo!
O vento assobiava-lhes por detrs, ouvia-se o barulho da chuva e da geada a cairem na erva, a escurido era total, como se uma camada de tinta negra cobrisse tudo, 
e apenas a lanterna de Texas iluminava frouxamente as figuras espectrais dos cavaleiros e das montadas. Aps haverem percorrido duas ou trs milhas, Texas e Deuce 
comearam a gritar, tentando localizar os guardas e o gado. Nenhum grito lhes respondeu, porm. Avanaram mais duas milhas e, ento, a barreira horizontal, com Texas 
numa extremidade e Deuce na outra, comeou a cavalgar em crculo. A situao aumentava de gravidade. Se a manada debandasse em sentido errado, os poucos guardas 
que a rodeavam no conseguiriam det-la e os animais poderiam tresmalhar-se ou, pelo menos, afastar-se muitas milhas, pois os bois, quando querem fugir, tm to 
boas pernas e tanta resistncia como os cavalos.

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- Alto, amigos! - ordenou Texas, por fim. - Ouvi qualquer coisa... Talvez seja apenas um coiote, mas eu desmonto e afasto-me um pouco, para ouvir melhor.
Saltou para o cho e afastou-se dos cavalos, balanando a lanterna dum lado para o outro. Depois, soltou um grande grito. Brite apurou o ouvido, mas no ouviu nada. 
Texas, pelo contrrio, gritou, de novo, aps breve silncio:
- No me enganei, responderam-me!
Correu para o cavalo, montou e afastou-se um pouco para a esquerda:
- Parece-me que no poderei manter aquela direco por muito tempo; mas iremos parando e gritando, at os localizarmos.
Graas a este sistema, Texas Joe acabou por localizar a manada e os outros guardas. Estes, porm, encontravam-se no extremo dianteiro dos fugitivos, que corriam 
no sentido do vento. Texas disse a Brite e a Reddie que o seguissem e aos demais que acompanhassem Deuce, que cercaria o gado por esse lado. Vezes sem conta a lanterna 
do capataz iluminou bois tresmalhados, evidentemente muito para trs do corpo principal da manada.
Os gritos de resposta foram-se tornando frequentes e cada vez mais prximos, e em breve Texas e os seus companheiros rodeavam a frente da manada, onde encontraram 
Pan Handle e Rolly Little.
- Ento, Pan? - perguntou Texas, em voz alta.
- Vo a fugir, Tex, mas no h grande perigo - foi a resposta.
- Onde esto os outros rapazes?
- Umas vezes longe, outras perto; to depressa os ouo, como no.
- Raio de vida! - gritou o capataz. - Alinhem!

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Aprenda a lio, senhor Brite! Comprar gado a doze a cabea! Reddie,  aqui que tem de portar-se como um homem!
Os guias enfrentaram o vento e a manada, que vinha na mesma direco. Uma avalanche de gado, mugindo e berrando, avanava para eles, em barreira compacta. No estavam 
assustados e talvez pudessem ser detidos com facilidade, se no fossem os milhares que empurravam os da frente. Uma centena de jardas atrs, a luz e os gritos dos 
vaqueiros de nada valiam; eram poucas as esperanas de faz-los parar. Quando muito, podiam tentar retardar-lhes a marcha, evitar que se tresmalhassem e... deixar-lhes 
o caminho livre.
Felizmente, mantinham-se juntos, como verificaram, quando a luz de Deuce se divisou, a uma meia milha de distncia. Entre as duas lanternas - a de Texas e a de Deuce 
- escalonavam-se todos os outros guias, gritando e cantando. Tinham de confiar-se aos olhos dos seus cavalos, pois somente os que se encontravam nas proximidades 
da luz das lanternas podiam enxergar alguma coisa. Ouviam, porm, e era pelo ouvido que, as mais das vezes, localizavam a vanguarda. A intervalos regulares, Deuce 
galopava no sentido da largura dessa vanguarda, com a lanterna, e Texas fazia o mesmo, em sentido contrrio. Era a nica maneira de conseguirem alguma coisa parecida 
com uma linha recta.
Trabalho lento, aborrecido, desencorajante, consideravelmente arriscado, aquele! O vento soprava cada vez mais forte e gelado, a geada cortava como lminas, e Brite, 
que sempre fora muito sensvel ao frio, verificou, a breve trecho, que o pesado casaco que envergava e as luvas que calava no o protegiam suficientemente do temporal. 
Quase no podia j suportar a geada que lhe batia no rosto, mas tinha de escolher entre esse tormento e a certeza de ser espezinhado pelo gado.

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A necessidade obrigava-o a conduzir o cavalo lentamente, raras vezes mais do que a passo, e isso tambm no ajudava a activar a circulao do sangue. Reddie Bayne 
cavalgava perto dele, to perto que podiam localizar-se sem gritar e rectificarem as suas posies quando Texas ou Deuce passavam com as lanternas.
- No desanimem, rapazes! - gritou o capataz, encorajador. - Podemos gabar-nos de termos sorte!
Brite sabia que se o temporal aumentasse de intensidade ele e os restantes guias, Bender e Reddie, com certeza, se veriam em srios apuros. No entanto, embora o 
vento frio e cortante custasse cada vez mais a suportar, no aumentava de violncia. O velho rancheiro batia monotonamente as mos enluvadas uma contra a outra e 
abrigava as orelhas na gola do casaco.
- nimo, Reddie! A manh est quase a romper - gritou Ackerman, ao passar por eles.
- Oxal no demore, seno rebento! - ripostou a jovem.
Brite procurou ver, com os olhos enevoados por lgrimas de frio, para l da manada e verificou que, ao longe, o negrume da noite comeava a dar lugar a uma cor parda. 
Desde ento, voltou-se frequentemente, sempre espreitando, para o mesmo lado. Como o dia nascia devagar! Como eram longas, odiosamente longas, as horas daquela noite! 
Mas, imperceptivelmente, a escurido foi-se dissipando, a alvorada surgiu e, na pradaria imensa, comearam a divisar-se as manchas negras de incontveis cabeas 
do gado. No tardou que Brite pudesse distinguir Reddie Bayne e o seu cavalo, e, um aps outro, os restantes cavaleiros. As lanternas apagaram-se. Os guias podiam, 
agora, tirar maior partido do seu esforo, trotar e galopar dum lado para o outro, e este exerccio era-lhes benfico, assim como s suas montadas.

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Lentamente, a vanguarda ia perdendo terreno; os animais paravam, para pastar, mas eram logo empurrados para a frente pelos que vinham atrs. Brite estava certo de 
que se a geada se transformasse em chuva e o vento no amainasse, teriam de abandonar a manada, para os guias se aquecerem e mudarem de cavalos.
Finalmente, a manh clareou por completo, revelando um espectculo desolador: a manada fugindo sob as nuvens baixas e os cavaleiros enlameados e curvados sobre as 
selas encharcadas. Tornava-se imperioso obrigar a manada a voltar para trs, pois um dia de atraso podia redundar na perda de centenas, ou mesmo de milhares, de 
cabeas de gado. Texas exigiu dos extenuados rapazes esforos incrveis, tendo em vista um nico fim e,  custa de esgotantes cavalgadas, de muitos tiros, para se 
localizarem, conseguiu pr a manada no bom caminho. Gado e guias estavam, de novo, voltados para o Norte, mas os animais, de cabeas baixas, cansados e famintos, 
avanavam muito lentamente. Quanto aos cavalos, exceptuando o de Redde, encontravam-se esgotados e inutilizados para o resto da viagem.
 tarde, Brite aproximou-se do acampamento e reparou que os cavalos de reserva estavam aparentemente sem novidade. Texas e Ackerman tinham deixado o gado numa clareira 
perto do acampamento, onde o pasto era abundante.
Brite no foi o ltimo a chegar. Aps ele vieram ainda Pan Handle, olheirento e de m cara, e Bender, todo curvado sobre a sela, a quem foi preciso desmontar. O 
velho no estava to maltratado como eles, mas no se lembrava de se ter visto jamais naqueles apuros.

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- Ol, patro, ainda bem que chegou! - saudou-o Texas, em voz baixa e rouca.
Sentara-se diante do lume e, por aco do calor, o fato encharcado fumegava-lhe. Moze servia bebidas quentes e Brite perguntou a si prprio em que redundaria tudo 
aquilo se no pudessem acender lume ou no tivessem suficientes reservas de usque.
Reddie Bayne era a nica pessoa que no estava molhada at aos ossos, pois o longo impermevel protegera-a. Por isso, apesar de plida e cansada, saira-se da aventura 
melhor do que alguns rapazes.
- Caf, usque no - murmurou a rapariga, ao cheirar o copo que Moze se apressara a trazer-lhe.
- A Reddie portou-se  altura! - exclamou Deuce, com admirao. - Estava preocupadssimo por sua causa e afinal...
- Bem, estou c desconfiado de que ela  mesmo um homem!... - gracejou um dos vaqueiros.
Reddie no disse nada; limitou-se a rir, fazendo coro com os demais.
- Rapazes, a manada desviou-se um pouco para o Sul - murmurou Texas, pouco depois, preocupado - mas creio que podemos remediar isso. Tu, Sabe, vem comigo, e tu, 
Deuce, daqui a uma hora manda dois homens substituir-nos, para virmos comer. Far-se-o as guardas normais e ficaremos aqui, esta noite.
Viram se alguma manada nos ultrapassou hoje? - perguntou Brite, falando com dificuldade.
- Desconfio que os que vm atrs perderam tanto terreno como ns, patro... No se esqueam de dar uma boa dose ao Bender e de o meter na cama - recomendou Texas 
que, parando diante de Reddie e como se ao pensamento lhe ocorresse de sbito, indagou: - Precisa de algumas ordens minhas, garota?

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- Garota? A quem est a falar, senhor Jack? - replicou ela.
- No volte a chamar-me Jack! - ordenou ele, fitando-a irritado.
- Est bem... Jack.
- Detesto esse nome. Recorda-me uma rapariga que costumava chamar-me assim e que era to orgulhosa como voc, Reddie Bayne.
- Mas eu no consigo lembrar-me de chamar-lhe Joe... se me  permitido ser to familiar.
- Ah, sim, to familiar! Todavia, trata todos pelos seus nomes prprios e at j a ouvi chamar pap ao patro...
- Pois chamo... mas nunca supus que estivessem a escutar-me.
- Bem, se no consegue ser... familiar e tratar-me por Joe ou Tex, trate-me por senhor Shipman - declarou, sarcstico.
- Oh, mas eu gosto mais de Jack! - teimou, atrevida, mas sem ousar fit-lo.
- Escute! - ordenou, com voz semelhante quela com que falara a Wallen. - No poderei tornar a bater-lhe, por muito que o merea, mas pode ficar certa de que, antes 
de terminar a viagem, ainda h-de chamar-me Jack... qualquer coisa mais!
- Qualquer coisa mais?!...
- Sim! Jack querido, por exemplo... - respondeu, afastando-se.
Os rapazes riram com vontade e, pela primeira vez, Reddie embatucou. No, no fora o calor do lume que lhe pusera aquelas rosetas nas faces... Brite viu-lhe os olhos, 
antes que ela os baixasse, e a sua expresso era de surpresa e espanto. Contudo, a sua cabea desgrenhada no permaneceu muito tempo baixa; ergueu-se de repelo, 
agitou os caracis,

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como que admirada de se ver metida naquele fato masculino, velho e enlameado, e afirmou: - Nunca, nunca nesta vida!
A noite decorreu tranquila, tanto no acampamento como para os que a passaram de guarda, e a manh rompeu mais clara, com promessa de sol. A erva hmida e as frequentes 
poas de gua tornavam o trabalho mais fcil, facto que Shipman aproveitou para uma tirada mais comprida, at ao escurecer. Naquela noite, porm, no houve conversas 
animadas  volta da fogueira.
Aps mais dois dias de marcha sem incidentes dignos de nota, chegaram a Austin, primeira paragem da Pista. Brite aproveitou o ensejo para ir visitar um rancheiro 
que vivia a cerca de trs milhas da cidade e soube por ele notcias perturbadoras acerca das condies do caminho para o Norte: o nmero de desastres habituais multiplicara-se 
e o Rio Colorado, que corria perto de Austin, ameaava sair do seu leito. Seria necessrio esperar at pod-lo atravessar a vau ou subir pela margem e atravess-lo 
a nado. No entanto, quando transmitiu estas notcias a Joe, a resposta que recebeu agradou-lhe:
- Oh! No ser, com certeza, essa ninharia que nos deter.
Austin, como as demais paragens ao longo da Pista, estava sujeita a flutuaes de populao e, s vezes, era o stio ideal para os guias pouco sociveis. Texas estudou 
bem o lugar e decidiu atacar o rio cinco milhas a Oeste, num local onde o informador de Brite dissera existir uma boa ladeira, para apontar a manada e faz-la atravessar. 
O patro dirigiu-se sozinho para a cidade, ceou numa casa onde estivera j vrias vezes e, em seguida, desceu a rua e encaminhou-se para o armazm de Miller. Na 
escurido, apenas cortada, aqui e ali,

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por algumas poucas luzes, era difcil calcular se Austin estava ou no cheia de homens. A impresso que se colhia era, apenas, de solido e quietude. Miller, um 
magrizela do Missouri, saudou-o cordialmente :
- Andava  sua procura - declarou. - A que distncia vm as manadas que saram depois da sua?
- H uma com o atraso de um dia, pouco mais ou menos, mas daqui por uma semana sero mais do que bfalos! - respondeu Brite.
- O Ross Hite  da mesma opinio?
- Hite? Ele est aqui? - perguntou o velho, como que por acaso.
- Est; chegou h poucos dias. Trazia uns cavalos que vendeu por a.
- Quantos homens tem ele?
- No sei. Quando chegou trazia apenas dois desconhecidos. No passou por vocs?
- Passaram uns sete ou oito, parece-me, mas ouvi dizer que era gente do Wallen.
- Wallen? No conheo. Bem, quantos mais vierem, mais contente fico! E prometo no ser nem muito curioso nem muito exigente... - acrescentou, soltando uma gargalhada.
Brite encomendou tabaco para os seus homens e diversas coisas para Moze, e, enquanto lhas ficaram de aviar, entrou no estabelecimento de Snell.
Era um compartimento semelhante a um grande celeiro, cheio de luz, fumo, algazarra e odor a rum. Em todas as suas anteriores passagens por Austin, durante as levas 
de gado, estivera naquela casa; mas ainda que juntasse todas as pessoas que ento l encontrara, no totalizaria as que l estavam naquele momento. Jogava-se por 
toda a parte.

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A um canto, sentado diante de uma mesa tosca, Ross Hite distribua cartas aos seus parceiros, tendo estampada no rosto a obsesso e o vcio. Brite olhou com ateno, 
a ver se reconhecia algum dos outros, porm, naquele local a luz era fraca e a maioria dos rostos estava na sombra. No lhe restavam dvidas, contudo, de que se 
encontrava presente todo o pessoal de Wallen. Os vaqueiros autnticos, tal como os conhecia, tornavam-se notados pela ausncia... A maior parte da assistncia compunha-se 
de homens maduros e rudes, e a minoria de mexicanos e negros. Brite dirigiu-se para um canto de onde podia observar todos os jogadores e uma parte do balco, ficando, 
por seu turno, na sombra. Procedia assim apenas por curiosidade e na esperana de tagarelar um pouco, pois embora, geralmente, os rancheiros no perdessem as noites 
metidos nas casas de jogo, reconhecera alguns deles entre os presentes. Estava ali havia pouco mais de meia hora quando viu surgirem, com desgosto, Roy Hallett e 
Ben Chandler, os quais procuraram chegar-se ao balco. Provavelmente, Shipman dispensara-os, mas o mais verosmil era terem-se escapado sem sua licena, com a inteno 
de regressarem, tambm, sem serem vistos. Os vaqueiros eram assim mesmo.
Chandler vinha corado e com evidente bom humor, ao contrrio de Hallett, que se mostrava mais sombrio do que habitualmente. A este a bebida, em vez de modific-lo, 
tornava-lhe mais pronunciadas as suas caractersticas pessoais. No estava, no entanto, embriagado e teve, at, de arrastar Chandler quase  fora de junto do balco, 
pois este parecia disposto a tirar o mximo proveito possvel daquela escapada. Hallett devia ter, porm, outros desgnios, visto que nem sequer mostrava disposio 
para a indulgncia no esprito de bebidas, ao invs do vulgar entre vaqueiros. De tudo isto Brite deduziu que o rapaz projectava alguma coisa.

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Foram sentar-se a uma mesa vaga, onde Hallet principiou a conversar, em voz baixa, com o companheiro. A conversa, todavia, parecia no agradar a Ben, porque mais 
de uma vez tentou levantar-se, bem disposto, mas sem resultado. Por fim, o bom humor desapareceu-lhe e o rosto tornou-se-lhe carrancudo: Hallett devia estar a querer 
convenc-lo de qualquer coisa, talvez de que podiam jogar e beber mais, ou ficar na cidade toda a noite. Brite, porm, no se inclinava para nenhuma destas hipteses. 
A certa altura, Ben replicou em voz alta:
- Raios me partam, se eu fizer isso!
O tom de voz em que foram proferidas estas palavras e o brilho que notou nos olhos do rapaz decidiram Brite a interromp-los. Porm, no momento em que ia intervir, 
surpreendeu Ross Hite a deitar a Hallett um olhar significativo, dominador e ousado, embora disfaradamente, que o deixou imvel, transfigurado e em sobressalto. 
Que queria aquilo dizer?
Dois dos jogadores levantaram-se, a uma palavra de Hite, e encaminharam-se para o balco, enquanto aquele, dirigindo-se a Hallett, perguntou:
- Vai uma partida? A dois o limite.
- Aceito - respondeu o interpelado. - Anda, Ben, vamos arrancar-lhes a pele!
- Vou mas  para o acampamento! - declarou Ben, levantando-se.
Hallett segurou-o e, encostando ao dele o rosto avermelhado, disse-lhe o que quer que fosse, em voz inaudvel e violenta, a que Chandler reagiu, tambm com violncia, 
libertando-se da mo que o prendia e atirando o outro ao cho, com um soco bem aplicado. A seguir baixou-se, de mo na arma, embora tal precauo fosse intil: Hallett 
no perdera os sentidos, mas recompunha-se muito lentamente. Chandler olhou para ele e para Hite, pasmado do que vira, e saiu, a passos largos, da taberna. Ross 
dirigiu-se, em voz baixa, a um dos seus homens,

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um tipo de rosto patibular, que saiu logo atrs de Ben.
Hallett ergueu-se e juntou-se a Hite,  mesa de jogo, esfregando o rosto com a mo. Olhava ameaadoramente para a porta, como se esperasse ver Chandler regressar. 
Hite embaralhou as cartas, falando-lhe em voz baixa, e distribuiu-as, como se fossem, na verdade, jogar. De tudo aquilo se deduzia que no era a primeira vez que 
se encontravam. Pouco depois o pretenso jogo terminava e ambos se dirigiram para o balco. Beberam e saram, tambm.
Brite no sabia que pensar, nem que fazer. Por um lado, desejava correr atrs de Chandler e avis-lo de que o seguiam; por outro, no queria arriscar-se a encontrar 
Hite e Hallett. A incerteza deteve-o, por momentos, mas acabou por sair, puxando o chapu para a frente e cobrindo o rosto com ele. A rua estava escura e deserta, 
e as poucas luzes que nela brilhavam acentuavam ainda mais a escurido. Ao encaminhar-se para o armazm, a fim de ir buscar o que encomendara, viu Hite e Hallett 
atravessarem a faixa luminosa projectada no cho pela porta aberta e recuou, abrigando-se na sombra. Os dois homens passaram por ele, falando em voz to baixa que 
no conseguiu perceber o que diziam. Contudo, o tom do concilibulo pareceu-lhe subtil e calculador...
Quando os viu reentrarem na sala de jogo, Brite foi buscar o cavalo e no se sentiu em segurana enquanto no se encontrou no meio da estrada. Foi em vo que se 
manteve alerta, para descobrir Chandler, chegando at a parecer-lhe ter ouvido o bater de cascos. Em breve se encontrava em campo aberto, a caminho do acampamento, 
com mil pensamentos fervilhando-lhe no crebro.

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Captulo VII


A estrada que saa de Austin terminava no rio, de onde partia um trilho, ao longo da margem, para Oeste. O velho Colorado levava grossa enxurrada e, quela hora, 
oferecia aspecto magnfico, brilhando  luz das estrelas e marulhando suave e melancolicamente. Brite, nas anteriores levas, nunca o encontrara assim transbordante. 
Conseguiria a manada atravess-lo? Decerto, se isso fosse humanamente possvel. Era hbito dos guias de gado arriscarem-se a tudo, para evitar que mais de uma manada 
se juntasse, pois em tal caso perdia-se, em regra, mais gado do que se este se tresmalhasse. No entanto, nas ocasies em que isto sucedia, ficava-se, s vezes, sem 
toda uma manada...
Brite abandonara a esperana de encontrar Ben Chandler; se o rapaz conseguira alcanar o cavalo, devia estar perto do acampamento. Contudo, estava convencido de 
que o vaqueiro chegaria tarde, se alguma vez chegasse! Quanto a Hallett, se voltasse no regressaria antes de romper o dia. Brite, por seu lado, estava ansioso por 
chegar, para poder contar a Shipman o que vira e ouvir a sua opinio a tal respeito. Em seu entender, Hallett era capaz de tudo, a julgar pelo seu procedimento, 
em extremo suspeito.
O velho rancheiro foi avanando, lentamente, nos locais mais acidentados, e a trote quando o caminho se apresentava mais plano. Ao fim de uma hora, pouco mais ou 
menos, comeou a avanar de ouvido  escuta, pois o acampamento devia ficar a cerca de uma milha de distncia. No fazia a mnima ideia para que lado, mas, certamente, 
o gado servir-lhe-ia de ponto de referncia.

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E, de facto, assim aconteceu: localizou-o pelo mugir das vacas, a alguma distncia do rio.
Ningum se encontrava a p. Alguns homens dormiam junto do vago, mas Brite resolveu no acord-los. Se estivesse a dormir, quando a guarda rendesse, teria tempo 
de falar, de manh. Tirou, portanto, a sela ao cavalo e deixou-o ir, e, depois, deitou-se.
Brite acordou sobressaltado, parecendo-lhe que adormecera apenas havia momentos. Era j dia, porm, e ouvia-se o bater dum machado, a cortar lenha. No devia ter 
sido isso, no entanto, que o acordara.
Relanceou o olhar  sua volta e viu Hallett, escarranchado no cavalo, mostrando no rosto evidentes sinais da noitada anterior. Pan handle e Deuce estavam perto do 
fogo. Texas fitava o cavaleiro; era manifesto que j haviam falado.
- E onde estiveste? - perguntou Joe.
- Fui  cidade. No tencionava demorar-me toda a noite, mas no pude vir mais cedo - respondeu o outro, friamente.
- No me perguntaste se podias sair...
- Pois no, mas sa.
- Bem vejo. Fica sabendo que quase te ia custando o emprego!
- No me interessa muito o lugar, Shipman. Ackerman aproximou-se e perguntou, impulsivo:
- Que se passa ultimamente contigo, Roy?
- Nada. Estou apenas farto disto, Deuce. Muitos bois e poucos homens...

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- E por que no me disseste isso mais cedo? Sou responsvel por ti; fui eu quem te contratou.
- Alivio-te dessa responsabilidade, ento! - declarou Hallett, rudemente.
- Raios me partam se eu!...
- Cala-te, Deuce! - ordenou Texas. - Este assunto no te diz respeito e quem fala aqui sou eu!
- Pois diz o que tens a dizer e que te leve o diabo! Andas muito cheio de vento, Shipman... - replicou Hallett, sarcstico, acendendo um cigarro.
- Pois ando... e sou capaz de atirar contigo, se continuas a falar desse modo. Parece-me que tencionas ir-te embora, no  verdade?
- Claro!
- Seja; ests livre! E agora vou dizer-te uma coisa:  uma partida suja que pregas ao senhor Brite, pois sabes muito bem que temos falta de pessoal, e, alm disso, 
o teu procedimento parece-me estranho...
- Ah, sim?! Devias saber que o Texas  a terra das coisas estranhas.
- Pois . Mas , tambm, a terra dos cobardes e dos amarelos - retorquiu Joe, fitando intensamente o outro.
Hallett reagiu significativamente s palavras do capataz e os olhos de Brite no o desfitaram. Texas Joe acabara de se levantar, tinha uma bota calada e outra na 
mo e ainda no colocara os coldres na cintura. Hallett desmontou, de cabea baixa e com os olhos brilhantes como carves.
- H mais do que um cobarde aqui - declarou - e vou revelar-te uma coisa que te vai admirar: foi Ben Chandler quem me convidou a ir  cidade, a noite passada, porque 
tinha l no sei o qu a tratar, que eu ignorava o que fosse. Fui com ele, apenas para me divertir, e demorei-me para impedi-lo de atraioar-nos...

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- Ah! - exclamou Texas, pouco convencido, mas, no entanto, impressionado.
Entretanto, Brite calara as botas e erguera-se, disposto a intervir. No foi longe, porm; Ben Chandler interps-se, com a cabea enrolada num leno ensanguentado:
- Texas ele ... um mentiroso!
- Donde vens tu? - inquiriu aquele, surpreendido.
- A minha cama  ali, naquelas moitas, Tex. Levantei-me agora e ouvi a conversa.
- E chegaste mesmo a tempo!
A atitude de Hallett transformou-se, como que por encanto. Primeiro, revelou completo pasmo e incredulidade, e, logo a seguir, emoes mais fortes: raiva, medo, 
dio...
- J chegaste, hem? - indagou, desdenhoso. - Apostava que no te lembras da bebedeira que apanhaste a noite passada!
- Eu no estava bbado, Hallett.
- E tambm no te lembras de teres andado  pancada, hem?...
- Eu no andei  pancada com ningum. Que me atiraram  cabea, isso sim,  verdade; mas voltei, como vs, e agora, por Deus, vou pr a claro tudo quanto se passou!
- Shipman, este cobarde estava to bbado, a noite passada, que nem se lembra de ter brigado na taberna do Snell.
-  o que tu dizes. Hallett, mas Ben chamou-te mentiroso. E, se bem conheo os texanos, tal afirmao requer desmentido.
- Estive no Snell, a noite passada, Tex - interveio Brite, avanando - e vi o Hallett e o Chandler l. O Ben no estava bbado.
No momento de silncio que se seguiu, a face de Hallett tornou-se lvida. Agachou-se um pouco, como se se preparasse

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para saltar, e, com as mos nas ancas, afastou-se lentamente para junto do cavalo. Cara-lhe a mscara! Queria fugir, mas o seu aspecto metia medo.
- Se abres outra vez a boca, estoiro-te, Shipman! - gritou, com os olhos quase a saltarem-lhe das rbitas.
Texas engoliu em seco, com dificuldade, mas ficou silencioso.
- Tu no estoiras ningum! - exclamou Ben Chandler, com mpeto. - No passas de um intrujo, Hallett!
- Cala-te... canalha! - replicou o outro, sempre a recuar para o cavalo.
- Sim, cala-te, Ben - aconselhou Brite, compreendendo, enfim, o que a Shipman parecia to simples.
- Mas, senhor Brite, estou envergonhado do que fiz! - protestou Ben, com o rosto a arder. - Quero confessar tudo e desmascarar aquele tratante diante de todos!
- Espera! - exclamou Pan Handle Smith, friamente.
- Quem me empresta uma arma?! - gritou Chandler.
- Quietos! - ordenou Hallet, por seu turno, julgando, evidentemente, encontrar-se senhor da situao.
- Vou desmascarar-te agora mesmo, Hallett! No consinto que atires para cima de mim com todas as culpas do teu nojento negcio.
- Cala a boca, Chandler! - sibilou Hallett.
- No calo nada! Vou contar o que combinaste com o Ross Hite, vou...
- Ento, toma!
Mal acabara de proferir estas palavras, Hallett sacou as armas dos coldres e ergueu-as no ar. No mesmo instante, porm, soou um tiro atrs de Brite e este sentiu 
o fumo e o lume queimarem-lhe o rosto. Hallett ficou paralizado, como se um raio o fulminasse, e uma mancha de sangue espirrou-lhe do olho e da tmpora, do lado 
esquerdo. Como se lhe houvessem arrancado as pernas, o vaqueiro caiu de borco no cho, com os braos estendidos para a frente, lassos e inertes.

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- Desculpe, patro, mas no podia ficar de braos cruzados a ver estoirar os seus excelentes rapazes! - declarou Pan Handle, cortando o silncio que se estabelecera, 
com voz fria e vibrante.
- Que Deus me ajude! - exclamou Ackerman, excitado. - Teve o que merecia.
- Esquecera-me de que estavas aqui, Pan - murmurou Brite, aliviado. - Eu vi-o com o Ross Hite, a noite passada.
- Ben, conta l agora o que se passou - ordenou Texas Joe. - Estiveste quase a ir desta para melhor, h pouco... - E tu tambm, Tex, Lia-se-lhe nos olhos! - disse 
Smith, secamente.
- Talvez; no dei por isso. Devo-te um tiro, Pan Handle. Se alguma vez te vires em apuros...
- Anda, Ben, deita l isso c para fora - ordenou
Brite.
O rapaz sentou-se num fardo, com a cabea entre as
mos, e respondeu, em voz baixa:
- No h muito que dizer, patro. O Hallett andou de roda de mim e convenceu-me a entrar num negcio com o Hite. Uma noite, Ross procurou o Hallett, quando ele estava 
de guarda, e ofereceu-lhe quinhentos para deixar uma aberta na manada, de modo que ele e os seus pudessem apanhar uma boa quantidade de gado. Primeiro, eu... eu... 
concordei: Fui amarelo, no h dvida, mas o caso andou a moer-me, de noite e de dia... era um negcio porco... e quando chegou a altura eu... eu... fraquejei... 
e no fui capaz de fazer o que queriam. E  tudo, patro.
- Meu Deus, Ben! Pensar que nos traste assim! - exclamou Deuce, desesperado. - Nunca conheci o Hallett muito bem,

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mas tu, Ben! Trabalhmos juntos tantos anos!...
- Tens razo. No me quero desculpar, mas o Roy... o Roy teve artes de convencer-me - concluiu, abatido.
- Eu perdoo-te, Ben - disse Brite, comovido. - Espero que no voltes a cair noutra.
- Obrigado, senhor Brite! Prometo no tornar, prometo!
- Que pensas que a Reddie Bayne dir de tudo isto? -- inquiriu Joe, zombeteiro. - Era to macia para ti...
- No fao ideia, Tex, mas eu prprio lhe contarei.
- Ela a vem com a reserva - anunciou Deuce.
- Por que vir com tanta pressa e com aqueles cavalos todos? - notou Joe, admirado.
- Tapem o morto - pediu Ackerman.
- No, rapazes - ops-se Texas - deixem-na tomar o remdio de que precisa! No era ela to meiguinha com o Hallett?...
Todos se calaram. Reddie deixou os cavalos a umas cem jardas do acampamento e galopou at junto do grupo.
- Senhor Brite, Texas, Pan Handle - comeou, arquejante, com os olhos muito abertos - trago notcias. Nichols e a sua manada de 2.000 cabeas vm-nos no encalo, 
seguidos de Horton, com outra grande manada de Dave Slaughter.
- Malditos! - praguejou Brite, erguendo as mos.
Texas Joe empregou linguagem igualmente expressiva, embora demasiado forte para os ouvidos de uma rapariga, e continuou a calar a bota que ainda tinha na mo, o 
que lhe custou considervel esforo.
- Nichols e Horton mandaram um homem dizer-nos que atravessemos o rio sem demora, pois de contrrio alcanam-nos - prosseguiu Reddie, com as faces em brasa. -
Oh, mas reparem! A corrente  to impetuosa que no conseguiremos que a manada a passe!

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- Talvez no seja possvel atravessar, Reddie, mas tentaremos - respondeu Brite.
De sbito, a rapariga reparou no rosto ensanguentado de Hallett e soltou um grito.
- Ah! Que... que aconteceu? No ... o Roy?
- , sim, pequena.
- Oh! Est morto!
- Assim parece.
- Quem se atreveu?... - indagou, enraivecida.
- Sou eu o vilo, Reddie - respondeu Pan Handle.
- Voc... seu maldito pistoleiro? Por que matou o pobre rapaz?
Pan Handle afastou-se, Texas Joe voltou a cabea, Brite fitou-a em silncio e Ben ergueu, finalmente, a cabea.
- O qu, Ben, tambm te atiraram?
- Foi de raspo, Reddie... Mas, escute.
E, corajosamente, o pobre rapaz contou a tragdia e a parte que nela tomara, acusando Hallett sem piedade, mas no se poupando a si mesmo.
- Ben Chandler! - exclamou atnita.
Passado o primeiro momento de espanto, olhou de Texas para Brite, deste para Hallett e, de novo, com olhos coruscantes, para Ben, como se s assim avaliasse a enormidade 
da ofensa.
- Voc concordou em atraioar o nosso patro! - exclamou com desprezo. - Voc projectou roubar quem lhe paga o po! Que nojo, meu Deus!
- Mas, Reddie, d as culpas a quem as tem - interveio Texas. - O Ben  fcil de levar e o Hallett sabia-o. Sabia, igualmente, que a fraqueza deste diabo  a garrafa. 
No fim de contas, ele no foi capaz de trair-nos...


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- Isso no me interessa! Nunca lhe perdoarei, nem que viva um milho de anos! E pensar que o porco, o cobardola, ainda h duas noites andava a pedinchar-me um Beijo!
- Bem, nesse caso  importantssimo saber se o Ben o conseguiu... - zombou Texas.
- No conseguiu, no! - redarguiu Reddie, afogueada. - Mas, se o tivesse conseguido, lanava-me ao rio, neste mesmo instante!
- Reddie, eu perdoei ao Ben - declarou Brite.
- Sim? Pois no passam todos de uns cabeas de melo mole! Eu nunca perdoaria uma coisa dessas! Nem perdoarei, nem...
- Eh! Venham comer, enquanto est quente - interveio Moze.
Texas Joe observava o rio. Naquele ponto tinha vinte jardas de largura e arrastava na sua corrente impetuosa, redemoinhos e lamacentos toros, troncos de rvore e 
resduos de madeira de toda a espcie. Era mister ter-se em conta a velocidade das guas, pois, se impelissem os animais para baixo de certo ponto, pela certa muitos 
se perderiam. Duas milhas adiante, do lado oposto, a margem era escarpada e inclinada em toda a extenso que os olhos podiam alcanar.
- Patro, ignoro o que vai acontecer, mas agora j no podemos voltar atrs - murmurou Shipman. - Os rapazes tm as suas ordens e a manada est  vista.
- Tentaremos; podemos perder ou ganhar... - respondeu Brite, carrancudo, atrado pela aventura.
- Eh, Reddie! - gritou Texas, agitando as mos. - Avance!

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A rapariga respondeu-lhe com um grito agudo e esporeou o cavalo, para seguir atrs da reserva, compacta e inquieta, mas no indomvel. Pan Handle cavalgava um pouco 
mais abaixo, na ladeira, e Texas do lado de cima da
mesma.
Reddie obrigou os cavalos a descerem a margem numa carreira, ajudada pelos dois vaqueiros. A breve trecho os da frente estavam apontados e entravam nas guas revoltas, 
soltando relinchos agudos, logo seguidos pelos outros, em boa ordem. Texas cavalgou com eles, at a gua atingir certa profundidade, gritando continuamente, a plenos 
pulmes. Pan Handle disparava em frente, dos animais que se desviavam do caminho devido a Reddie, com os seus gritos selvagens, colaborava eficazmente na tarefa. 
Quando, por fim, o seu cavalo negro alcanou, tambm, a gua, j os da frente haviam perdido o p e avanavam a nado.
- Bom trabalho, garota! - elogiou Texas, acenando com o chapu. - Mantenha-se no sentido ascendente e deixe-os seguir.
Quando o capataz alcanou, de novo, a margem, a retaguarda da reserva j ia afastada e os cavalos da frente estavam prestes a chegar ao ponto onde a corrente era 
mais veloz.
- Devamos ter ido com ela, Texas - censurou Pan Handle, muito srio.
- Ela tem um bom cavalo - disse Brite, esperanado. Apenas Texas Joe no exteriorizou os seus temores nem as suas esperanas, embora os seus olhos perscrutadores 
no desfitassem a jovem amazona.
Na ltima contagem, Brite verificara que possuia cento e setenta e nove cavalos de reserva, que, pelos vistos, gostavam da gua. Relinchando e empinando-se, os animais 
avanavam nas guas profundas, seguidos pela intrpida rapariga que, sem cessar, agitava o chapu e lanava aos cus o seu grito estridente. Como brilhava ao Sol 
a sua cabea ruiva!

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Brite perdeu todos os receios, ao ver como o belo cavalo preto fendia o rio, nadando como se estivesse no seu elemento. Reddie mantinha-o voltado para a nascente, 
do lado esquerdo da reserva. Troncos e toros de madeira flutuavam no meio deles, dificultando-lhes o avano, e, aqui e ali, alguns animais tinham de erguer-se, para 
saltarem por cima do obstculo, desviarem-se, mergulharem e virem de novo ao de cima, para prosseguirem o seu caminho. O rio arrastava os que apanhava na corrente, 
com enorme velocidade, deixando para trs os que nadavam em guas mais calmas, mas nem mesmo assim eles se davam por vencidos, como se adivinhassem que parar seria 
a morte. Em breve todos os animais haviam alcanado o centro do leito do rio, onde a corrente era mais impetuosa, e, ento, foi magnfico o espectculo que se deparou 
aos olhos de Brite. Se no tivesse j dado o seu corao  jovem rf, muito antes de v-la vencer o Colorado sozinha, recusando ajudas, dar-lho-ia agora, com alegria. 
A mancha negra das cabeas dos cavalos, ora se desintegrava, ora se alongava e torcia, ao longo do rio, numa cena de indescritvel beleza, selvagem e maravilhosa.
Uma milha para alm do ponto de observao de Brite e dos seus homens, os cavalos da frente atingiram um stio onde a gua era menos profunda e a longa fila curvou-se, 
obediente, naquela direco. A um e um, primeiro, depois a dois e a trs, e, finalmente, em grupos numerosos, os cavalos comearam a chegar  margem, e em breve 
o corpo saa-lhes da gua molhado e luzidio, e todos se sacudiam e espojavam na terra. Em poucos minutos o ltimo cavalo pisava terra firme, montado por Reddie Bayne!
- Com os diabos, isto foi grandioso! - exclamou Texas, ofegante.
- Bonito, sem dvida - concordou Pan Handle.

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- Sim, os nossos receios eram infundados - acrescentou Brite.
- Patro,  melhor mand-la parar! - gritou, de sbito, Pan Handle, vendo que a rapariga se metia novamente  gua. - A travessia para este lado  diferente; no 
se pode contar com a corrente.
- Tens razo. Valha-me Deus! - exclamou Texas, tirando a arma e disparando duas vezes. - Volte para trs! Volte para trs! - gritou, em voz portentosa, acenando 
o chapu.
Reddie ouviu-o, pois acenou com a mo, em resposta, mas continuou a avanar. Em breve o cavalo perderia o p. Texas disparou as restantes balas que tinha na arma, 
fazendo com que os tiros estoirassem na gua, a pouca distncia da rapariga, e gritou, de novo, como um gigante:
- Volte para trs, Reddie! Reddie, agora no  a mesma coisa! Diabos a levem, estou a dar uma ordem!
O grito estridente da rapariga chegou at eles, abafado, trazido pela forte ventania.
-  tarde, Tex; j entrou no rio e no pode retroceder - disse o patro.
- Deixe-a vir, Brite; no deve haver novidade. Com um cavalo daqueles!... - exclamou Pan Handle.
Texas ficou silencioso e imvel, como uma esttua equestre de bronze. Grandes ondas de gua enlameada caracolavam sobre o pescoo e a cabea do cavalo, subiam at 
aos ombros da rapariga e arrastavam-na na enxurrada, como uma simples palha. Porm, aps avanar umas cem jardas, o fogoso cavalo conseguiu desviar-se da corrente. 
Brite viu Reddie det-lo, para deixar passar um toro de madeira, e, logo a seguir, obrig-lo a voltar-se, para dar passagem a grandes ramos de folhagem. Tanto o 
cavalo como a amazona sabiam o que faziam! De novo o animal entrou na corrente; mas Brite compreendeu, preocupado,

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que no conseguiria alcanar o ponto de onde a reserva partira. J Pan Handle corria em auxlio da rapariga quando a montada desta, nadando com uma velocidade de 
que no a julgariam capaz, ergueu a cabea, saiu parcialmente fora de gua e, com um impulso vigoroso, aproximou-se da margem. E f-lo com um  vontade digno de 
nota! A trote, Reddie chegou a terra.
No mesmo instante, Texas saltou do cavalo e, no auge da raiva, de desespero ou do que quer que fosse, atirou o chapu ao cho e comeou a andar de um lado para o 
outro, praguejando como um possesso. Brite percebeu que o seu capataz dava, assim, escape  suprema angstia de que fora presa.
- Volte para trs, Pan - disse Reddie, alegremente. - Foi cmico! Que pensa do meu cavalo?
-  excelente, mas voc arriscou-se, sem necessidade nenhuma.
- No se esquea de que vo precisar de mim - declarou a rapariga, notando os gestos desordenados de Texas. - Demnio, o nosso capataz est furioso!...
E, sem mais demora, correu para junto de Texas e de Brite. Valia a pena olh-la naquele momento, plida de excitao, com os olhos escuros muito abertos e brilhantes 
de atrevimento, como quem espera, sem receio, -uma sentena. Estava completamente encharcada e a sua blusa no lhe escondia agora o contorno suave do busto.
- Lamento t-los assustado, cavalheiros - declarou, um pouco a medo - mas sabia que precisariam de mim e tive de vir.
- Eu gritei-lhe, Reddie Bayne... - comeou Texas, severo.
- Com certeza! Eu ouvi!...
- Ordenei-lhe que voltasse para trs! Tambm ouviu isto?

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- Caramba, se ouvi! Berrou com tal fora que at os mortos ouviriam!
- Nesse caso, no lhe mereo nenhum respeito, como capataz desta leva?
- Nem que fosse o prprio senhor Brite a mandar-me retroceder eu teria obedecido! - replicou Reddie, corajosamente, embora a sua palidez se acentuasse e os olhos 
se lhe dilatassem mais.
- Desobedeceu-me, ento, mais uma vez, deliberadamente? - berrou Texas.
- Concordo que sim.
- E no s deixou de fazer o que lhe mandei, como nos assustou a todos, s para se tornar notada!  uma rapariga orgulhosa, mas no voltar a desorganizar esta leva!
- No?...
- Escute, Reddie Bayne: nem por ter conseguido que o patro coma pela sua mo, nem por ser formidavelmente bonita, nem por eu estar doido de amor por si, me levar 
a consentir-lhe que me desobedea! Voc leva a vida dos guias, recebe soldada de guia e sabe as manhas dos guias!
Dizendo isto, aproximou-se do cavalo dela e, estendendo a mo magra e morena, agarrou-a pela gola da blusa e arrancou-a da sela.
- Oh! - gritou, com a voz estrangulada. - Como se atreve? Deixe-me! Texas, que vai...
- No posso atirar-lhe, como faria a um homem, nem espanc-la, como j fiz uma vez - prosseguiu, martelando bem as palavras - mas vou, com certeza, obrig-la a ver 
tudo escuro!
E, executando a sua ameaa, segurou-a pelos ombros, sem que Reddie oferecesse a mnima resistncia, muda de pavor. Brite calculou que o inslito procedimento do 
rapaz se devia mais ao facto de haver confessado o seu amor, do que  inteno de aplicar a Reddie um bom castigo corporal.

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Ela fitava-o com expresso que Texas devia ter dificuldade em sustentar, mas, em breve no via nada, pois ele sacudiu-a de tal modo que, em vez de um ser humano, 
mais parecia uma poro de geleia sujeita a tremenda fora vibratria. Quando, por cansao, ele a largou, Reddie caiu na areia, sem deixar de agitar-se.
- A tem... "miss" Bayne - arquejou ele.
- O qu... Texas Jack? - retorquiu, atrevida.
- S Deus sabe! - exclamou ele, desesperado.
- A vem o gado! - gritou, de sbito, Pan Handle.

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Captulo VIII


Um touro velho e corpulento conduzia a manada em forma de lana, pela extensa ladeira. Densamente amontoados, irresistveis na sua marcha lenta, os animais dirigiam-se 
para o rio, qual avalanche sem fim.
- Que sorte, j apontados! - gritou Texas, alegremente. - Que sorte!
- Ordens, Texas, ordens! - pediu Brite, pouco  vontade. - No tarda que estejam em cima de ns!
- No h ordens nenhumas a dar, patro, alm de se manterem na direco ascendente do rio. Os rapazes esto avisados. Ben, tu segues no vago. Ns voltaremos atrs 
e ajud-lo-emos a atravessar, tambm.
-Vou divertir-me  grande! - exclamou Ben, correndo a selar um cavalo.
Brite fez o mesmo, enquanto Texas praguejava contra Ben, por este no cumprir as suas ordens. Quando montou, j a formidvel manada - um tringulo colorido e movedio 
- comeara a descer, direita ao rio. Os guias cavalgavam continuamente, para a frente e para trs, de ambos os lados dos cornpetos, gritando, assobiando e fazendo 
grandes gestos. No entanto, a algazarra dos vaqueiros perdia-se quase por completo no formidvel ressoar de milhares de cascos, batendo a terra em imponente tropel.
- Reddie - chamou Texas, ansioso, voltando o rosto severo, de lbios apertados e olhos de falco para a rapariga -, isto  novo para si. Sei que o seu cavalo nada 
muito bem, mas isso de nada lhe servir, se seguir mal.

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Quer ficar perto de mim, para que possa avis-la, se no for bem?
- Com certeza - aceitou, complacente.
- Patro, o senhor vai com eles - ordenou Texas. - E tu, Pan, recuado, ao centro. Que ningum se ponha no meio da manada! Vamos, Reddie.
Os rios, por muito caudalosos que fossem, no metiam medo ao velho touro que,  frente da sua manada, gil como um vitelo, corria pela encosta arenosa abaixo, mugindo.
Todos os sons foram abafados pelo estrpito ensurdecedor daqueles milhares de cabeas de gado, marchando em massa compacta e fazendo tremer o cho debaixo dos ps. 
Por pouco, o chapu de Brite no lhe saltava da cabea, tal o seu pasmo! Nenhuma audcia, nenhuma ordem, nenhuma boa sorte seria capaz de impedir uma catstrofe, 
se ela tivesse de dar-se, naquele momento.
Texas meteu a montada ao rio,  frente do velho touro, agitando o lao sobre a cabea e com as faces vermelhas e congestionadas de gritar. Brite, porm, no o ouvia. 
O cavalo negro de Reddie mergulhou na gua lamacenta, atrs do de Texas, logo seguido por uma das alas da manada. Centenas de vacas e novilhos procuravam alcanar 
os companheiros que os tinham precedido, logo imitados por muitos outros, numa confuso e rudo impossveis de descrever. Os da frente, contudo, uma vez na gua, 
espalharam-se, para conseguirem mais espao, o que podia constituir dificuldade para os guias e impossibilit-los de manter a manada apontada.
Atravs daquela amlgama de corpos e chifres, Brite divisou Ben Chandler, a jusante da corrente, bem perto dos primeiros bois. Esquecido ou desinteressado do perigo 
que corria, o rapaz, desejoso de resgatar a sua falta, no sentia medo. Depressa, no entanto, deixou de ver a cabea envolta na ligadura ensanguentada. San Sabe 
e Ackerman,


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ambos do mesmo lado, cediam lentamente terreno, com o fito de ficarem atrs da manada logo que os ltimos animais entrassem na gua. Rolly Little, Holden e Whittaker 
passaram por Brite, de olhos brilhantes e excitados.
Quando tornou a olhar para o rio j o velho touro entrara nas guas mais profundas, levando atrs de si, como carneiros submissos, a maior parte dos seus companheiros. 
Texas perdeu o p, afastando-se para longe, rio acima, o mesmo acontecendo a Reddie. Pouco depois, a retaguarda da manada passou por Brite, berrando e matraqueando 
o solo com os cascos. Era tempo de juntar-se aos guias.
Brite esporeou a montada, deitou um ltimo olhar  corrente onde um milhar de cabeas armadas de grandes chifres deslizava, num largo semicrculo, e entrou, tambm, 
na gua, ao mesmo tempo que os ltimos bois. O rugido do trovo nada era, comparado com o fragor produzido pelos animais, numa estranha mistura de silvos, mugidos 
e estalar de ossos. Esse barulho diminua, porm,  medida que o gado ia perdendo p. Texas e, depois, Reddie, desapareceram da vista, na ocasio em que a manada 
pareceu querer mudar de direco. A seguir, sumiram-se Ackerman e Holden, ficando apenas visvel Whittaker. Brite notou, por fim, a presena de Bender, cavalgando 
perto de si, muito assustado.
Num tremendo esparrinhar de gua e entrechocar de corpos, toda a retaguarda da leva se afastou da margem. Como por magia, estabeleceu-se quase absoluto silncio, 
apenas cortado por um leve e ameaador marulhar, provocado pelas patas dos animais, revolvendo as guas. Brite compreendeu que lhe calhara um bom cavalo para aquele 
trabalho, observando a facilidade com que a sua montada enfrentava os obstculos que lhe surgiam pela frente. De facto, eram maravilhosos aqueles pequenos corcis 
espanhis de sangue rabe!

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Entretanto, o aspecto do rio modificara-se extraordinariamente. Desaparecera toda a espuma branca e apenas se via, de travs, uma longa fila de cabeas negras e 
compridos chifres, brilhando ao Sol. O terror e a fria dos primeiros momentos haviam desaparecido; em seu lugar, ficara somente a beleza esmagadora da mais audaciosa 
aventura a que Brite assistira. Com efeito, nada se podia comparar ao fenomenal espectculo que lhe enchia os olhos de pasmo, nem mesmo a travessia do rio Brazos 
por um milho de bfalos, que uma vez presenciara! Nessa ocasio, os animais eram senhores absolutos da situao; aqui, pelo contrrio, o Colorado era o grande dominador.
O Sol espelhava as guas que reflectiam o azul magnfico do cu, e, na margem oposta do rio, as rvores verdejantes, cada vez mais perto, convidavam cavaleiros e 
gado a recolherem-se sob as suas copas frondosas...
Brite alcanou o centro da corrente, cujas ondas o encharcaram at ao pescoo.  sua direita, os trs guias esforavam-se por afastar os cavalos da manada, quando, 
de sbito, grande poro de resduos de madeira se aproximou, na crista de uma onda mais alta do que as outras. J era ter pouca sorte, deparar com aquele contratempo, 
precisamente a meio do rio e na ocasio mais crtica!
Brite deteve a montada, para evitar o choque, e, com os ps e as mos, afastou os troncos e os ramos. Mas j uma rvore inteira, ainda verde e cheia de folhagem, 
rodeada por grossa barreira de toros, se encaminhava para o meio da manada, sem que os guias pudessem deter-lhe o avano. Alis, eles prprios tinham de cuidar de 
fugir-lhe, o que, pelo menos a dois, estava longe de ser fcil.
O veloz arete fendeu a manada, obrigou a retaguarda a desviar-se um pouco para jusante e abriu uma clareira entre as duas metades, pressagiando desastre. De facto,

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se a metade posterior continuasse rio abaixo, a sua perda seria inevitvel.
Brite aproximou-se e acabou por ficar enredado em grandes ramos que no vira, pois a sua ateno estivera concentrada nos acontecimentos. Se no fosse o seu inteligente 
cavalo, no se teria desenvencilhado com facilidade. Era mister ter mais cuidado. Ao olhar para trs, surpreendeu-se de ver o vago, um simples ponto na linha do 
horizonte, vir rio acima.  sua frente surgia j, a pouca distncia, a margem agreste e inclinada que Texas recomendara que no ultrapassassem. De p nos estribos, 
Brite notou que as primeiras cabeas de gado estavam prestes a alcanar a margem e que Texas, que as precedia, acabara de pr p em terra firme.
De sbito, o seu cavalo foi apanhado num remoinho que o obrigou a dar vrias voltas sobre si mesmo, com tal violncia que o velhote se dispunha a desmontar, para 
alivi-lo do seu peso, quando ele conseguiu libertar-se. A prxima descoberta de Brite encheu-o de jbilo: a vanguarda da manada saa da gua, acompanhada por dois 
cavaleiros. Satisfeito, voltou-se, para ver o que se passava com a metade que ficara em perigo: os animais retrocediam para meio do rio, mugindo, assustados. Ouviu 
um tiro: era Chandler que, do lado oposto, procurava obrigar o gado a retomar a direco conveniente. Com efeito, os esforos do rapaz foram parcialmente coroados 
de xito, mas a corrente, veloz e indomvel, comeou a arrastar os animais rio abaixo, para longe da margem, direito  curva para l da qual apenas a morte podia 
esper-los. Brite resignar-se-ia a perder todas aquelas cabeas, mas nunca um dos seus guias. Sob este aspecto, sempre fora bafejado pela sorte nas anteriores levas; 
por isso, agarrou-se  esperana de que, algures para l da curva, num ou noutro banco de areia, Chandler conseguisse salvar-se.

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Naquele momento um dos trs rapazes que seguiam  frente ganhou a margem e partiu a galope, com as crinas do cavalo esvoaando ao vento. No reconheceu a montada 
de Texas nem a de Pan Handle; por conseguinte, devia ser Ackerman que corria em auxlio de Chandler.
Quando, finalmente, Brite encontrou de novo p, atrs dele havia, apenas, poucas centenas de cabeas de gado, cansadas, mas salvas, pois todas tinham j cho sob 
as patas. Na margem encontravam-se trs vaqueiros, esperando-as; nenhum deles, porm, era Texas ou Reddie. Bender, Pan Handle e San Sabe vinham no coice dos animais, 
com os olhos postos rio abaixo, sem dvida na parte da manada que se desgararra.
Pouco depois, Brite juntou-se aos trs rapazes que estavam em terra, assim como os que precedera. No rosto de todos era visvel o abatimento.
- Tivemos pouca sorte, patro - lamentou-se Pan Handle, que parecia o nico capaz de falar. - A manada dividiu-se e a metade da retaguarda foi rio abaixo, levando 
Chandler consigo. Ainda podemos dar-nos por felizes de no terem ido mais com ele.
- Quero l saber do gado! - exclamou Bride. - H alguma esperana de salvar Chandler?
- Sim... h a possibilidade de encontrar algum banco de areia ou qualquer outra coisa para onde possa subir. Quanto ao gado, no dou nada por ele. O Deuce foi l 
por cima, ver o que podia fazer, e o Texas e a Reddie seguiram-no.
- Acampar. H muita erva para o gado, que com certeza, no est em condies de ir mais longe, esta noite.
-  preciso trazer para aqui o vago, embora eu no d j grande coisa por ele.

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- O vago foi construdo para flutuar, patro - esclareceu San Sabe. - Tem fundo duplo, de pranchas grossas. No se preocupe com os mantimentos.
Escalaram a ladeira arenosa, at um planalto arborizado e relvado, ideal para acamparem. Os cavalos estavam, tambm, extenuados, aps a movimentada travessia.
- Desaparelhem os cavalos, rapazes - aconselhou Brite, juntando o gesto  palavra. - E um de vocs acenda o lume, para nos secarmos.
Um pouco mais tarde, estava Brite em mangas de camisa, diante do lume, apareceram Texas Joe e Reddie.
- No vale a pena perdermos tempo a lamentar-nos - comeou o rapaz, filosoficamente. - Creio que Ben se foi. Quanto ao gado... h uma possibilidade em mil de o recuperarmos. 
J no  mau termos conseguido passar o resto... e, agora, o vago do Moze... Reddie, o seu cavalo no parece cansado! Tambm, voc  leve como uma palha... Empreste-o 
a San Sabe, para ir ajudar a trazer o vago.
- Com certeza! Mas eu tambm gostava de ir...
- Valha-me Deus, ainda no est farta de guas?!
- Oh, gostei imenso, enquanto a manada se no tresmalhou! Pobre Ben. Se o perdermos, nunca mais perdoarei a mim prpria o que lhe disse!
- Tem razo; de facto, falou de mais... Se me dissesse tanto a mim, ter-me-ia afogado logo!
- No... no... diga que tive... a culpa! - suplicou Reddie quase a chorar.
- Claro que no; estava a brincar. O Ben quis, apenas, resgatar a sua falta. Pela minha parte, considero-a mais do que saldada!
- E eu vou rezar para que ele se salve - declarou a jovem, desmontando.
San Sabe mudou a sela do cavalo negro de Reddie e seguiu Texas, que se dirigia j para a margem.

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O grupo que ficou a enxugar-se, junto da fogueira, estava sombrio, sobretudo a rapariga, que parecia infeliz e doente e no despregava os olhos das guas lamacentas 
do rio.
Texas e San Sabe fizeram passar bem maus bocados aos seus companheiros, pois chegaram a ficar totalmente submersos, mas l conseguiram atravessar para o outro lado, 
sos e salvos. Entretanto, Moze conduzira o vago para a margem, ao seu encontro. Embora estivesse longe demais para distinguir o que se passava, Brite calculou 
que os rapazes deviam ter lanado o vago, para ajudarem a parelha que o rebocava. De facto, no lhes deu muito trabalho faz-lo entrar nas guas lamacentas, que 
se ergueram em grandes caches. Brite conservava poucas esperanas quanto ao resultado de mais aquela aventura e, no momento em que os viu afastarem-se da margem 
e serem arrastados rio abaixo, pensou para consigo que isso era o prenncio de mais um desastre. Mas o vago flutuava como um verdadeiro barco e aproximava-se, a 
pouco e pouco, do acampamento. Afinal, preocupara-se sem motivo! Consolava-o, porm, verificar que no fora o nico a perder a serenidade: Moze, apesar de preto, 
parecia plido...
Os guias no acolheram o cozinheiro com as suas habituais graolas, facto que Moze logo notou, enquanto dizia, revirando os olhos:
- Parece-me que tero de secar as vossas camas, pois pu-las todas debaixo dos mantimentos!
- Oh! E o meu tabaco? - lamentou-se um.
- Devia esticar-te, negro! - acrescentou Whittaker, severo. - Tinha a minha nica camisa de reserva na cama!
- O que vem a ser isso de esticar? - quis saber Moze, comeando a tirar os fardos do carro. - Vocs parecem-me todos com cara de caso, sabem?
- Perdemos metade do gado e o Ben Chandler - respondeu Brite.

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- Deus todo poderoso! Quando vi este rio, logo me pareceu que ia haver desgraa!
Com esta frase terminaram as brincadeiras, assim como a conversa. Aproximava-se o meio-dia e Bride teria mandado o gado seguir caminho, se fosse possvel, mas tanto 
a manada como os cavalos estavam esgotados.
A leva que vinha atrs deles devia ficar aquela noite na margem sul e atravessar o rio amanh, proximidade que no era nada tranquilizadora, mas que no se via como 
evitar. Pouco depois, os silenciosos vaqueiros estremeceram, vendo surgir Deuce Ackerman. O seu desalento e a forma como conduzia o cavalo eram significativos. Entrou 
no acampamento com o rosto transfigurado de pesar, enlameado da cabea aos ps e mais se deixou cair do que desceu da sela.
- Aproxima-te do fogo, Deuce; eu desaparelho o cavalo - ofereceu-se Little, solcito.
- Senhor Brite, o Chandler afogou-se - informou o
rapaz.
- J calculvamos - disse aquele, resignado.
- Arranjem-me de beber, se querem que lhes conte o que se passou.
Ackerman no parecia, porm, ter pressa de relatar a tragdia, e s ao fim de certo tempo comeou, contrafeito:
- Cavalguei ao longo da encosta, pois o idiota do Chandler no desistia de apontar aquele punhado de cabeas, gritando e rodando o lao, incansavelmente. Berrei-lhe, 
at quase rebentar os pulmes, vezes sem conta, mas parecia no me ouvir. Viu-me, contudo, passado um bocado. Acenei-lhe que sasse do rio, mas no fez caso: continuou 
a avanar com a manada, e eu igualmente. Ainda no percorrera trs milhas, quando notei, do meu lado, muito ao longe, uma larga brecha na encosta, e, diabos me levem, 
se ele a no viu, tambm! Mas continuou a incitar o gado, como se tivesse sado do inferno,

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para aquele lado, sempre, sempre para aquele lado! E eu seja maldito se no os conseguiu manobrar para terra, precisamente quando a corrente j os levava de roldo! 
A gua, por ali perto, estava enlameada, mas, assim que os da frente pisaram cho, ganharam vida. Meu Deus, como eles saram de l!
- Queres dizer que Ben conduziu o gado para terra firme? - perguntou Texas, incrdulo.
- Seja danado, se no o fez! Mas o seu cavalo estava coberto de gua, e, como o gado lhe bloqueava o caminho, ele no pde sair da corrente e acabou por ser levado 
rio abaixo. Cavalguei com quanta velocidade pude, gritando ao Ben que se aguentasse, mas ele j estava montado no pescoo do cavalo! Se no fosse a corrente, aquele... 
aquele estpido teria morrido. Mal sabia nadar! Procurei uma aberta e dirigi-me para l. O Ben passou perto e eu atirei-lhe o lao. Da primeira vez, lancei-o em 
boa direco, mas era curto e o Ben no o apanhou. Continuei a correr e a atirar o lao, mas em vo: o terreno era quase a pique e muito irregular, e estive mesmo 
a cair, tambm. Vendo que estava a perder tempo, andei para diante um bom bocade e esperei que ele passasse por um local adequado... mas, quando estavam quase a 
chegar ao alcance do meu lao, o pobre cavalo... afogou-se. O Ben fez um fraco esforo para se aguentar... tinha-me visto... abriu a boca para falar... s um gorgolejo... 
a gua encheu-lhe a boca... cobriu-lhe o rosto... Meu Deus! Depois, flutuou, ergueu uma das mos, depois o corpo, outra vez a cabea... e pronto!
Reddie rompeu a chorar e fugiu de ao p do lume. Texas ajoelhou-se, sem dizer nada, e comeou a deitar pequenas achas na fogueira.
- Com Ross Hite ou sem Ross Hite... Ben pagou bem a sua conta!

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- murmurou, como se falasse consigo prprio.
- Foi terrvel, Ackerman - declarou Brite, comovido.
- Eu... nunca mais esquecerei os seus olhos! - disse o rapaz, tristemente. - Ele queria salvar-se, queria, que eu vi! Quando me viu a primeira vez, no se interessou, 
s queria apontar o gado para terra... e conseguiu-o! Nunca vi nada semelhante!
- Vou selar um cavalo e procurar os animais que ele salvou - decidiu Texas, carrancudo e grave. - A que distncia, mais ou menos, devem estar, Deuce?
- No sei; talvez quatro milhas...
Shipman afastou-se, surdo ao pedido de Brite para que ficasse um pouco mais. Talvez quisesse estar s, disposio que, a pouco e pouco, todos os homens foram manifestando. 
Reddie escondera-se, com certeza, entre o arvoredo; como mulher, devia tomar a tragdia mais a peito, tanto mais que, em parte, se julgava responsvel pelo sucedido.
- Pelos vistos, e julgando pelo que ouvi em Dodge e Abilene, estamos a aprender o que  uma verdadeira leva de gado! - murmurou Pan Handle. -  um jogo em que as 
cartas melhores esto nas mos do adversrio...
- A culpa  minha, da minha ganncia - acusou-se Brite, sincero. - Metade da manada era suficiente...
- Nunca se pode adivinhar o que vai suceder - sentenciou Whittaker.
Moze chamou-os para o almoo e todos acorreram, famintos, embora sem pressas. Reddie Bayne no apareceu e Brite decidiu deix-la s, at os guias se retirarem. Mas, 
depois de comerem, os rapazes deixaram-se ficar no acampamento, abatidos pelo infortnio e, sem dvida,  espera que Texas voltasse.
- Ele j devia ter regressado - notou Deuce. - No ser melhor eu ir dar uma olhadela?
- Podiam desencontrar-se.

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Fizeram conjecturas, quanto aos provveis movimentos das duas metades da manada, procurando convencerem-ce, sem darem por isso, de que tudo corria bem. O calor da 
fogueira secou as roupas de Brite e encheu-o de sono. O velhote deitou-se debaixo de uma rvore e adormeceu. Quando acordou, o Sol encaminhava-se j para o poente 
e Pan Handle, Reddie Bayne, Rolly Little e Texas formavam grupo, de caras abatidas.
- J voltaste, Tex? - perguntou Brite, sentando-se, com as articulaes doridas.
- Sim, patro - respondeu o outro, com voz cansada.
- A que distncia esto?
- Bem... contando a meia hora a que j aqui estou... talvez a umas dez milhas para Norte...
- O qu?!
-  como lhe digo. Avanam como se o diabo lhes fosse no encalo!
Adivinhando nova tragdia, Brite encheu-se de coragem e perguntou, friamente:
- Como?
- Patro, custa-me dizer-lhe isto - comeou o capataz, acabrunhado. - Reddie, tape os ouvidos que quero falar  vontade! Vejo tudo vermelho! Serei um poltro, um 
amarelo, e terei de embebedar-me ou de endoidecer, se no matar...
- Com a breca, explica-te melhor, que no percebo nada! - interveio Brite, zangado.
- Explica-te tu, Pan Handle.
- Trata-se de um negcio porco, Brite, mas que no me parece to mau como ao Texas - obedeceu o pistoleiro. - Texas foi  procura do gado ou da sua pista, mas no 
o encontrou em parte nenhuma. Por isso, subiu a um monte e localizou-o: corria para Norte, bem embalado,  frente de uns dez guias.

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- Ross Hite! - explodiu Brite, enraivecido, erguendo-se
de um salto.
-  o que pensa Texas. Por isso, voltou para trs, para nos avisar, como era justo que fizesse, pois estvamos todos em cuidado. O Joe vinha furioso e queria cavalos 
frescos, para correr atrs do bando de Hite e fur-los. Os rapazes eram da sua opinio, menos eu. No concordo, e quanto mais penso no caso, mais me conveno que 
tenho razo.
- Sou do teu parecer, Pan Handle - declarou Brite, imediatamente. - Temos pouca gente e, se dssemos caa ao Hite, haveria luta e algum dos nossos poderia ser morto. 
Por outro lado, no me agradaria deixar aqui a manada, sozinha; poderia juntar-se com as que vm atrs... No!  melhor conservarmos o pssaro que temos na mo.
- Exactamente! - aprovou Pan Handle, satisfeito. - Agora, se me ouvirem, talvez vejam o caso como eu: Ross Hite no poder afastar-se tanto que no possamos alcan-lo 
num dia. Deixemo-lo, portanto, em paz, mantenhamo-nos no seu encalo, com um dia de diferena... e ele acabar por conduzir o nosso gado, poupando-nos trabalho! 
O tipo  tolo chapado: no h mercado de gado antes de Dodge; logo,  para a que ter de ir, pois Abilene fica longe. Uma noite antes de entrar em Dodge, arranjarei 
um cavalo rpido, atravessar-me-ei na pista e esperarei por ele.
- A ideia  boa, patro, excepto no que respeita a ele ir s. Eu no consinto! - afirmou Texas.
- Ir ao encontro de Hite? - monologou Brite, aparvalhado.
- Foi o que eu disse - corroborou Pan Handle, carrancudo.
- Bem, Pan,  uma ideia generosa, da tua parte! - admitiu o velho.

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Compreendera perfeitamente: Handle queria arrostar o perigo sozinho, como um autntico pistoleiro que era. Os homens da sua espcie buscavam o dramtico, procuravam 
tirar vantagem da surpresa, mas no consentiam que outros se arriscassem.
- Patro, pensando melhor, concordo com o Pan - declarou Texas. - Mas se esse  o ltimo meio de recuperarmos o nosso gado, to certo como Deus estar no cu, alguma 
coisa mais no-lo devolver! Temos mais de uma dzia de rios para atravessar, pele-vermelhas, bfalos... Esse tal Hite no  guia de gado e a sua gente  composta 
por ladres de cavalos, alguns deles j maduros, que no sabem guiar manadas. Hite  doido; pensa embolsar 30.000 dlares e, por isso, seguir a pista e no largar 
a manada, mas tem tantas possibilidades de tocar na massa como uma bola de neve de se conservar no inferno!

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Captulo IX


A noite caiu quente, j com ar de Vero, na doura balsmica. As estrelas brilhavam, prateadas, por entre a folhagem das rvores e o rio murmurava ao longo da margem, 
sem o ar ameaador que tivera durante o dia. As rs coaxavam, melancolicamente... Toda a vasta plancie estava mergulhada em silncio, como se dormisse, mas os ladres 
e a morte, esses, no descansavam!
Brite sentia tudo isto enquanto procurava, inutilmente, adormecer. Reddie estendera a sua cama perto da dele,  sombra das grandes rvores. De repente, uma silhueta 
alta e magra interps-se entre o velho e o firmamento: Texas Joe andava de um lado para o outro, como de costume, horas mortas, talvez preparando-se para chamar 
os novos guardas... Desta vez, porm, contornou cautelosamente o leito de Brite e parou ao lado de Reddie, ajoelhando-se, um momento depois.
Seguiu-se uma pausa e, por fim, sonolenta, a rapariga murmurou:
- Quem est a?
- Caluda! No fale alto que acorda o patro...  o Tex.
- Outra vez, meu Deus! No pode deixar-me dormir em paz? - replicou a jovem, num murmrio descontente.
- Ouvi-a chorar e quis vir, mas achei melhor esperar que todos dormissem...
- Mas, que quer voc?

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- Conversar um bocado. De dia nunca tenho oportunidade... e desde que vi o Ben sentado ao p da sua cama, naquela noite, fiquei doido.
- No dei por isso... - observou, sarcasticamente. - Se quer conversar, chegue-se para l. Est quase sentado em cima de mim!
- O Ben tambm estava apaixonado por si, no estava?
- Texas, no sei se ele "tambm" estava, mas voc diz, mas sei que estava ou que, pelo menos, assim o jurava. Eu no acredito em vaqueiros.
- Bem vejo, embora no sejam to maus como julga, Reddie. Gostava do Ben?
- Claro que no!
- Mas consentiu que a beijasse!
- No consenti coisa nenhuma! Naquela noite em que o apanhou, eu no tive culpa do que sucedeu. Ele agarrou-me, mas no me tocou na boca!
- Ah! Ento  diferente... Desculpe.
Seguiu-se um longo silncio. Brite sentiu desejos de tossir, de virar-se ou de fazer qualquer outra coisa, para avisar o jovem de que estava acordado, mas a vontade 
de saber o que se ia passar foi mais forte e venceu. O rio continuava a seguir serenamente o seu curso, as rs a coaxar e as folhas das rvores, embaladas pela aragem, 
a emitirem um doce sussurro... Inexplicavelmente, um no sei qu tornava aquela noite maravilhosa e mpar.
- Era s isso que queria dizer-me? - perguntou Reddie.
- No. Tenho sempre muito que dizer... mas, quando chega a altura, no sou capaz - murmurou Texas, tristemente. - Tenho pena do Ben. No era grande coisa, e eu sabia-o 
h algum tempo, mas soube morrer bem.
- No me faa chorar, outra vez!
- O Ben pediu-a em casamento?

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- Juro que no! - afirmou, soltando uma gargalhadinha nervosa.
- Parece-me que a minha pergunta no tem graa nenhuma - protestou ele, formalizado. - E os outros, no lhe fizeram esse pedido?
- Que eu saiba, no... - respondeu, rindo  socapa.
- Que engraado!
- Agora  a minha vez de no achar graa. Acha que deviam t-lo feito?
- Pedir-lhe-ei eu, qualquer dia...
- Est doido!
- De acordo, mas  a primeira vez que tal me acontece, por causa de uma rapariga.
- Quem pensa que eu sou, para me vir com tretas?
- Srio, garota! Desde que me tornei homem, no tenho feito mais do que cavalgar, dar ao gatilho e tratar de gado; tem-me faltado tempo para olhar para raparigas...
- Apostava que tem lidado muito com aquelas mulheres que, segundo diz o senhor Brite, abundam em Dodge...
- Oh, Reddie! Se alguma vez isso sucedeu, estava to bbado que no dei por nada...!
- Gostava de acreditar, Texas.
- Pode crer. Sou incapaz de mentir a uma rapariga e muito menos a si.
- Mas mentiu-me, quando disse saber que eu era uma rapariga, desde o princpio.
- No menti, Reddie.
- Mentiu, com certeza! Voc o que queria era ser superior aos outros, que eu bem vi, Texas.
- Dir-lhe-ei por que sabia, se jurar perdoar-me...
- Perdoar-lhe? Confesso que acho isso estranho...
- Talvez seja, de facto, Mas oua...
- Texas Jack, no diga nada que me obrigue a odi-lo!
- J no se lembra do que lhe disse acerca dessa alcunha?...


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Reddie, soube que era uma rapariga antes de matar o Wallen. Parece-lhe que o abateria to depressa, se no soubesse?
- Cada vez percebo menos! Como soube?
- Lembra-se daquela angra onde acampmos? Foi o melhor acampamento que tivemos at agora. Salgueiros, carvalheiras, amoras silvestres, flores... Era quase ao pr 
do Sol e eu dirigia-me para o acampamento por um atalho... O arvoredo era muito denso... ouvi chapinhar na gua e... espreitei por entre a ramaria.
- Voc... voc... Tex Shipman! -- exclamou, com voz estrangulada.
- Sim. Vi-a tomar banho... vi s a... parte de cima... No fique to envergonhada, Reddie! Dei s uma olhadela, virei logo a cara e fiquei como que fulminado. Depois, 
afastei-me, mas nunca mais fui o mesmo!
- No sou dessa opinio! Mas... por que nunca me disse? No foi cavalheiro... e eu, agora, odeio-o!
- Pacincia!... Contudo, no acredito, Reddie. Por que havia de odiar-me?
- Porque foi desprezvel para comigo!
- Desprezvel?! Mas se tive de enganar todos! Era preciso evitar que voc e o pessoal descobrissem que estava doido por si. Por isso... implicava consigo.
- No dia em que me espancou... Tex Shipman... sabia que eu era uma rapariga?
- Assim Deus me ajude, como sabia!
- Nunca mais olharei para si!
- Mas, Reddie, no quer que um homem seja sincero?
- No... no... quando esse homem sabe demais.
- Devia dizer-lhe isto, antes de pedir-lhe que casasse comigo..... E estou a pedir-lho, agora.
- A pedir o qu? - inquiriu, num sussurro, perturbada.
- Que case comigo.

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- Francamente! Pensa que sou uma pobre qualquer
coisa da plancie, sem famlia, sem lar, sem amigos, uma simples desterrada?!
- Quando veio para junto de ns, se bem me lembro,
no passava de um garotelho lindo e solitrio que devia ter passado os seus maus bocados, e ainda hoje pergunto a mim mesmo, com espanto, como conseguiu transformar-se 
numa linda rapariga to fina e bonita.
- Tem razo, Tex,  espantoso! Mas consegui-o, graas a Deus, e agora sou a mais feliz das raparigas.
- Reddie! O meu pedido... para ser minha mulher... tem alguma coisa a ver com o facto de se sentir assim?
- Talvez, Tex - respondeu, com falsa modstia. - Vaqueiro, ignora a que alturas aspira! Eu "era" uma rapariga sem nada, mas "agora" sou uma herdeira!
- O qu?
- Texas, sou a filha adoptiva do senhor Brite! - anunciou, orgulhosa.
- Isso  srio, Reddie?!
- Palavra! No sei como aconteceu, nem me importo; s sei que sou feliz... pela primeira vez na vida.
- No calcula como me sinto satisfeito! Era o melhor que podia acontecer-lhe! O patro  um velho cavalheiro do Sul, um autntico texano! Tem um grande rancho perto 
de Santo Antnio... Vai ter um lar... ser rica, qualquer dia... Poder possuir todos os cavalos que desejar... e janotas, tambm, Reddie!
- Janotas?... Que cmico! Eu, Reddie Bayne, habituada a dormir no cho!
- Sim, e tudo isso significa que Tex Shipman e toda a sua raa podem ir passear! No entanto, nenhum a amar to doidamente como eu!
- Os coraes fracos nunca conseguem conquistar a mulher que lhes convm, Texas Jack... - escarneceu.

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Seguiu-se um rudo abafado, uma luta convulsiva e, finalmente, o som suave de um beijo.
- Oh! No... no...
- Tinha-a avisado! - segredou, apaixonadamente. - Jurei uma vez que, se voltasse a chamar-me Texas Jack, a levaria a chamar-me Jack querido..... e vou consegui-lo!
- No vai nada! - protestou, com calor, embora assustada.
- Vou!
- Se tentar fazer... isso outra vez... grito!
- No acredito, mas, mesmo assim, arrisco-me!
- Est a aleijar-me, grande bruto... No me aperte assim! As suas mos... Ah!...
- Assim! Agora, diga Jack querido., ou beijo-a outra vez.
- No digo... no digo...
Houve um intervalo, pleno de exclamaes abafadas e significativas.
- Bem, ento terei de beij-la duas vezes... Meu Deus, estou desgraado! Nunca soubera o que fosse um beijo... Agora, pode estar o tempo que quiser, sem dizer Jack 
querido, que no me importo!
Evidentemente, ela lutou durante algum tempo, a julgar pelo que se ouvia, mas, por fim, com um suspiro, suplicou:
- Por favor, Tex! Isso no. so modos de tratar uma rapariga. Oh!...
- Posso fazer isto toda a noite! - respondeu o rapaz, com ardor. - Chama-me querido?
- Mas, homem, isso no quer dizer nada! - exclamou, com rudeza.
- Muito bem! - e beijou-a outra vez, e outra, e outra... Brite escutava o som leve e sibilante dos lbios ao tocarem-se e sentia-se, ele prprio, comparsa da cena.

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- Sim... sim... rendo-me! - murmurou a jovem. - Deixe-me... respirar!
- No a largo, enquanto no disser. J, j, seno...
- Idiota! Jack... que... rido!
- Obrigado, Reddie. Tome mais este, por ter dito! Da prxima vez, ser voc a pedir-me...
Largou-a e endireitou-se, com a respirao opressa, declarando :
- Desculpe, se a ofendi, mas estou satisfeito. Porque est fora do alcance de um pobre guia de gado, hei-de lembrar-me, toda a vida, que me chamou querido e me beijou, 
Reddie.
Ps-se de p, ocultando, com a sua figura alta e magra, a plida luz das estrelas que se coava pela folhagem.
- Mas foi  fora... Texas Jack! - ripostou ela, num sussurro que Brite mal compreendeu.
Pelos vistos o rapaz achou o dito demasiado petulante, pois afastou-se na escurido, como o vento.
Depois disso, Reddie suspirou vezes sem conta, virou-se e revirou-se na cama, falando sozinha, at que, por fim, adormeceu. O marulhar das guas do rio, o lamento 
dos coiotes, o zumbido dos insectos, voltaram a reinar na noite. Brite permaneceu desperto, pensando, maravilhado, como fora fcil e inesperado o desabrochar do 
eterno feminino naquela rapariga selvagem e indomvel. Podia ser uma pobre rf, habituada a andar vestida de homem durante anos, sujeita a uma vida rude, sem tecto 
nem abrigo, mas nada disso lhe obliterara o corao, a subtileza e a astcia de mulher! Brite seria capaz de afirmar se ela amava, ou no, Shipman; mas estava certo 
de uma coisa: ela era capaz de fazer de Texas o mais desditoso dos vaqueiros, antes de capitular!
O velhote conseguiu, por fim, adormecer e s acordou quando o chamaram para almoar. San Sabe, Whit e Less Holden j se encontravam sentados no cho, de pernas cruzadas,

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a comer com apetite. Reddie partira, pois a sua cama, enrolada, via-se sobre o cubo do rodado dianteiro do vago. A manh estava linda, mas os rapazes pareciam nem 
dar por isso. Enquanto comia, apareceu a jovem, com alguns cavalos frescos.
- Rapazes, onde fica a Pista, partindo daqui? - indagou o patro, lembrando-se que o gado atravessara o rio acima da cidade.
- Deuce disse que so perto de quatro milhas mais abaixo informou Holden. - Na realidade, passa pelo stio para onde Ben conduziu o gado. E, a propsito, senhor 
Brite, ontem o Deuce esqueceu-se de falar do barco...
- Do barco?... Qual barco?
- Sim. Ele viu um barco no rio, do lado da cidade, e ele e o Tex esto convencidos de que foi utilizado por quem roubou o gado.
Brite estava ansioso por recomear a marcha. Resignara-se a perder metade dos animais, mas nem por isso o facto deixava de apoquent-lo e de fazer-lhe sentir uma 
espcie de amarga derrota. Com efeito, uma coisa era concordar com opinies sensatas e razoveis, depois de haver sido roubado, e outra, inteiramente diferente, 
proceder de acordo com essas opinies! Os vaqueiros obedeciam s ordens que se lhes davam, mas nunca aceitariam tal perda. Texas Joe e Pan Handle no eram homens 
que ficassem impvidos depois do que sucedera.
Ao nascer do Sol, os guias estavam de novo na Pista, com o gado avanando uma a duas milhas por hora, mas nenhum deles divisou, durante o dia, a metade do gado que 
fora roubada.
- Bem, se percebo alguma coisa disto, aqueles tipos devem estar agora mais perto de ns do que estavam ontem - observou Tex. - So pouco experientes, como guias, 
e, ainda por cima,

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quase s tm bois velhos e fracos... Ross Hite teve pouca sorte com as cabeas que lhe calharam e o Pan viu bem a coisa: o pulha faz o trabalho por ns e, como recompensa, 
fica com a carcaa cheia de buracos!
No entanto, apesar de todos os esforos, o grupo perdera a sua sadia boa disposio; abalara-o o inqualificvel comportamento de dois dos seus membros e a morte 
do traidor, e as dificuldades da travessia, o triste fim de Chandler e a perda de uma parte importante da manada, tornaram os rapazes bisonhos e sorumbticos. Exceptuando 
Texas Joe, que se modificara muito durante a ltima noite, todos ajudavam Reddie no que podiam, mas a graa, o esprito romntico e a tendncia para o namoro e para 
o galanteio, haviam desaparecido. O capataz, esse, quase no dirigia a palavra a ningum, nem mesmo  jovem. Parecia que, instintivamente, todos procuravam poupar-se 
o mais possvel, como se o que acontecera fosse pouco, comparado com o que podia ainda sobrevir.
Round Top, Brushy Creek, Cornhill, Noland Creek, Loon River e Bosque River foram ultrapassados sem incidentes de maior. Uma vez, de uma elevao da vasta pradaria 
que haviam levado um dia inteiro a vencer, San Sabe localizou a metade de gado roubada apenas a um dia de avano. Tinham agora a certeza de que fora Ross Hite quem 
praticara o furto, pois em Belton, num pequeno rancho, Hite deixara atrs de si indcios mais do que suficientes.
As chuvas, embora poucas e espaadas, haviam sido bastantes para que no faltasse a gua. Brite temera nova enxurrada e as consequentes dificuldades de travessia 
no grande Brazos River, mas, ao chegar, ficou agradavelmente surpreendido: o Brazos levava gua cuja passagem no oferecia perigos. Acamparam na margem norte, perto 
de uma bela enseada, e depararam de novo, aps alguns dias de escassez, com abundncia de caa.

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Os perus e os veados eram to mansos que no se afastavam dos cavalos e dos homens, e os primeiros, novos, do tamanho de frangos, davam pratos deliciosos...
Brite calculou que,  mdia a que tinham avanado, deviam terminar a viagem dentro de noventa dias. Um tero deste prazo passara j, ou talvez mais, pois ele perdera 
um pouco a noo do tempo. Mais quatro dias puseram-nos a meio caminho entre Brazos e Forth Worth, e era evidente que os rapazes comeavam a esquecer-se dos dissabores 
que haviam tido nas primeiras tiradas.
Forth Worth, enfim! Julgar-se-ia ser uma metrpole, pela importncia que possua para os guias, mas era apenas composta de meia dzia de edifcios, um armazm, uma 
taberna e poucos habitantes.
Texas Joe deixou a manada fora da cidade, sem prever que a outra metade do gado de Brite no se encontrava muito longe, naquela noite. Tal notcia foi San Sabe quem 
a trouxe, pois era o nico dos quatro rapazes suficientemente sbrio para dizer qualquer coisa com jeito. Isto passou-se poucos minutos antes da meia-noite, e de 
manh Joe afastou-se com eles, para, segundo Brite supunha, os punir com dureza...
- Rapazes, vocs, a noite passada, desobedeceram-me - comeou o capataz, com severidade. - Embriagaram-se e se, em vez disso, tivessem vindo aqui trazer a notcia 
de que o nosso gado estava perto, teramos ido busc-lo, enquanto a gente do Hite se encontrava na cidade. Esta manh verifiquei que ele se foi embora, ao anoitecer, 
certamente porque soube da nossa presena.
Todos os vaqueiros, entre os quais se contava Less Holden, ficaram envergonhados e cheios de consternao.
- Agora j  muito tarde, para fazermos alguma coisa - prosseguiu Texas -, mas peo-lhes que esta seja a ltima vez que se embebedam, antes de chegarmos a Dodge.

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L podemos emborrachar-nos at morrer! A mim tambm me apetecia beber, para esquecer, como vocs; mas no fiz o que vocs fizeram! Deixem passarmos o Rio Vermelho, 
se querem saber o que  o inferno! Vero as terrveis tempestades magnticas, que pem o gado maluco... E os bfalos... Sim, porque tambm haver muitos,  farta!... 
Por isto mesmo, ainda que os Comanches no nos brindem com as suas visitas, sero muitos os perigos a enfrentar.
- Tex, no tocaremos num copo enquanto a leva no terminar! - garantiu Ackerman. - Prometo-te que denunciarei todo aquele que tentar proceder doutro modo.
- Excelente, Deuce! No peo mais do que isso - afirmou Texas, satisfeito.
Antes de os guias abandonarem o acampamento, naquela manh, passou uma companhia de soldados, cujo sargento parou, para tagarelar com Brite, a quem deu informaes 
perturbadoras. Aquele destacamento estava sob as ordens do tenente Coleman, do quadro de cavalaria, e dirigia-se a Forth Richardson, onde, pouco tempo antes, os 
Comanches tinham massacrado alguns colonos. Tanto esta tribo como a dos Kiowas estavam de novo em p de guerra, pondo em alvoroo todo o extenso territrio entre 
os rios Brazos e Vermelho. Tambm a norte e a sul daquele rio eram frequentes as manadas de bfalos, segundo informaes obtidas por Coleman. Acrescentou ainda o 
sargento que, atrs dos bfalos, seguiam os habitantes caadores de peles e ladres de cavalos.
- O tenente Coleman aconselha-o a ficar algum tempo no forte - concluiu o sargento. -  nossa frente vai apenas uma manada, mas aquela gente no ouve a voz da razo...
- Trata-se de Ross Hite, sem dvida...
- No lhe cei o nome, mas  um texano alto, claro, de rosto apergaminhado e olhos pequenos.

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-  o Hite! - confirmou Pan Handle.
- Ele  capaz de se atirar para a frente, sem olhar a nada, mas o senhor faria melhor deixando-se ficar aqui alguns dias...
- Impossvel, sargento - recusou Brite. - Vm duas grandes manadas atrs de ns, com intervalo de um ou dois dias, apenas. E com seis ou mais, nem se fala; Este 
Vero devem passar por c umas duzentas mil cabeas de gado!
- Srio? Ser possvel? Grande parte no chegar nunca a Kansas... Adeus e boa sorte.
- Igualmente - retribuiu Texas, que, em seguida, se voltou para os seus guias, com os olhos chispantes: - Ouviram, no  verdade? Portanto, nada mais h a dizer. 
Patro, parece-me aconselhvel carregarmos todos os mantimentos e munies que pudermos arranjar. At Doan no h outro armazm e l falta sempre de tudo.
A gente de Brite prosseguiu, pronta para o pior. Os dias seguintes decorreram, porm, sem novidade. Em Bolvar, terra de bfalos, a Pista Chisholm bifurcava-se, 
seguindo, o caminho da direita para o Norte, na direco de Abilene, e da esquerda para Noroeste. Aquele, era mais longe, em compensao, mais seguro; o outro, que 
levava a Dodge, era mais curto, todavia mais difcil e perigoso. Mas terminava no mais lucrativo mercado de gado e de cavalos do pas...
- Acha, patro, que seremos capazes de descobrir o caminho que Hite levou? Pagando um par de copos aqui e ali e fazendo-nos passar por caadores de peles, talvez 
aparea quem d  lngua...
- Vai, Texas, e, se quiseres, leva fornecimento de "whisky".

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- Vem comigo, Pan Handle - ordenou o capataz.
- Deixem-me ir, tambm - pediu Reddie.
- O qu?! Para que havia de ir?
- Para ver gente. Estou farta de olhar para as vossas caras!
- Quer conhecer outros homens, hem?!... Pois no lhe fao a vontade! Continuar connosco, j que connosco tem estado at agora.
A tarde acabara h pouco quando escolheram o novo acampamento, perto de um ribeiro que ia ter a Bolvar. Havia uma grande e bonita clareira onde o gado podia pastar 
 vontade, sem ser preciso montar guarda muito apertada. Era o seu segundo bom acampamento, naquela leva. Brite convidou Reddie para irem pescar no ribeiro. O rosto 
carrancudo da rapariga abriu-se num sorriso e, pouco depois, estavam ambos, ajudados por Moze, a preparar as linhas e os anzis, para lhes colocarem minhocas e gafanhotos, 
servindo de isco.
O velho e a sua pupila passaram uma hora agradvel e despreocupada. Reddie era novata, mas cheia de entusiasmo e alegria. O ponto culminante da aventura verificou-se 
quando um corpulento lobo marinho picou o anzol da rapariga. O peixe era to pesado, que ela, no s no conseguia segur-lo, como, tambm, corria o risco de ser 
arrastada por ele, para dentro de gua, tal a fria com que se debatia. A jovem fez quanto pde, para no largar a presa, mas acabou por ter de gritar por ajuda. 
Brite tinha como norma no ajudar pescadores, porm, desta vez, desprezou a regra e auxiliou Reddie, at o grande peixe ficar exausto. Ento, puxaram-no para terra 
e, juntando-o aos outros j pescados, regressaram apressados e triunfantes ao acampamento, onde Moze os acolheu deliciado:

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- Ih, que grande pescaria! Vo ver como "nego" sabe cozinhar peixe! Sempre  agradvel no comer carne, uma vez por outra...
Antes do jantar, Texas Joe e Pan Handle regressaram, para grande alvio de Brite.
- O Ross seguiu pelo caminho de Dodge, ontem, ao meio-dia - informou Texas, satisfeito. - Leva-nos um bom avano, mas, na opinio dos caadores de bfalos com quem 
falmos, pode ser detido num abrir e fechar de olhos.
- Parece-me boa a notcia - comentou Brite, duvidoso. - No vejo, porm, o que conseguir det-lo...
- Ora! - replicou o capataz. - Se mais nada os fizer parar, os bfalos encarregar-se-o disso, com certeza!
- E tambm de ns...
- No interessa, desde que consigamos apanhar o nosso gado! Aquele Hite bule-me com os nervos!
- Contudo, um pequeno descanso no nos faria mal nenhum...
- Creio bem que este ser o ltimo, no devemos encontrar outro acampamento, assim sossegado - resmungou Texas, observando Moze, que limpava o peixe: - Eh, onde 
arranjaste isso?!
- Foram pescados pelo patro e por "miss" Reddie.
- Voc pescou algum? - perguntou o rapaz, dirigindo-se  jovem.
- Claro! Trs... e o maior, tambm.
- Impossvel! No seria capaz de tir-lo da gua.
- O patro ajudou-me. Foi cmico! Aquele maldito peixe quase me levava atrs dele. Tive de gritar pelo senhor Brite... que s me auxiliou quando me viu quase a cair 
 gua!
- Gosta de pescar?
- Muito! Nunca ningum me levara  pesca. Tenho perdido muitas coisas boas da vida, mas, agora, hei-de desforrar-me...

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Texas Joe abanou a cabea, como se acabasse de ouvir uma verdade fatal e inevitvel.
- Quando se viu uma rapariga feita pescadora? Diabos me levem, Reddie Bayne, se voc no  a minha perdio! Gosto do entretenimento que mais aprecio: sentar-me 
 sombra, esperar que o peixe pique, ouvir cantar os pssaros, admirar a Natureza, espreitar os peixinhos e... e...
- Oh, senhor Brite, o nosso Texas Jack  um poeta!
- exclamou Reddie, trocista.
Por um momento, dir-se-ia terem cessado as hostilidades entre ambos, dado o modo como se fitavam mutuamente. O velhote notou, mesmo, enquanto a rapariga corava:
- Julguei, Texas, que tinhas conseguido que ela deixasse de chamar-te Jack...
- Tambm eu, patro, mas estou a ver que me enganei
- redarguiu o interpelado, no deixando  jovem dvidas sobre o significado das sUES palavras.
De qualquer maneira, estavam terminadas as trguas.
Quase no fim do jantar aproximaram-se do acampamento dois desconhecidos, a quem Texas cumprimentou e que provaram ser caadores de peles estacionados em Bolvar.
- Estivemos a ver a vossa manada - disse o mais alto, indubitavelmente texano - e queremos dizer-lhes que o gado de Hite tem dois ferros dos vossos.
- Isso no  novidade para ns. mas sempre agradecemos a informao. Foi assim... - e Texas contou-lhes a travessia do Colorado e a perda de metade da manada.
- Visto isso,  intil acrescentar o que quer que seja acerca de Hite? - perguntou o homem, em tom seco.
- Claro!
- Ainda bem. Agora, quero explicar-lhes por que  que o Pete e eu viemos ter convosco. Precisamos de deslocar-nos para algures entre Little Wichita e o Rio Vermelho,

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onde nos disseram haver perto de um milho de bfalos, e gostaramos de ir com vocs...
Texas voltou-se para o patro, interrogando-o com o olhar.
- Isso  com o Shipman - declarou Brite. - Ns temos, de facto, trabalho para mais gente.
- Bem, eu gostaria, na verdade, de aceit-los, mas no os conheo... - confessou o capataz, francamente. - Como havemos de saber se no esto feitos com o Hite ou 
se no trabalham por vossa conta, em qualquer marosca?
-  difcil provarmos a nossa boa f, concordo... mas vocs tm armas - respondeu o homem, soltando uma gargalhada.
- Pois temos; no entanto,. podem roub-las... Bem, esperem um bocado que eu j resolvo.
Vagarosamente, Texas ateou o fogo, de modo a iluminar por completo o rosto dos desconhecidos.
- Chegue aqui, Reddie - chamou.
- Que me quer? - inquiriu a rapariga.
- Reddie, estes dois homens querem ir connosco at Little Wichita. Se fosse capataz desta leva, o que faria?
- No tem nada mais simples para perguntar-me? - protestou a jovem, que, no entanto, se aproximou mais, como se avaliasse a importncia do que se lhe pedia.
- Minha senhora... - cumprimentou um deles, enquanto ela lhe lanava o olhar mais perscrutador de que jamais devia ter sido alvo. - Conhece os texanos, s de olhar 
para eles?...
O outro tirou o chapu de abas largas e fez uma polida vnia  moda do Sul, mostrando o rosto vermelho e alegre.
- Boas noites, "miss". Tenho a certeza de que, se estiver na sua mo a nossa sorte, ela no poder ser melhor...

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- Texas, j vi bastantes homens maus e nenhum me enganou  primeira vista... Se fosse o capataz, teria muito prazer em aceitar estes homens.
- Sou da mesma opinio - resmungou Joe. - S queria ver o que voc dizia.
- O que trazem convosco ? - indagou Brite.
- Dois vages, oito cavalos, e algumas peles, mantimentos e uma caixa de munies.
- Essa caixa vem a propsito... Segundo me disse o meu capataz, o vosso pessoal era composto por seis homens...
-  verdade, mas o Pete e eu queremos levantar as nossas peles e separarmo-nos deles.
- Est bem, sejam bem-vindos. Estejam aqui ao romper do dia. Os vossos nomes?
- O meu amigo chama-se Smiling Pete e eu Hash Williams. Boas noites e obrigado por nos deixarem seguir convosco. At amanh.
Depois deles partirem, alguns vaqueiros emitiram a sua opinio a respeito dos dois homens, mas Pan Handle arrumou o assunto, dizendo que, naquela noite, no teria 
medo de dormir desarmado. A guarda rendeu cedo e, pela primeira vez desde a partida da leva, Brite, Reddie e Texas ficaram no acampamento. Pela primeira vez, tambm, 
Texas no se afastou do lume, com ar bem disposto. Discutiu com Brite a proximidade de Hite e a certeza que tinha de, antes de alcanarem o Canadiano, recuperarem 
o gado. No entanto, quando a conversa derivou para as recentes depredaes dos ndios, Reddie ops-se, energicamente:

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- No podero falar de outra coisa? Sempre tive horror de ser escalpada!
- Sim, garota, os seus caracis vermelhos chamariam, decerto, a ateno de um Comanche, mas no para escalpar...
- contraps Texas. - Talvez se limitasse a faz-la cativa, para a transformarem numa "squaw"...
- Numa "squaw" morta - protestou a jovem, estremecendo.
- Bem, patro, mudemos de assunto. Vamos ter festa, quando chegarmos a Dodge, no?
- Talvez... mas de que espcie?
- Diabos me levem se eu sei! Contudo, ter de arranjar isso antes de nos pagar, pois, de contrrio, estaremos todos bbados.
- Mas, por que se embebedam vocs? - perguntou Reddie, com vivo desgosto.
- Tambm costumo fazer essa pergunta a mim mesmo, muitas vezes, pois no me embriago por gosto; no entanto, depois de longa permanncia na pradaria, especialmente, 
numa destas terrveis levas, confesso que  um alvio cair de bbado!
- Se tivesse uma mulher  sua espera fazia o mesmo?
- Uma mulher! - exclamou Texas, apatetado. - J lhe disse, Reddie Bayne, que nunca me meti com esse gnero de mulheres, mesmo bbado.
- No me referia essas mulheres pintadas, das casas de dana, de que o senhor Brite me falou, mas a... a uma mulher... decente.
- Ah! Por exemplo?... - inquiriu Texas, atiando as brasas com um pau.
- Por exemplo... como eu.
- Valha-me Deus! No consigo imaginar uma rapariga encantadora como voc a interessar-se por mim.
- No  capaz de responder a uma pergunta decente sem essas observaes?
- Sou! Se eu tivesse uma mulher como diz, no a desgostava, embebedando-me.
Seguiu-se um silncio, que Brite preencheu fumando,

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com ar resignado, pois compreendera que os dois jovens se haviam quase esquecido da sua presena. Estava certo de que, no obstante a antipatia que mutuamente se 
demonstravam, mais tarde ou mais cedo cairiam nos braos um do outro, o que a ele, Brite, daria grande satisfao. Todavia, desconfiava que, para castig-la da sua 
anterior recusa, Joe se empenharia em obrigar a jovem a dar o primeiro passo.
- Obrigada, Tex - disse ela, por fim. - J calculava que a sua resposta fosse essa.
A expresso do rapaz revelava bem que ficara satisfeito com o elogio; contudo, limitou-se a dizer:
- Demnio! Terei ouvido mal ou Reddie Bayne teve umas palavras amveis a meu respeito?...
- Tex, faltam apenas trs horas para entrarmos de guarda - lembrou o velho.
- Tem razo! Vou deitar-me e aqui mesmo! Juntando o gesto  palavra, o rapaz desenrolou a cama
ao p da fogueira, deitou-se, cobriu-se de forma que as botas e as esporas ficassem de fora, e adormeceu quase no mesmo instante.
Reddie esteve a olh-lo durante muito tempo e, por fim, murmurou, sacudindo a cabea anelada:
- No h esperana... Pap, importa-se de levar a minha cama?
-  j! - respondeu o velho, com alacridade, comeando a transportar cobertores para debaixo das rvores.
- Juntas, pap - pediu a jovem. - Embora eu use calas masculinas e armas, sinto-me cada vez mais estranha e fraca por dentro. Sinto-me... assustada.
- D-se o mesmo comigo, querida. No sei porqu, mas trago uns pressentimentos bem tristes...
-  uma sorte inestimvel termos o Texas e o Pan Handle connosco - tornou Reddie, fazendo a cama to perto de Brite que bastaria estender o brao para tocar-lhe.

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Na manh seguinte, duas horas aps o incio da jornada, uma nuvem de poeira, turbilhonando entre o gado, espantou-o, felizmente em direco ao Norte. Os guias nada 
mais puderam fazer do que cavalgar ao lado dos animais, procurando mant-los unidos. S ao fim de dez milhas ou mais conseguiram abrandar o andamento. Era a primeira 
vez que tal acontecia, naquela leva, mas tinha os seus perigos, porque dava  manada predisposio para se espantar mais vezes.
Quando Texas se encaminhou para o vago j o dia estava prestes a chegar ao seu termo.
Naquela noite, junto da fogueira, os guias relataram o que haviam observado. San Sabe vira colunas de fumo elevarem-se de trs de uns cabeos situados a Oeste; Ackerman 
e Little tinham avistado bfalos, ao longe; Brite notara que toda a caa por que haviam passado se mostrara arisca; Reddie descobrira alguns cavalos selvagens, e 
Pan Handle afirmava que localizara um acampamento, muito ao longe, na margem de um lago arborizado.
Texas Joe, porm, parecia no ter nada a relatar, e Reddie interpelou-o:
- Eh, "Olho de Falco", que diabo de chefe  voc que no foi capaz de ver nada?!
- No queria dizer... desagrada-me faz-lo... mas hoje vi dois grupos de peles-vermelhas.
- Impossvel! - gritaram todos, erguendo-se.
- Antes fosse. De ambas as vezes eu ia  frente e era, portanto, o primeiro a chegar ao topo dos cabeos... O terreno est a tornar-se agreste... Estamos a aproximar-nos 
dos Montes Wichita... Confesso que tive de afirmar-me bem, porque duvidava, mas tenho a certeza de que vi dois grupos de ndios,  distncia de duas milhas um do 
outro.

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Estou certo de que nos espiavam, pois afastaram-se rapidamente.
- Comanches! - exclamou a rapariga, aterrada.
- No sei, pequena, mas que diferena faz? Comanches, Kiowas, Apaches, Cheyennes, Arapahoes,  tudo o mesmo!
- Enganas-te, Tex. No me importava de encontrar os outros todos, se com isso pudesse evitar os Comanches - contradisse um dos rapazes.
- Homens, mas no h nada de extraordinrio no facto de comearem a surgir ndios! - observou Pan Handle, friamente. -  natural que, doravante, encontremos peles-vermelhas 
todos os dias, que sejamos procurados por eles... Isso no significa, em absoluto, que nos venham molestar.
Smiling Pete e Hash Williams ouviram em silncio, por no estarem ainda suficientemente integrados no grupo. Contudo, quando os interrogaram, foram prontos no relato 
das suas observaes, desvanecendo assim de uma vez para sempre, qualquer preveno que Brite pudesse ter a seu respeito. Ambos haviam visto cavaleiros ndios a 
to curta distncia que sem dificuldade os puderam reconhecer como Comanches.
Mais tarde todos concordaram que os dois caadores tinham sido uma valiosa aquisio. Por seu conselho, Texas mandou colocar os cavalos de reserva prximo do acampamento 
e com forte guarda, a fim de obstar a que os ndios, conforme era seu hbito, tentassem apoderar-se de alguns. Tratava-se, com efeito, de uma medida acreditada, 
porquanto os peles-vermelhas raramente roubavam gado, excepto se precisavam de carne e algum novilho lhes agradava.
Naquela noite ningum dormiu mais de duas horas. A manada foi posta a caminho ao alvorecer e, durante o dia, pouco avanou, devido  natureza do terreno, agreste 
e escarpado. Comearam a aparecer bfalos por todos os lados, e os lobos e os coiotes espreitavam por entre os penhascos, to numerosos que mal podiam ser contados.

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A presena destes animais, em tal abundncia, atestava, s por si, a proximidade de importantes quantidades de bfalos. Durante a noite, as feras encheram a pradaria 
com os seus uivos e lamentos. Os coiotes chegaram ao ponto de se aventurarem a entrar no acampamento, e alguns mais ousados, sentaram-se junto do lume, uivando, 
at os enxotarem. Todavia, a noite decorreu sem novidade.

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Captulo X


Cada dia de viagem aumentava a incerteza e os receios dos guias. Rastos de cavalos ndios; cinzas de antigas fogueiras de acampamentos abandonados, nas margens de 
pequenas lagoas; sinais de fumo no alto dos outeiros; peles-vermelhas seminus, desaparecendo  distncia, como espectros - mantiveram os homens de Brite vigilantes 
e preocupados, durante toda a viagem para Little Wichita.
Geralmente, o rio, ali, era pouco caudaloso e, portanto, fcil de atravessar; mas, naquela ocasio, a enxurrada tornara-o intransponvel, enquanto o caudal no diminusse, 
o que podia demorar um dia ou, talvez, mais. Os homens consultaram-se e resolveram procurar um stio abrigado para acamparem, onde houvesse erva para o gado e rvores 
para se protegerem, em caso de ataque.
Os guias que os precediam - certamente os que conduziam o gado roubado por Ross Hite - tambm no deviam ter passado; o mais natural  que tivessem seguido rio acima, 
com a mesma inteno de Texas Joe. Espalhados pelas margens e ao longo das encostas arrelvadas viam-se grupos de bfalos.
Texas mandou San Sabe rio abaixo, em misso de reconhecimento, enquanto ele seguia em direco oposta, com o mesmo fim, deixando os restantes homens de guarda  
manada.
Aproximava-se o meio-dia. No vale onde haviam acampado sentiam-se os efeitos do calor e da humidade. Os homens repousavam, aps tantos dias de dura jornada; naquele 
momento,

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nada mais podiam fazer do que ficarem de olhos abertos, vigiando com ateno as orlas arborizadas que os cercavam. Depois de muito procurarem, tinham escolhido aquele 
stio para acamparem, embora fosse melhor para o gado do que para os homens, que ficavam ao alcance dos tiros que disparassem do cimo dos cabeos. Tiveram, porm, 
de resignar-se.
Smiling Pete e Hash Williams resolveram amarinhar pela encosta, para, encobertos com a ramaria, explorarem as redondezas. Todos os guias tinham preparado as carabinas, 
que traziam atravessadas nas selas, e aguardavam os acontecimentos, prontos para qualquer eventualidade.
Reddie avisou Brite da aproximao de um cavalo a galope e aquele fez sinal ao guia mais prximo, que se ps  escuta. A jovem no se enganara, pois, a breve trecho, 
o prprio Brite ouviu o estropear de cascos no caminho acidentado. Devia ser San Sabe, de regresso, porque o barulho vinha do lado de baixo do rio. No mesmo instante, 
ouviram-se tiros, na encosta que os caadores tinham ido explorar, e Pan Handle e Ackerman, juntamente com os outros guias, galoparam para o bosque, onde Brite e 
Reddie se encontravam.
-  o San Sabe - murmurou a jovem, apontando. - Veja como ele galopa!
- Apostava que vm ndios atrs dele! Precisamos de nos abrigar bem!
- ndios! - avisou, arquejante, o vaqueiro, ao chegar junto deles, ao mesmo tempo que o grupo composto por Pan Handle e pelos outros homens. - Mas no me viram. 
Ouviram o tiroteio?
Ningum ouvira nada. San Sabe explicou:
-  ali em baixo, para l daquela curva, mais longe
do que supunha... Ia a avanar, quando ouvi tiros e gritos.
Escondi o cavalo e segui a p, at um stio onde me pareceu

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que deviam ter atravessado o rio a vau, pois a areia estava molhada e revolvida. Eram cavalos ndios. Segui-lhes o rasto e descobri-os, numa clareira. Ouvi mais 
tiros e gritos selvagens e, como o arvoredo era muito cerrado, fui avanando, para ver de que se tratava. Uns viajantes estavam acampados num stio sombrio, sem 
dvida  espera que o rio baixasse, para o atravessarem... Vi trs carros e alguns homens atrs deles, fazendo fogo, e setas a voarem por todos os lados. No esperei 
por mais nada e vim avis-los.
- Temos de ir socorr-los, Brite - disse Pan Handle.
- Com certeza. Olhem, ouamos a opinio dos caadores, que a vm, enquanto esperamos pelo Texas.
Os dois homens confirmaram, em poucas palavras, a histria de San Sabe, e Brite relatou-lhes o que ele vira.
- Quantos cavalos eram? - perguntou Hash Williams.
- No mais de vinte... talvez menos, at.
- A que distncia?
- Uma meia milha para l da curva.
- Desmonta, San, e traa-nos um mapa, na areia.
San Sabe obedeceu: pegou num galho e comeou a fazer riscos, sob os olhares interessados dos outros.
- Deve vir a o Texas - observou Brite, ouvindo aproximar-se um cavalo.
- Aqui  a curva - prosseguiu San Sabe - e os cavalos esto aqui, cerca de meia milha mais longe. Uma rvore seca, com as folhas esbranquiadas, servir-nos- de 
referncia. Podemos arriscar-nos a galopar at esta distncia... Aqui fica a clareira de onde os peles-vermelhas seguiram para a floresta.  plana e tem uma grande 
fraga, semelhante a uma cabea de guia, na orla. Os carros dos brancos no esto a mais de um quarto de milha, no meio de um bosque rodeado de encostas arborizadas 
por trs lados. Os ndios esto aqui, num stio abrigado.

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- Arranjem dois cavalos, um para mim e outro para o Pete, mas no percam tempo a sel-los! - pediu Williams.
- Que conferncia  esta? - perguntou Texas Joe, aproximando-se por detrs dele, com as rdeas numa das mos e a carabina na outra.
Depois de San Sabe contar, mais uma vez, o que observara, Hash Williams acrescentou:
- Suponho que devemos ir em seu auxlio...
- Claro! Tm algum plano? Vocs esto habituados aos peles-vermelhas.
- Vamos preparar-lhes uma emboscada, assim que tivermos os cavalos! Mas  preciso apressarem-se, para no chegarmos tarde.
San Sabe afastou-se a meio galope, seguido pelos guias, e Tex ficou  espera que os dois caadores montassem, indo depois juntar-se aos outros.
Apesar de toda a sua excitao, Brite no se esquecia de Reddie, que estava plida, mais pelo mistrio da aventura do que pelo medo na retaguarda, e depois San Sabe 
desmontou e conduziu-os para a floresta, situada  direita da Pista. Brite e Bender chegaram a tempo de ver Reddie seguir Texas, por entre o arvoredo, aps haverem 
prendido os cavalos a diversos troncos. Os tiros e os gritos selvagens e sincopados dos ndios ouviam-se cada vez com maior nitidez.
- Comanches! - esclareceu Williams, carrancudo.
- Os cavalos deles! - avisou San Sabe, passado um momento.
- Menos de vinte. Vai ser canja, rapazes! - exclamou o caador, percorrendo com os olhos os animais inquietos, a margem do rio, a encosta arborizada e, por fim, 
a orla escarpada e a sua fraga proeminente, como uma sentinela.
- Shipman, fique aqui com o Pete e escolha cinco homens para irem comigo - pediu Williams, aps longa reflexo.

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- Qual  a sua ideia? - perguntou Texas, cujos olhos penetrantes observavam, tambm, tudo.
- Se conseguirmos trepar at l acima, aqueles diabos esto prontos! A maior parte s tem arcos e setas, e devem estar agachados sob as rvores, pela encosta abaixo... 
admira-me ouvir to poucos tiros! Oxal no seja tarde demais! Bem, vamos ao que interessa.  natural que corram para os cavalos, quando os atacarmos. Nessa altura 
vocs,
aqui escondidos...
- Ah, compreendo! Vou ver onde poderemos abrigar-nos bem, a uns cinquenta ps dos cavalos... Combinado! Leve o San Sabe, o Ackerman, o Whittaker e o Little.
- Tirem as esporas e sigam-me, sem fazerem barulho!
Depois de os cinco desaparecerem, Texas observou cuidadosamente a clareira onde estavam os cavalos e, afastando-se sob a ramaria, ordenou, num sussurro:
- Venham, sem barulho!
Holden foi atrs dele, seguido de Smiling Pete, Bender e Pan Handle, e, finalmente, Brite e Reddie. De vez em quando, ouviam-se os gritos dos selvagens e um ou outro 
tiro, em resposta. Texas conduziu-os para um lugar um pouco mais elevado, na base da encosta e no extremo da clareira, onde diversos fragmentos de rocha e arvoredo 
espesso lhes proporcionaria um refgio ideal.
- C estamos! - murmurou o capataz. - No podamos arranjar melhor. Vamos fazer esses malvados ver o diabo! Vo andando ao longo desse parapeito e parem onde possam 
observar tudo,  vossa frente. Deixem-se ficar o mais quietos possvel e esperem que eu mande atacar.
Brite procurou um stio onde Reddie ficasse bem protegida e acabou por coloc-la entre ele e Texas, atrs de um rochedo comprido e baixo, sobre o qual pendiam ramos 
de rvore. Pan Handle, o nico que no trazia carabina, ajoelhou-se longe deles, com uma pistola em cada mo,

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enquanto Pete Smiling se esforava por manter Bender sossegado, pois o rapaz estava excitadssimo. Holden escolheu tambm uma posio excelente.
- Tudo a postos. Agora  s esperar que venham - murmurou Texas. - Oxal os outros tenham chegado a tempo... Ouo menos tiros do que desejaria.
- Ou ainda no comeou ou j est quase a acabar
- concordou Pan Handle. - De qualquer maneira, no podamos fazer mais nada. No te esqueas da Reddie, Tex.
- Diabos me levem, mas tinha-me esquecido dela! Ento, garota, como vai isso?
- Vai bem!
- Assustada ?
- Sim, mas fique descansado; estarei pronta quando for preciso.
- Espero que, pelo menos uma vez na vida, faa o que lhe mandar...
- Farei, no se preocupe.
- ptimo! Agora baixem-se todos e estejam alerta. No era a primeira vez que Brite se via envolvido em
escaramuas com os ndios, mas nunca, em tais ocasies, tivera de contar com a vida de uma mulher. E isso inquietava-o e preocupava-o. Para se acalmar, dizia para 
consigo que talvez entre os viajantes atacados tambm estivessem mulheres, as quais, sim, corriam terrvel perigo!
Que aspecto bravio e enraivecido tinham os cavalos deixados pelos ndios na clareira! No tendo mais do que os cabrestos, esticavam-nos e torciam-nos a cada tiro, 
e alguns, colocados bem de frente para o stio onde os homens de Brite se haviam emboscado, tinham j notado a sua presena e erguiam a cabea, com as orelhas erectas 
e as narinas palpitantes.
- Cheira-me a fumo, mas no de plvora - sussurrou Texas. - Que lhe parece, Pete?

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- Talvez seja da fogueira do acampamento.
De sbito, d versos tiros simultneos quebraram o silncio - primeiro rpidos, depois mais espaados e, por fim, desordenados. Texas meneou a cabea, gelado, ao 
ouvir o terrvel grito de guerra dos Comanches. Brite j ouvira falar muitas vezes desse grito, mas nunca imaginara que pudesse ser to penetrante e horrvel.
- Esto a acertar nos carros! - exclamou Pete, arquejante. - O Williams no os deve ter localizado.
- Pode localiz-los agora - disse Texas.
Com os olhos muito abertos e o rosto lvido, Reddie estava deitada no cho, apoiada nos cotovelos, entre os quais tinha a carabina.
- Parece que est mau para eles, Reddie - observou
Brite.
- Para os nossos homens?
- No, para quem est encurralado l em baixo.
- Oh, que gritos pavorosos!
- J no se ouvem tiros de carabina - murmurou Pete, tristemente. - Parece-me que chegmos ao fim do massacre. Mais uma vitria para os malditos Comanches! Mas h-de 
chegar a nossa vez; o Williams no deve tardar!
Como que em resposta, uma revoada de tiros abafou os gritos dos selvagens.
- Ouam, ouam! Meu Deus, oxal cheguem a tempo! Agora, abaixem-se o mais que puderem e abram os olhos! Falta pouco para ser a nossa vez! Os Comanches no tardam 
a, com os feridos, porque os mortos no se detero a recolher, debaixo de fogo.
O tiroteio, porm, cessou to bruscamente como comeara, e gritos angustiosos de brancos substituram o grito de guerra dos ndios.
- Ouo-os correr - murmurou Reddie.

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- A vm! - avisou o caador, em voz baixa. - Esperem agora... esperem... tenham pacincia... deixem-nos estar em campo aberto!
Passos apressados, restolhada de folhas e estalar de ramos, confirmaram as afirmaes de Reddie e do caador.
- Aponta bem, filha - aconselhou Brite, engatilhando a carabina. - Tens de mostrar o que vales!
- Hei-de matar um! - afirmou a jovem, abrindo mais os olhos e engatilhando tambm a sua arma, ao mesmo tempo que erguia a cabea sobre o parapeito rochoso.
- No se esquea de baixar sempre a cabea, depois de disparar, ouviu, Reddie? - recomendou Tex, que parecia ter olhos na nuca. - J os vejo. Pan!
- E eu tambm, na floresta. Trazem os feridos. No atirem enquanto no aparecerem todos!
Brite olhou para o lado oposto da clareira e para as sombras que avanavam sob as rvores, pronto a disparar. Os da frente, quais fantasmas escanzelados, passavam 
de rvore para rvore, escondendo se e olhando para trs. De uma vez, quatro ou cinco estiveram bem  vista, mas desapareceram logo a seguir. Passos rpidos e suaves, 
como os das panteras, escutavam-se agora mais perto. Brite lobrigou um selvagem nu, com o rosto inclinado sobre o ombro e os longos cabelos negros, ondulando a cada 
movimento. Reddie tambm o viu e soltou uma exclamao abafada. Foram surgindo outros ndios. S dois traziam carabinas; os restantes estavam armados de arcos, mas 
no se viam flechas. Aproximavam-se dos cavalos, olhando sempre para trs, fazendo sinais e soltando palavras roucas e guturais. Momentos depois, quando j diversos 
tinham montado, surgiram quatro ou cinco pares, amparando guerreiros feridos. De repente, um deles soltou um grito agudo, sinal de que qualquer coisa lhe denunciara 
a presena de estranhos.

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No mesmo instante, Reddie disparou sobre o comanche mais prximo, que vinha a olhar para trs, no meio da clareira. O homem recuou, cambaleante, com uma pavorosa 
mscara de morte estampada no rosto pintado, e acabou por cair para sempre. Todos os guias comearam, ento, a disparar. Brite atirou por terra o primeiro que visou 
e, depois, escolheu outro alvo, entre os guerreiros que caam e se levantavam. Pelo canto do olho via Pan Handle estender uma pistola e disparar, e, seguidamente, 
repetir o gesto com a outra mo, alternada e incansavelmente. Disparava com rapidez, mas com marca certa, e no havia dvida de que todas as suas balas atingiam 
o destinatrio previamente escolhido. Os cavalos, feridos e amedrontados, rebentavam os cabrestos e fugiam em todas as direces. A pouco e pouco, o tiroteio foi-se 
espaando e acabou por dar lugar a um silncio pesado e angustioso.
- Parece-me que j esto - rouquejou Texas, soltando uma gargalhada. - Todos por terra e a maior parte morta.
- O primeiro que gritou escapou-se - disse Pete. - Falhou-me e no voltei a v-lo. Acabmos com eles num instante! Pelo meu lado s furei um... Vocs devem ser grandes 
atiradores...
- Um conheo eu!
- Vamos "despachar" os feridos - props Pete, afastando-se.
Texas e Pan Handle acompanharam-no, assim como Bender e Holden. Brite seguiu Reddie, que parecia querer ir tambm.
- Fica aqui, pequena. Para ns, est tudo acabado. Agora vai ser pavoroso.
- Oh! - gritou Reddie, afastando a carabina e encostando-se  rocha, trmula como uma folha batida pelo vento.
- Orgulho-me do teu comportamento, Reddie! - balbuciou Brite,

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batendo-lhe suavemente no ombro. - No desanimes, agora.
- Oua! Oh!  horrvel!
Os guias esmagavam a cabea aos comanches feridos, acompanhando cada coronhada de exclamaes ferozes. Brite olhou para o lado dos carros, pois ouvira gritos e a 
voz dos seus homens.
- Vamo-nos daqui, filha. No tenhas medo que no nos aproximaremos daquele aougue.
A jovem seguiu-o at  clareira, onde uma coluna de fumo comeava a desfazer-se, mostrando a primeira vtima da emboscada: o comanche que Reddie alvejara.
Texas foi ao encontro deles, de cabea descoberta e cabelos desgrenhados, e parou junto do morto.
- O patro no acertou neste pssaro.
- Garanto-te que acertei!
- Isso tambm eu queria! Foi a Reddie quem o furou! Caramba, mesmo ao meio! - Aproximou-se mais, com os olhos duros fitos na rapariga: - Voc teve pressa de comear 
a batalha!
- No fui capaz de conter-me, Texas; tive de disparar!
- Permita-me que a felicite, pois , realmente, a digna filha de um pioneiro texano!
- Eu... eu... sinto-me assassina, mas no me arrependo! Eles pareciam lobos sedentos de sangue!
- Sabe o que lhe digo, patro? Se conseguisse ter um rancho meu, antes de ser velho, gostaria de arranjar uma mulher desta tmpera! - concluiu, satrico e lisongeiro.
- Vm a o Williams e os outros!
O caador aproximava-se, de facto, velozmente, apesar de fatigado.
- S se safou um! - gritou-lhe Pete Smiling. - Atirmos certo e rpido.

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- ptimo! Ns, porm, chegmos tarde - respondeu o outro. - Venham connosco.
Texas correu ao encontro de Williams, que retrocedera com os outros, e Brite e Reddie foram tambm. A floresta clareava a pouco e pouco, at desembocar num pequeno 
parque onde os brancos haviam acampado. Os trs carros estavam dispostos de maneira a formar um tringulo abrigado, e tinham as rodas barricadas com fardos e camas. 
As flechas abundavam por todos os lados, num significado bem triste. A primeira coisa que lhes saltou aos olhos foi um homem cado, de cara para o cho, meio escalpado 
e com uma flecha cravada nas Costas.
- Viemos o mais depressa que pudemos - ia explicando Williams - mas era muito tarde. Chegmos no fim.
Brite seguiu os caadores, pedindo a Reddie que ficasse para trs. Vira cenas bem pavorosas, no decorrer da sua longa vida, mas nenhuma o impressionara tanto como 
aquela. Williams arrastou para fora dos carros dois homens mortos e um ainda vivo, que devia ter sido atingido por um tiro, pois no se via nenhuma flecha.
Rasgaram-lhe a camisa e puseram a descoberto uma ferida profunda, na parte superior do trax. A bala entrara por um lado e sara por outro.
- Aposto que este escapa! - afirmou Williams. - Um de vocs ate um pano, com fora, sobre o buraco, passando-o por debaixo do brao. Procurem bem, rapazes. A batalha 
deve ter sido longa, pois, como vem, o sangue da ferida deste homem coagulou.
- Vi uma rapariga quando comemos a atirar sobre eles - informou Ackerman, a transpirar. - Iam dois peles-vermelhas atrs dela. Feri um, mas o outro escondeu-se 
no arvoredo.

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- Est aqui uma mulher morta - anunciou Texas, detrs do terceiro carro.
Correram todos para ver, e Brite estremeceu de horror: do vago pendia uma mulher meio despida, escalpada e coberta de sangue,
- No  a mesma! - afirmou Deuce. - Acreditem, rapazes! A outra tinha cabelos claros e vestia uma saia de xadrez.
- Vo  procura dela - ordenou Texas Joe.
- Trs homens e uma mulher mortos, com este que ainda vive, cinco - contou Williams - e com a rapariga que o vaqueiro jura ter visto, seis. Pode ser que haja mais. 
Quando camos em cima dos ndios talvez tenham fugido alguns.
Deuce Ackerman procurava por todos os lados, gritando :
- Aparea, menina; est salva!
Mas no a encontrava em parte nenhuma. Deuce correu para a margem do rio, que os salgueiros cobriam totalmente e chamou de novo. De sbito, soltou um grito e desapareceu, 
a correr, para voltar pouco depois amparando uma rapariga loura. Todos correram ao seu encontro, incluindo Reddie.
- No tenha medo, menina! - dizia Ackerman. - Somos amigos; matmos os ndios. No tenha medo!
Conduziu-a para junto de um tronco, onde ela se sentou com a cabea encostada ao ombro dele. Devia ter dezasseis anos e fitava-os cheia de pavor.
- Est ferida? - perguntou Williams, solcito.
- No sei... creio... que no - titubeou.
- Quantos eram vocs?
- Seis.

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- Est um homem vivo, que creio se salvar. Tem barba
preta...
- Meu pai! Oh, graas, meu Deus!
- Como se chama?
- Ann Hardy. Meu pai ... John Hardy. amos para Forte Still, apanhar o comboio... Os ndios j nos tinham atacado, h dias... mas depois deixaram-nos... Tivemos 
de parar, por causa da cheia... e voltaram hoje.
- A mulher era sua me?
- No, no era.
- Acabou-se, ento.  melhor no perder tempo e levarmos esta menina e o pai para o nosso acampamento - sugeriu Williams. - Vo alguns com ela. Eu ficarei com Pete 
e mais trs. Faremos o que pudermos para transportarmos o Hardy e, se tudo correr bem, voltaremos para enterrar os mortos e tratar destas coisas.
- Levo-a no meu cavalo - ofereceu Ackerman. - Venha, "miss" Hardy, segure-se a mim.
- Salvou-me a vida! - murmurou ela, comovida. - Estava prestes a deitar-me ao rio...
- Tudo est bem quando acaba bem! - sentenciou o rapaz, rindo, nervoso. - A menina e seu pai tiveram sorte, acredite! Sabe que temos outra rapariga connosco? Chama-se 
Reddie Bayne e... Olhe, c est ela!
- Oh, pobre querida! - lamentou Reddie, abraando-a. - Connosco estar em segurana: temos bons atiradores, como o Texas Jack, o Pan Handle Smith... e aqui o Deuce 
Ackerman. Todos maus homens, minha amiga, mas que sabe bem ter ao p de ns quando aparecem ladres ou peles-vermelhas!
Deuce e Reddie acompanharam a rapariga, assim como Brite, Texas Joe e os guias que no ficaram com Williams. O capataz

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e Holden foram buscar os cavalos, e Deuce sentou a rapariga na sela e montou atrs dela. Poucos minutos depois alcanavam um bosque familiar, mas que Brite nem reconheceu.
- Eu seja... - vociferou Texas, parando e soltando tremenda praga.
- Que se passa, Tex?
- Olhe  sua volta, patro! O acampamento  aqui; este  o nosso vago; mas onde est o Moze, onde esto os cavalos, onde est o gado?!
- Foram-se! - gritou Reddie.

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Captulo XI


Brite coava o queixo barbudo, apatetado. As suas duas mil cabeas de gado - menos de metade da manada com que iniciara a leva - haviam-se sumido como que por magia!
- No estou surpreendido, no fim de contas - resmungou Texas. - H bocado, quando regressei de observar os arredores e ouvi o San Sabe contar que vira ndios, nem 
tive tempo de lhes dizer que descobri o Ross Hite e a outra metade da manada!
- Maldio! - trovejou Brite. - Teriam tido o descaramento de roubar-nos a outra metade, mesmo nas nossas barbas?
- Talvez no... Os touros so bichos esquisitos; podem-se ter espantado e fugido...
- Mas o Moze, onde se meteu ?
- Eh, preto duma figa! - berrou Texas.
- No sou surdo, capataz! - responderam-lhe, do alto de uma rvore. - Estou aqui!
Pouco depois ouviram os seus ps enterrarem-se na erva fofa e o negro apareceu, correndo.
- O nosso gado, Moze?
- No sei, "si". Assim que se foram embora, vi uns cavaleiros aproximarem-se... e este "nego" amarinhou pela rvore acima! No tardou que os visse bem perto, com 
aquele comprido do Hite no meio deles... Puseram-se atrs do gado e levaram-no... S se esqueceram dos cavalos!

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- Pronto, patro, acabaram-se os trabalhos! - rosnou Texas. - Assim que o resto do pessoal chegar veremos o que se pode fazer.
- Temos uma visita, Moze! - anunciou Ackerman, saltando para o cho e ajudando a jovem a desmontar. - Os ndios mataram toda a gente que a acompanhava, menos o pai.
- Acende o lume, Moze - ordenou Texas. - Aquece gua e prepara ligaduras novas; deve estar a chegar um ferido.
- Meu Deus, esta Pista est o diabo de quente! - exclamou Moze, revirando os olhos.
Deuce desenrolou uma cama para a jovem e, com a ajuda de Reddie, instalou-a  sombra. Sem saber porqu, ao olh-lo, Brite pensou o mesmo que Reddie pensara j: o 
valente vaqueiro do Uvalde fora ferido no corao por qualquer coisa diferente de uma bala!
O caso no era para menos: a rapariga era linda, agora que a palidez lhe fugia das faces e o pavor do olhar. De mediana estatura, era delgada e forte, e de formas 
bem torneadas. Reddie sentou-se a seu lado e pegou-lhe na mo, enquanto Deuce a fitava embevecido.
- Feche os olhos e no pense! - aconselhou-a Reddie. - Deixe esse trabalho para os homens!
E era isso que todos faziam. Sobretudo Texas e Pan Handle, embora silenciosos, nunca tinham dado tanto trabalho aos miolos. Brite pensava, tambm, passeando de c 
para l, sob o arvoredo. No podia crer que Ross Hite fosse bem sucedido neste ltimo roubo! O ajuste de contas, que at ali fora adiado, devia agora fazer-se quanto 
antes, embora pudesse significar grave risco para as duas raparigas e para o ferido. Hesitava, sem saber se devia ou no permiti-lo, mas sabia bem que Texas e Pan 
no eram homens para consentirem que os impedissem de fazer justia.

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Os dois caadores haviam fortalecido o seu grupo e o patife do Hite, embaraado com tanto gado, metera-se num buraco
apertado!
- Deviam estar bbados! - observou Texas, de sbito.
- Quem ?
- os do Hite. A no ser que tivessem contratado mais
gente do que tinham quando o Wallen nos apareceu, meteram-se numa camisa de onze varas!
- Valer a pena ir espreit-los? - alvitrou San Sabe.
- A p, claro, e escondido.
- No. J tive a mesma ideia, mas no serve. Basta-nos a certeza de que foi ele que levou o gado e de que no poder atravessar j o rio.
- Mas que faremos?
- Diabos me levem se o sei, San! Ainda por cima temos duas raparigas e um ferido a atar-nos as mos! Talvez o Williams, que  esperto, nos d uma ideia.
Texas afastou-se, indo espreitar o caminho, e voltou pouco depois, mais satisfeito:
- Vm a! Agora vamos saber o que faremos.
O caador notara a falta do gado e perguntou, ainda de longe:
- A manada?
- Levou-a o Hite, enquanto matvamos os comanches - respondeu Texas.
- Para ele  tudo ou nada, hem? Julgava-o mais esperto!
-  melhor ou pior para ns, Williams?
- Duas vezes melhor e mais fcil! No percebo por que o tipo fez tal asneira!
- Mas que vamos fazer?
- Temos de estudar bem o caso - disse o caador, desmontando.

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- C por mim deixava-o ir, sem o perder de vista, atravs do Rio Vermelho. Ele no pode vender o gado nem fazer combinaes com os ndios, pois no levava nada deles...
Pouco depois chegavam os restantes homens, dois dos quais traziam o ferido, que, embora consciente, no podia pr-se de p. Tiraram-no da sela e conduziram-no para 
junto da filha.
- Disseram-me que a ferida no  muito grave, pap!
- exclamou a jovem.
- Tambm me disseram o mesmo, Ann... Estou bem...
- murmurou o ferido, com voz dbil.
- Tragam "whisky" e arranjem-lhe uma cama - ordenou Texas.
- Que fazemos dos carros, Brite? - perguntou Williams. - Parecia-me acertado trazermos um, assim como um carregamento de provises. Tambm por l andavam dois cavalos... 
Que diz se levarmos o Hardy e a pequena at ao armazm do Doan?
- Acho bem, claro. Mande dois homens buscar o vago e as provises. Sempre ser mais fcil atravessar os carros do que o gado.
- Amanh j poderemos passar. O rio est a baixar rapidamente. Esta noite, como ficamos aqui acampados, teremos tempo de enterrar as pobres vtimas dos comanches.
- No lhe parece que o Hite  capaz de se desviar da Pista, pensando que somos suficientemente parvos para o seguir? - perguntou Texas, ao caador.
- L ser capaz , com certeza; mas ns  que no correremos atrs dele! J que o senhor Hite foi to espertinho para roubar-nos o gado, agora que olhe por ele. Pela 
nossa parte, limitar-nos-emos a olhar por rns!
- Parece-lhe aconselhvel ir espiar,- rio acima?


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- Talvez mo. No entanto, pode mandar o Sabe. Eh, vaqueiro! Trepe pela encosta, sempre escondido, e veja se os localiza! Visto isso, parece-me melhor no mandarmos 
buscar o vago enquanto o batedor no voltar.
Pan Handle mantinha-se  parte, limpando as pistolas que brilhavam como ao polido  luz do Sol. Parecia absorto na tarefa, com as sobrancelhas franzidas e as faces 
duras e carrancudas.
Ao olh-lo, Brite disse, para consigo, que, s  sua conta, o pistoleiro devia ter mandado para O inferno mais de metade do bando comanche! De pensamento em pensamento 
chegou  concluso de que, ante homens como aquele, o futuro de um Ross Hite era bem precrio e problemtico.
Reddie e Ackerman esforavam-se por fazer Ann beber qualquer coisa, e Texas sentara-se, de cenho carregado, observando a primeira. Moze andava aodado de volta da 
fogueira, Williams e Smiling Pete ligavam o ferimento de Hardy, e os outros rapazes descansavam e cochichavam juntos, enquanto San Sabe desaparecia entre o arvoredo, 
sem fazer mais barulho do que um pssaro.
Brite sentou-se por fim, cansado da luta e da excitao. Reviu os acontecimentos do dia e, apesar de tudo, deu graas a Deus por lhes ter sido poupada a catstrofe 
que atingira os Hardy. Como se haviam tornado vulgares tais massacres! Os pobres vaqueiros que conduziam gado eram presa fcil destes bandos de salteadores selvagens. 
Recordava-se dos rumores que ouvira em Dodge, na ltima viagem, em que se afirmava que o chefe Kiowa Santana e um outro demnio impiedoso estavam ligados a um bando 
de malfeitores brancos, cuja especialidade consistia em armar ciladas a pequenas caravanas e massacrar todos os homens, mulheres e crianas, roubar provises e cavalos 
e dar
sumio aos carros, para que nem um s vestgio ficasse  testemunhar a sua passagem.

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Na ocasio, custara-lhe a acreditar em tais barbaridades; mas, agora, os acontecimentos tinham-se encarregado de abrir-lhe os olhos. Centenas de comboios cruzavam 
a plancie; milhares de guias de gado percorriam as vastas extenses do Texas, e se alguns se perdiam, de vez em quando, a tragdia mal chegava ao conhecimento da 
maioria. Agora, porm, o prprio Brite fora comparsa de um deles e j no lhe restavam dvidas: se sasse com vida daquela leva, muito teria que contar!
No entanto, como parecia pacfico aquele vale, como era buclico o cenrio! O rio a brilhar, como trigo maduro; a brisa a agitar a relva e os salgueirais; as flores 
a espreitarem pelas margens; as aves a trinarem, felizes; e, acima de tudo e mais belo do que tudo, o cu azul, muito azul, manchado de nuvens brancas, como algodo! 
Na outra margem do rio, numa alta escarpa, surgiu um bfalo enorme, que se deteve por instantes, reflectindo no cu a sua silhueta negra, magnfico de ferocidade, 
smbolo da Natureza dominante.
Passaram-se algumas horas, antes que San Sabe regressasse. Quase ao pr do Sol, Williams achou prudente que se fosse buscar o carro de Hardy, os cavalos, objectos 
pessoais e provises, e que se trouxessem para o acampamento antes de anoitecer, e resolveu ir ele prprio e mais dois homens.
Quando Moze chamou para a ceia San Sabe acabara de chegar ao alto da encosta. Soltou um grito, a fim de sosseg-los quanto  sua Segurana, facto que encheu Brite 
de jbilo,

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pois no lhe agradava nada perder mais homens. Pouco depois, o vaqueiro saa do arvoredo e aproximava-se, com o rosto moreno empastado de poeira e suor.
- O Hite leva o gado rio acima, junto numa s manada - explicou, depois de justificar por que se demorara tanto.
- A que distncia est? - perguntou Texas.
- Umas cinco milhas...
- Pudeste contar-lhe os homens?
- Vi sete com a manada e um com os cavalos. Contei tambm seis cavalos de carga.
- Viajam leves, sem vago...
- Parece-te que faro descansar j o gado?
- S Deus o sabe! Mas por que diabo se interessa ele agora por gado? Sem acidentes, perder uns dez por cento...
- H-de perder mais do que isso! - afirmou Texas, pensativo. - Que diz o patro a estarmos perto dele quando a manada atravessar o rio?...
- Agrada-me a ideia! - concordou Brite.
- Agrada-nos a todos! Vamos preparar tudo para partirmos sem demora, depois de ouvirmos a opinio do Williams.
- Tambm tenho confiana nele, Tex.
- Todos a temos;  um verdadeiro texano! At me envergonho de no o ter descoberto logo, mas o Texas Joe j no  o mesmo homem... Acabem de comer, rapazes... e 
raparigas! J me esquecia de que havia outra beldade no grupo...
Ann ouviu-o, e corou.
- No d grande importncia ao que eles dizem, Ann! - aconselhou Reddie, que se esforava por que ela comesse, tendo o cuidado de elevar bem a voz, para que todos 
ouvissem. - Isto , no lhes ligue importncia quando vierem com douras, pois,

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de contrrio, so um punhado de valentes! Ao p deles sentimo-nos em segurana! Siga o meu conselho, no consinta que nenhum ande  sua volta...
- Oh, Reddie, no est a ser leal! - protestou Deuce, ofendido.
- Bem, para ser franca, o Deuce  o que se salva! - emendou. - ao Whittaker de falinhas mansas e olhos de carneiro mal morto, no d confiana! E... o bonito tambm 
no  de fiar!
- A mim parece-me que h diversos bonitos e, por isso, no sei a qual se refere - observou a outra, maliciosa.
Todos se riram, pois, apesar de tudo quanto lhes acontecia, eram jovens e alegres. Brite riu, tambm, desconfiado que Reddie ainda no dissera quanto tinha inteno 
de dizer.
- Com certeza, Ann! Os nossos rapazes so todos jeitosos e alguns mesmo bonitos; mas eu referia-me especialmente quele diabo de ombros largos, ancas estreitas, 
cabelos castanhos, olhos cor de mbar e... perna manca.
A mincia da descrio foi premiada com grandes aclamaes, e o visado, corando como uma menina, ergueu se, tirou o chapu, e, com uma vnia exagerada, declarou:
- Agradecido, "miss" Bayne!  a primeira vez que me faz justia, nesta leva! - Depois voltou-se para Ann, com outra vnia: - Algum poder dizer-lhe, "miss", que 
o chumbo que trago na perna foi recebido quando defendia uma jovem quase to bela como a menina... e que o homem que mo atirou recebeu o meu na cabea.
Ann ficou impressionada; sem saber que dizer, Reddie baixou os olhos, desfeiteada, e os guias ficaram silenciosos. Texas ofendera-se.
Tentando salvar a situao Brite ordenou a Moze que se aprontasse e preparasse tudo para partirem a qualquer momento.

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-  melhor atrelarem a parelha e montarem guarda aos cavalos de reserva. Tex, creio que o Williams concordar que se carregue o novo carro, para que o Hardy v confortavelmente. 
A rapariga podia seguir no banco da frente. Quem quer conduzir o vago?
- Eu! - gritou Ackerman, sem dar tempo a que outro se oferecesse.
Texas Joe, porm, no concordou, frio e autoritrio, com o chapu bem puxado para os olhos:
- Desculpa, Deuce, mas quem guia o carro sou eu! Bem vs que no h manada para apontar...
- Mas, Tex, tu no s capaz de guiar uma parelha! - protestou Deuce.
- No sou capaz?!
- Tu mesmo mo disseste! Eu, pelo contrrio, tenho guiado parelhas desde mido! Alm disso no... no... ando bem, pronto! Estou todo ferido da sela... magro... e...
- Meu Deus, Deuce, precisas de um mdico! - exclamou Texas, com falsa solicitude. - Ainda no tinha reparado como ests abatido! Claro, podes guiar o vago dos Hardy!
Deuce ficou radiante e os outros olharam-no, compreendendo, por fim, as suas intenes.
- "Miss" Ann, sabe montar? - perguntou Texas, pouco depois.
- Oh, sim, gosto muito! - respondeu a jovem, com ardor. - Na realidade no fui ferida nem estou doente e o susto comea a passar...
- Excelente! Nesse caso seguiremos juntos. Tenho um esplndido ginete para si, um cavalo rabe, que veio do Uvalde.
A alegria de Deuce desvaneceu-se. O pobre rapaz estava absolutamente alheio  sinceridade e profundidade dos seus sentimentos e, por isso, nem se dava ao trabalho 
de os disfarar.

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O olhar perspicaz de Brite no tardou a descobrir outra reaco  inocente brincadeira de Texas: Reddie dava todos os sinais de estar possessa do hediondo monstro 
de olhos verdes...
- Um rabe? Oh, gostaria imenso! - declarou Ann, entusiasmada. - No entanto acho melhor ir no carro, junto de meu pai...
- Como quiser - acedeu o vaqueiro, mal humorado. Decididamente, o sexo fraco no queria nada com ele!
Embora Brite estivesse convencido de que a rapariga dissera a verdade pura e simples, viu bem que Texas ficara desconfiado de que pretendera apenas desfeite-lo 
e seguir junto do seu salvador.
Depois desta pequena disputa todos se deitaram ao trabalho, excepto Ann, que ficou a descansar, de olhos fechados, e seu pai, que permanecia imvel, como lhe haviam 
aconselhado, sofrendo com resignao. Brite estava convencido de que o homem se salvaria, pois a bala no penetrara no pulmo. A nica complicao a temer era a 
septicemia, que sobrevinha frequentemente nessas circunstncias, provocada pela penetrao na carne de algum gro de chumbo infectado. Williams, porm, era exmio 
a tratar e ligar ferimentos e os remdios que Brite trouxera, prevendo tais eventualidades, constituam preventivo seguro, uma vez empregados a tempo.
Estava o Sol a pr-se quando os vaqueiros que tinham acompanhado Williams apareceram, conduzindo dois cavalos selados e, logo a seguir, os dois caadores e o carro.
Texas no tardou a relatar-lhes a sua inteno de partir imediatamente, de maneira a estarem perto quando Hite quisesse atravessar o rio.

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- As grandes cabeas tm os mesmos pensamentos, Texas! - gracejou Williams. - Tive a mesma ideia. E o San, que novidades trouxe?
Depois de ouvir as notcias que pedira, Williams declarou:
- Excelente! Pode mandar j o Sabe e outro guia; ns
seguiremos o mais depressa possvel.
Pan Handle, Texas Joe e Smiling Pete cavalgavam  frente da caravana, seguidos por Reddie e Brite, que guiavam os cavalos de reserva, Ackerman que conduzia o carro 
dos Hardy, com Ann sentada a seu lado, Whittaker que, aps vasta argumentao e alguma zanga conseguira que lhe entregassem o terceiro vago, Moze com o carro de 
Brite e, finalmente, Hash Williams, Less Holden e Bender. Se alguma vez existira uma estrada naquela margem do rio, a manada devia t-la revolvido, pois a terra 
solta proporcionava difcil piso aos cavalos. Estava, porm, to escuro que seria difcil escolher melhor caminho.
Aps uma hora de viagem, Brite notou que as estrelas empalideciam e o cu clareava: era a Lua que surgia no horizonte; Porm, no os ajudaria ainda durante algum 
tempo, pois a escarpa que ficava do lado esquerdo ocultava-lhe a luz. Mas, pouco depois, o cimo das rochas adquiria um tom prateado, que foi descendo lentamente, 
at que a terra se tornou luminosa e o rio ganhou reflexos prateados. Agora, sim, era mais fcil a jornada! O vale estreitava-se a cada passo, chegando a parecer 
que no havia mais de um quarto de milha de terra entre o rio e a escarpa, e tornava-se, tambm, arborizado; isso, embora no constitusse obstculo para os homens, 
devia retardar o andamento do gado.
As horas passavam e a cavalgada seria muito agradvel se no fosse a ansiedade crescente que a todos dominava,

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por, a cada momento, mais se aproximarem da resoluo inevitvel que o caso pedia. A incerteza fora sempre desagradvel a Brite e a Texas, que parecia sufocar. De 
todos s, talvez, Pan Handle e os dois caadores se mantinham calmos.
Muito depois da meia-noite Texas voltou para trs, a fim de mandar parar a reserva e os carros:
- Ouvimos mugidos, l para a frente - avisou. - Parece-me que estamos perto. Que diz, Williams?
- Paremos aqui, enquanto eu e alguns de vocs vamos dar uma olhadela. Falta pouco para amanhecer e  preciso estarmos perto quando atravessarem o rio.
- Ns queremos deixar passar o gado, Hash; evitam-nos esse trabalho - atalhou Texas, enervado. - A brincadeira s principiar quando a retaguarda estiver a meio 
do rio.
- Calorzinho para os guias de trs, hem?
- Como se sente, "miss" Ann? - perguntou o capataz, ao passar pelo carro dos Hardy.
- Bem, obrigada; mas apetecia-me deitar-me.
- Arranjaste alguma cama para ela, no carro, Deuce?
- Ainda no, mas tenho um rolo de cobertores  mo. Est descansado que olharei por "miss" Ann! - afirmou o rapaz, obcecado pela sua importncia.
- Ainda bem; at logo.  conveniente que alguns de vocs fiquem de guarda, para que o patro e Reddie possam dormir.
A rapariga agrupara j a reserva no melhor local que descobrira e que felizmente, tinha espao e pasto suficiente para os animais, e foi estender a cama ao lado 
da de Brite, como era seu hbito.
- Est acordado, pap?
- Sim, pequena. Tens alguma preocupao?

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- Tenho; mas no se trata disso. Queria s perguntar-lhe se acha que vai haver barulho.
- No vejo como poderemos evit-lo, Reddie. Ainda mal chegmos ao Rio Vermelho e j nos roubaram cavalos, o gado todo... e ficmos sem dois rapazes! Entre o Vermelho 
e o Canadiano  que costumam comear os trabalhos; mas, desta vez...
- A minha sorte  assim! - exclamou, triste, descalando as botas.
- Assim como, pequena?
- Ora, ser roubada por bandidos, escalpada por peles-vermelhas, morrer afogada ou perd-lo a si, precisamente quando tudo indicava que podia comear a ser feliz!
- Ento, Reddie, no vale a pena desanimar! S corajosa como uma verdadeira texana. Lembra-te do lamo!
- Do que me lembro  de que, no lamo, foram todos mortos, apesar da sua coragem!
- Queria referir-me ao esprito deles, filha. Agora dorme, anda!
Texas Joe acordou-o ao alvorecer:
- Tenho novidades, patro! O Hite est a atravessar a manada! Se no quer perder o espectculo venha da! Mas no acorde a Reddie; deixaremos cinco homens de guarda 
e estaremos de volta daqui a pouco.
- No acorde a Reddie. Com franqueza! - protestou a jovem. - Boa oportunidade para me impedir de ver... o espectculo, Texas Jack!
- Parece-me que ests a precisar de mais beijos! - resmungou Texas, desdenhoso.

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Brite no perdera tempo a aceitar o convite do seu capataz e muito menos a pegar na carabina. Texas esperava-O com Pan Handle, San Sabe e Williams, e Reddie foi 
juntar-se-lhe, tambm armada.
- Sigam-me sem fazerem barulho - ordenou Texas - e faam o que me virem fazer. A minha inteno  atacar o Hite antes de conclurem a travessia, pois, como calculam, 
a maioria dos homens deve ir atrs da manada. Quando estiverem todos dentro de gua comeamos a atirar.  s isto, por enquanto...
Afastou-se velozmente e os outros seguiram-no, um a um, com San Sabe na retaguarda. Texas parou,  escuta, depois de contornar uma curva, e, pelo mugir do gado, 
Brite calculou que estariam a uma milha - duas, o mximo - do ponto onde Hite tencionava atravessar o rio.
O vale alargava-se e, do lado oposto, a orla da escarpa descaa em ladeira. Pouco depois, Texas abandonou a Pista e penetrou numa mata onde o avano era dificultado 
pelo arvoredo. Por fim, desembocaram na margem arenosa do rio que, naquele local era largo e pouco profundo. A julgar pela areia molhada e pelos detritos que por 
ali abundavam, a enxurrada devia ter baixado alguns ps, durante a noite. Entretanto, o dia clareara, mas o cu mostrava-se carrancudo e cheio de nuvens, ameaando 
chuva.
Texas continuava a avanar com rapidez, oculto pelos salgueiros e parando de cem em cem passos, pouco mais ou menos. Finalmente estacou e disse em voz baixa:
- Olhem!
A meia milha de distncia desenrolava-se um espectculo deslumbrante: grande quantidade de gado em movimento cobria toda a largura do rio, a margem oposta e estendia-se 
at debaixo das rvores, indcio de que a manada fora apontada por guia desconhecedor do seu ofcio. No se via um s cavaleiro! Talvez estivessem do lado ascendente, 
onde a gua era, talvez,

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rpida e profunda. No entanto, o gado tinha p e isso permitia, apesar dos erros dos guias, uma travessia segura, embora lenta.
- Bem, rapazes, vamos fazer trabalho reles de comanches, mas a gente do Hite no merece que nos arrisquemos a apanhar uma arranhadela que seja! Agora, ateno: olhem 
para mim e no para o rio; a brincadeira est prestes a
comear!
Continuou a avanar sob os salgueiros, quase sem fazer mexer uma folha. O mugir intermitente do gado ouvia-se agora melhor e, por isso, a marcha era mais lenta e 
cautelosa.
Texas estacou, de sbito, ao ouvir gritos de guias, baixou-se sobre um joelho e fez sinal aos outros para se aproximarem.
- Mais umas cem jardas e chegaremos - murmurou, ofegante. - Descansem um bocado; um homem a deitar os bofes pela boca no consegue atirar como deve ser. Esperem 
por mim; j venho.
Afastou-se, com mil cautelas, mas regressou logo a
seguir:
- Dentro de cinco minutos comea o barulho! - avisou, com o rosto coberto de suor. - No tarda que os homens estejam a meio do rio...
Levantou-se, deu alguns passos e parou um pouco mais adiante, sem qualquer precauo, certamente por se haver certificado j de que no podiam descobri-los. Por 
seu turno, Brite no saa de junto de Reddie e cada vez se maravilhava mais com a coragem da jovem. A rapariga olhava para trs, a intervalos regulares, e sorria-lhe. 
Tinha os olhos firmes e cheios de ousadia e s pela palidez do rosto e pela respirao entrecortada se adivinhava a ansiedade que a possua.

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O gado estava perto, abafando com o bater dos cascos e o esparrinhar da gua os gritos dos guias e os seus prprios mugidos. Brite sentia o cheiro da "sua" manada 
e via-a mover-se, encarnada e branca, por entre a ramaria das rvores.
Os passos de Texas foram-se tornando mais curtos e lentos, at que se deteve completamente. Ajoelhou, e, nos seus olhos, lia-se que chegara o momento de agir. Mas, 
ainda que os seus olhos no falassem, bastaria ver a maneira determinada como pegava na carabina e apontava.
- Temos de comear - murmurou, pouco depois. - No podemos avanar muito mais e os malvados afastam-se de ns. Corramos para aquela borda.
Ainda Brite no tivera tempo de desembaraar-se dos ramos que o atrapalhavam e j o estrepitar das carabinas o ensurdecia. Correu para a frente, afastando os ramos 
com a arma, ansioso por ver o que se passava. Reddie precedia-o, a poucos passos.
A larga retaguarda da manada estava a boas cem jardas da margem e meia dzia de cavaleiros batia e esporeava os cavalos, numa pressa louca de se pr a salvo. Brite 
viu cavalos a cair e um homem aparecer e desaparecer no turbilho da gua.
- Aponta baixo e atira, Reddie! - ordenou, com voz dura, vencido pelo entusiasmo da luta.
Tentou ele prprio atingir um cavaleiro cujo cavalo mergulhara, mas o tiro falhou. O estrondear das carabinas, por todos os lados, quase lhe rebentava os tmpanos. 
O ltimo guia, cujo cavalo fora ferido, ergueu os braos, caiu da sela e no voltou a aparecer.
Os atacados responderam ao ataque e as balas comearam a chover na areia e na gua, e a assobiar entre os salgueiros.

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O perigo, porm, era pouco, pois os bandidos atiravam com as armas de pequeno calibre e, ainda por cima, montados em cavalos que estavam dentro de gua. Apenas por 
sorte alguma bala atingiria o alvo. A gua chegava aos flancos dos cavalos, mas no lhes permitia nadar, dada a sua pouca profundidade. Apesar de tudo, os homens 
aproximavam-se da margem, num redemoinhar de balas, e a fuzilaria cessou quase to depressa como comeara, pois os homens de Brite haviam esgotado as munies.
Entretanto, os ladres alcanavam a margem e juntavam-se a outro que atravessara  frente, rodeando-o como uma alcateia de lobos, invectivando-o, talvez por causa 
do ataque sofrido, e apontando para trs cavalos mortos e para um homem que flutuava, de cara voltada para cima. Texas tornou a carregar a arma e disparou,  guisa 
de despedida. A bala fez saltar gua e areia para o rosto dos homens, que correram a refugiar-se nos salgueiros.
- Foi melhor do que eu esperava! - exclamou Texas, alegre. - Que diz, Hash?
- No foi to bom como desejaria, mas valeu a pena! Trs cavalos mortos... Mas no vi nenhum homem...
- Est um ferido - afirmou Texas - que lhe acertei eu prprio!
- O senhor Brite ter, de novo, a manada antes de atravessarmos o Rio Vermelho! - afirmou o caador. - De agora em diante vo andar aflitos e, das duas uma: ou abandonam 
o gado, ou tm de se haver connosco! Parece-me que aquele tipo alto montado no cavalo baio era o Hite, a julgar pela maneira como os outros lhe cairam em cima...
- Toca a andar! No vamos agora esquecer-nos de que estamos em terra de Comanches - lembrou Texas. - Patro, quem  aquele garoto com o nariz mascarrado de plvora 
queimada?

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- Oh,  a Reddie! - exclamou Brite, a rir, satisfeito. - A tua carabina escouceava, no?
- Mais do que uma mula! No fui capaz de manter a malvada quieta - confessou Reddie, pesarosa.
- Agora  correr para o acampamento, a fim de atravessarmos o rio - disse ainda Texas. - De hoje em diante pouco sossego est reservado ao senhor Ross Hite!

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Captulo XII


O feito de Texas entusiasmou os guias que no haviam participado nele e fez Deuce Ackerman soltar um agudo grito de guerra:
- Hip, hip! Ests a ver o que perdemos, Rolly? Algum tinha de ficar, porm... O que me anima  pensar que ainda tornaremos a encontr-los e ento... ento que Deus 
os ajude!
Passada uma hora estavam outra vez em marcha e, pouco tempo depois, passavam pelo lugar onde os homens de Hite haviam sido atacados. Os trs cavalos mortos tinham 
deslizado rio abaixo e encalhado numa salincia de areia.
Williams mandara um dos homens observar a Pista,  retaguarda, outro de cima da escarpa e um terceiro  frente. Quando todos se reuniram nada tinham visto, alm 
de bfalos.
- E se nos armam alguma emboscada? - ponderou Texas.
- O Hite escolheria, para isso, stio melhor do que este - observou Williams. - Tu, Ackerman, empoleira-te por a e, com o culo do patro, v se descobres alguma 
coisa.
- Nada - respondeu o rapaz, aps minuciosa observao. - Espreitei em toda a parte, sob as rvores e ali, naquela mata espessa.
- Achava melhor que algum de ns fosse verificar, para termos a certeza - alvitrou Texas. - Pode ir o San, o Bender e o Less. Olhem com ateno e, se lobrigarem 
fumo,

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corram quanto as pernas vos consentirem, se tm amor  pele.
Os guias obedeceram, e o resultado da inspeco comprovou a afirmao de Ackerman.
A seguir, Reddie atravessou o rio, com os cavalos de muda, e depois Moze atravessou, tambm, sem novidade. Com o carro de Hardy j foi mais difcil, pois encalhou 
um pouco para l do meio do rio.
- Despachem-se antes que se enterre mais! - gritou Texas. - Eu levo-a para terra, "miss" Ann, pois, de contrrio encharca-se toda.
Ackerman ficou a olhar, carrancudo, enquanto o capataz transportava Ann Hardy para a outra margem, e os restantes guias, com as suas cordas, ajudavam a parelha a 
safar o vago.
Williams conduziu o terceiro, sem dificuldade, mas o quarto e ltimo enterrou-se no lodo, a meio do caminho. Este incidente reteve a caravana durante muito tempo, 
pois o vago era o maior e estava carregado de peles at meio. Apesar de todos os esforos dos homens, porm, cada vez se enterrava mais, e as cordas partiam-se, 
umas atrs das outras.
- O carro no presta e, quanto s peles, h espalhadas por a dez milhes delas! - gritou Williams, desatrelando a parelha, conduzindo-a para terra e abandonando 
o carro. Prosseguiram a jornada com duas parelhas atreladas ao vago dos Hardy, que levava a maior carga, e passado pouco tempo estavam longe da margem, na vasta 
extenso de colinas. Williams observou o terreno e afirmou que a manada abandonara a Pista, desviando-se para Este, a fim de os despistar.

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O dia estava abafado, ameaando borrasca, e manadas de bfalos pastavam por todo o lado, seguidas por alcateias de lobos e coiotes, e bandos de passarada.
Pelo meio-dia, Ackerman, que ainda levava o culo de Brite, anunciou que a manada ia a menos de dez milhas  frente, e durante toda a tarde a caravana continuou 
a ganhar terreno, facto que no devia ter passado despercebido a
Hite.
Ao pr do Sol o gado parou, em campo aberto, num lugar onde, com o culo, no se via nem uma rvore. Vendo iSsO Texas Joe escolheu uma pequena clareira, bem servida 
de gua e arvoredo, e acampou, tambm, a escassas seis milhas da manada roubada.
O Sol desapareceu, num claro rubro, e o crepsculo caiu, pesado e assustador, acompanhado pelo ribombar do trovo e pelo riscar de relmpagos, no horizonte enegrecido. 
O silncio, a ausncia total da mais ligeira brisa, aquela como que ansiedade expectante de toda a Natureza, influenciavam desagradvelmente a caravana.
Brite aproveitou o tempo, contando s raparigas que as tempestades magnticas, muito frequentes naquela regio do Texas, eram o flagelo dos guias de gado e ainda 
mais temidas por eles do que os prprios peles-vermelhas ou os bfalos.
- Porqu? - inquiriu Ann, admirada.
- Primeiro, porque  muito natural que tenham medo, em virtude da extraordinria violncia dessas borrascas; depois... porque conduzem cavalos e gado bravo! Fred 
Bell, um guia meu conhecido, contou-me que, uma vez, foi apanhado por uma delas, perto do Canadiano, e ficou sem trinta e sete cabeas de gado e um homem, fulminados 
pelas descargas elctricas!

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Reddie no estava menos assustada do que Ann e prometeu aos homens que rezaria, para que Deus os poupasse a tais cataclismos.
- J assisti a um par de tempestades magnticas - declarou Texas, que parara a ouvi-los. - Quer dizer, j assisti a centenas de trovoadas cheias de relmpagos, mas 
s vi duas dessas que enchem de electricidade a Terra e tudo quanto ela contm. Vi bolas de fogo nas pontas de todos os chifres e lume, autntico lume, a correr 
pelas crinas de um cavalo! Vi... e ouvi!  verdade, patro; essas tempestades so o inferno para os guias!
Mais tarde, depois de as raparigas se recolherem, Texas voltou a falar com Brite, em voz baixa e sria:
- Olhe, patro, se esta noite houvesse realmente temporal, mesmo que fosse s trovoada e relmpagos, fazia-nos jeito, a mim e ao Pan Handle.
- Que se te meteu na cabea, homem?
- Vamos recuperar a manada, esta noite! -Tu e o Pan, sozinhos?
- Sim. sozinhos.  a melhor maneira. O Pan queria ser ele a arrumar o assunto, e eu tambm tinha a mesma ideia, mas chegmos a acordo e combinmos unir foras e 
ir os dois.
- Shipman, eu... eu... no sei se to consentirei!
- Ora, se consente! Custar-me-ia desobedecer-lhe, mas na Pista mando eu! Quanto ao Pan, diabo, no  tipo em quem se possa mandar como em qualquer outro!
- Mas que pensam vocs fazer? Deus permita que no seja nenhuma tolice! Vocs no so garotos, so homens feitos, e tu deves conhecer a tua responsabilidade aqui... 
sobretudo agora, que temos de proteger duas raparigas e um ferido!
- O patro imagina as coisas piores do que so. O Pan e eu resolvemos atacar no auge da tempestade. Eu cercarei a manada por um lado e o Pan pelo outro, e, se o 
gado se espantar,

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como  natural que acontea, cavalgaremos com ele, at parar ou sossegar um bocado. Os homens do Hite no devem ter mos a medir, um por cada lado, tentando manter 
a manada unida e quieta... Se algum nos vir,  luz dos relmpagos, no saber se somos dos seus ou no. Est a perceber, patro?
- Nem sei, rapaz!
- Est-me c a parecer que a idade comea a endurecer-lhe a cabea... At lhe deu para adoptar a garota, hem?
- No me censures, Tex.  verdade que tenho um fraco pela pequena, mas isso no impede que te estime, tambm, nem quer dizer que a minha cabea esteja dura. Provo-te 
o que afirmo com esta pergunta: quando tu e o Pan rodearem a manada, em direces opostas, como diabo se reconhecero um ao outro, como no se confundiro com os 
homens do Hite? No te esqueas de que dar tiros  luz de relmpagos significa que, pelo menos, se tem de ser to rpido como o prprio relmpago! Como vo vocs 
arranjar-se para no dispararem um sobre o outro?
- Isso tambm me preocupa, concordo. Depois do jantar consultarei os outros; talvez algum tenha uma ideia. Se resolvermos esse pormenor o Hite e a sua cfila esto 
arrumados!
Moze anunciou que o jantar estava pronto e Ackerman, que ficara radiante por ter conseguido sentar Ann a seu lado, num fardo, exclamou:
- Viva!  a primeira vez que estamos todos reunidos, ao jantar!
-  a primeira e pode muito bem ser a ltima! - agoirou Texas, fitando Reddie. -  melhor aproveitarem bem a ocasio!
Ao crepsculo sombrio sucedera uma noite hmida e ameaadora.

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Os troves eram, agora, mais frequentes e mais prximos e, para os lados do Oeste, as estrelas haviam desaparecido. Nem sequer a Lua iluminava ainda o cu cor de 
breu.
- Deitem mais lenha na fogueira e cheguem-se para aqui - ordenou Texas, mal terminou a refeio. - A borrasca deve estar a rebentar e eu tenho que fazer, assim como 
o Pan.
- Tm que fazer o qu? - inquiriu Holden.
- Venha tambm, Reddie... e a Ann, se quiser - pediu o capataz, sem responder  pergunta. - Nunca ningum viu uma boa ideia sair da cabea de uma rapariga bonita, 
mas, esta noite, estou desesperado...
Todos o olhavam, sob os clares incertos da fogueira, cheios de curiosidade e expectativa.
- Ouam bem - comeou Texas. - Esta noite vamos caar o Hite, eu e o Pan. Quando a tormenta rebentar, cairemos sobre o gado, que j sei onde est. Planemos cercar 
a manada por direces diferentes, mas no sabemos como poderemos reconhecer-nos, imediatamente, quando nos virmos, ao longe. Como h-de ser?
- Como se ho-de reconhecer  luz dos relmpagos, no ? - perguntou Less.
- .
- No pode ser.
- Tem de poder! Um relmpago dura um segundo, s vezes um pouco mais... De quanto tempo precisarei eu para ver e disparar?
- Ah,  isso!
- Deixem-nos ir!
-  trabalho s para dois! Vamos, faam funcionar os miolos!
-  provvel que esteja a chover e que a manada se mova...

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que corra at, talvez... Os homens do Hite tm de rode-la, afastados uns dos outros...  uma grande ideia, Tex! O pior  se vocs disparam um contra o outro!
- Vejamos... - comeou outro guia. - Quando se separarem podem ter por certo que no voltaro a encontrar-se to cedo... Talvez precisem de um quarto de hora, ou 
de mais, para percorrerem uma manada to grande como a nossa, ainda por cima guiados s pela claridade dos relmpagos...
- As vossas cabeas so demasiado lentas, rapazes! - observou Pan, divertido. - O que ns queremos saber  o que devemos usar para nos identificarmos facilmente, 
ao primeiro olhar. No se esqueam de que ambos teremos as armas engatilhadas...
Um a um, todos os homens apresentaram sugestes que, uma a uma tambm, foram postas de lado.
- Se houver temporal h vento, com certeza, no acham?
- perguntou Reddie, no fim de todos falarem.
- J venta um pouco, at! Quando chover haver ventania forte, pela certa.
- Ento atem qualquer coisa branca  roda dos chapus, deixando duas pontas compridas que o vento faa agitar.
- Qualquer coisa branca? - repetiu Pan Handle.
- Raios! - praguejou Texas.
- A ideia  formidvel! - exclamou Brite, entusiasmado. - Uma coisa branca a esvoaar, no os enganar!
- Mas onde arranjaremos ns essa tal coisa "branca"?
- perguntou Texas, zangado. - Procurar um trapo branco nesta barafunda de coisas e pessoas poeirentas e encardidas  o mesmo que procurar agulha em palheiro!
- Engana-se! - protestou Reddie. - A Ann tem uma toalha branca, bem limpinha!

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- Tenho, sim! Vou busc-la!
Mal apanhou a toalha  mo, Texas comeou a rasg-la em tiras, com frenesim.
- Salvou-nos a vida, Reddie! - exclamou. - Nem imagina quanta vontade tenho de que o Pan me reconhea bem e depressa! O caso no  para menos, se pensarmos na mo 
rpida que ele tem! Atamos duas tiras, uma  outra, e depois aos nossos chapus... Faa l isso, Reddie.
Baixou a cabea e Reddie, to branca como a prpria toalha, atou-lhe as tiras  volta da copa do chapu.
- Para que so essas tremuras todas? - perguntou o rapaz, trocista. - Quem a vir, julgar que receia que eu seja morto e tem pena...
- E teria, Tex; teria muita pena!
- Isso j  alguma coisa! Aperte bem, para que o vento as no arranque. Isso! E tu, Pan, j ests?
- J, j estou enfeitado.
- V-se bem, no escuro. Agora, amigos, escutem: queremos sair com vida desta arriscada aventura, o que s no suceder se o plano falhar. Depois de feito o trabalhinho, 
ficaremos com a manada,  vossa espera. Por isso,  conveniente que o Moze prepare o comer cedo e se ponham a caminho assim que clarear. Os carros podem seguir pela 
estrada. Encontrar-nos-o pelo caminho, tenham a certeza!
Logo a seguir, no meio do maior silncio, montaram os cavalos para eles preparados e sumiram-se na noite melanclica e carregada de electricidades.
- Aprende, Hash Williams! - exclamou o caador. - Aqueles diabos nem sequer admitem a ideia de perderem a partida!
Esta observao afrouxou um pouco a tenso em que a abalada dos dois homens os deixara envoltos. Reddie parecia uma esttua, com os olhos fixos na escurido que 
tragara Texas Joe; e, desta vez, Brite no precisou de lhos ver:

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a rigidez do seu corpo, o protesto mudo que emanava da sua imobilidade dolorosa, eram bem eloquentes.
O vento uivava, num coro lamentoso com o ribombar do trovo, e,  luz de um relmpago, viram avanar nuvens negras, cor de tinta.
-  melhor pensarmos na melhor maneira de nos mantermos secos, e s nossas camas tambm - aconselhou Brite. - Deuce, v se a Ann e o pai esto bem abrigados. Tu, 
Moze, prepara tudo. Reddie, vem comigo; abriguemo-nos sob o vago.
- Parece-lhe que os cavalos de reserva se mantero quietos durante o temporal? - perguntou a rapariga, hesitante.
- Talvez.
- Vou dar-lhes uma vista de olhos, antes que comece a brincadeira... - ofereceu-se San Sabe.
- Olha que tens de correr!
- Por enquanto, ainda no chove; s est vento.
Mal Moze, Brite e Reddie acabaram de amarrar as pontas da cobertura de lona, para que no voasse, comearam a cair grossos pingos de chuva. Brite sentiu-os, frios, 
no rosto, e correu a recolher-se, com Reddie, ao mesmo tempo que intensa claridade, dum branco azulado, iluminava carros, acampamento, cavalos, a terra toda. Seguiu-se 
um trovo, to violento que dir-se-ia ter feito estremecer o Universo.
A escurido que reinou a seguir era impenetrvel e pavorosa.
- Onde est, pap?
- Aqui mesmo. Ouves a chuva?
-  melhor fazer j as minhas oraes, seno Deus  capaz de no me ouvir, com tanto barulho.

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- Boa ideia, filha! Tambm me parece melhor no desenrolar-mos as camas enquanto isto no passar...
Reddie respondeu qualquer coisa que Brite no ouviu, no meio do dilvio que caa sobre a terra. Novo relmpago iluminou tudo, mostrando o caudal de chuva, a terra 
ensopada e os cavalos, unidos uns aos outros, com as cabeas baixas. Seguiu-se novo trovo e, mais uma vez, o manto negro das trevas envolveu tudo. Foi por pouco 
tempo, porm; uma fasca, ziguezagueando, fendeu uma nuvem, num claro sobrenatural, verde prateado. Sucederam-se descargas contnuas, com raros intervalos de escurido, 
e os troves comearam a estalar num ritmo assustador.
Reddie estava encolhida sob o vago, coberta com um comprido oleado. Brite via-lhe  luz dos relmpagos, as faces plidas e os olhos cheios de medo - de um medo 
que no era s por ela nem da borrasca que se desencadeava  sua volta. Olhava para longe, com a conscincia terrvel do que devia estar a passar-se naquele momento 
preciso.
Tal pensamento tambm no abandonava Brite, que apoiou a cabea nas mos preocupado. Moze estava ali, ao p deles; os outros homens haviam-se abrigado debaixo dos 
restantes carros.
O velho rancheiro no apreciava nada as tempestades do Texas, por muito fracas que fossem, e tinha verdadeiro pavor das autnticas tempestades magnticas, mas, naquele 
momento, parecia no dar pelos troves nem pelas fascas.
O seu pensamento seguia Texas Joe e Pan Handle, os seus audaciosos rapazes que cavalgavam sob tal tormenta para castigarem os ladres que o haviam roubado. Fora 
uma ideia original aquela de atacarem Hite sob chuva diluviana, troves e raios! No se lembrava de nenhuma que se lhe pudesse igualar em ousadia e nervos, apesar 
de ter assistido a tantas,

228


na sua longa vida de texano! Pensar que estava ali ao abrigo dos elementos furiosos, enquanto eles, os seus valentes, deviam encontrar-se encharcados at aos ossos, 
cegos pelas cordas de chuva e pelas fascas, quase a saltarem da sela e no perigo iminente de serem pisados por uma manada descomunal ou abatidos pelos homens que 
eles prprios queriam matar!
Olhava para os relmpagos e pensava se teriam tempo de disparar com preciso em tais circunstncias. As descargas duravam tempo suficiente para quem tivesse olhos 
e dedos rpidos, mas, mesmo assim, no seria ele, Brite, quem ousaria enfrentar os perigos de uma noite daquelas para se vingar de ladres sem escrpulos!
A tempestade levou mais de uma hora a atingir o auge, mas depois a chuva, o vento e os relmpagos comearam a enfraquecer. A tormenta afastava-se, e o que quer que 
fosse que estivesse destinado a acontecer j acontecera. Brite no duvidava de que o resultado da incurso dos seus homens devia ser bem mortfero... o que talvez 
fosse excesso de confiana, pois, pelo que se dizia, Ross Hite era um desalmado sem conscincia, to bom atirador como Texas Joe. Mas havia, tambm, Pan Handle, 
e esse, sim, era diferente! A ele s os grandes atiradores texanos se podiam comparar!
Reddie estendera a cama e adormecera. Brite imitou-a, cansado, cheio de uma serenidade incompreensvel, sem saber porqu, convencido da vitria.
Ainda era escuro quando acordou, embora se adivinhasse j que o dia no tardaria a romper. Estendeu o brao para despertar a rapariga, mas deparou com a cama vazia. 
Moze levantara-se, tambm, e estava a rachar lenha, tarefa em que o patro foi ajud-lo.
Ouviam-se vozes ensonadas, nos outros carros, e sombras escuras deslizavam de um lado para o outro, contra a luz baa da madrugada.

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A voz sonora e lmpida de Reddie anunciou que os cavalos de reserva estavam em movimento e logo, um a um, os vaqueiros foram aparecendo perto do lume, enregelados, 
carrancudos, molhados e silenciosos. Ackerman no apareceu e Brite deduziu que devia ter ido ajudar Reddie.
Quando os cavalos chegaram ao acampamento o ar encheu-se do zunir das cordas molhadas, do bater dos cascos e do tilintar das esporas, assim como de uma ou outra 
praga ocasional. Depois de tudo pronto, todos rodearam Moze, reclamando o seu quinho de comida.
- Est acordada, "miss" Ann? - perguntou Ackerman, que chegara, tambm.
- Estou.
- Como se sente?
- Bem, senhor Deuce, mas muito encharcada!
- E seu pai?
- Ainda estou vivo, filho - respondeu Hardy.
- ptimo! Venha secar-se e tomar uma bebida quente, "miss" Ann. Estamos quase a partir.
- O dia vai estar melhor do que o de ontem - declarou Hash Williams, esfregando as mos e acercando-se da fogueira.
- Parece-lhe que vamos ter manada outra vez? - perguntou Brite.
- Aposto que sim! - afirmou o caador.
- Quando acha que devemos partir, Williams? - inquiriu. Ackerman, por sua vez.
- J! Voc guia o carro dos Hardy, como ontem, e o Pete o nosso. Eu irei com os rapazes. Ora deixe ver... So seis... Bem, pode ficar um consigo.
- Ficas tu, Rolly.
Momentos depois, os cinco homens montavam cavalos folgados, formando um quinteto forte e corajoso  luz plida da manh.

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- Sigam sempre pela Pista at nos encontrarem - avisou Hash Williams. - No nos esqueceremos de vocs.
Abalaram velozmente, mas unidos, de maneira que traduzia a incerteza do seu destino e a coragem com que o enfrentavam.
- Bons dias, Ann - cumprimentou Brite, vendo aparecer a jovem, molhada e despenteada, mas com os olhos brilhantes de alegria. - Ouviu o temporal?
- Foi terrvel! No consegui dormir, s de pensar naqueles dois que andavam l por fora.
- No foi uma noite agradvel, no... Venha para perto do lume. Tu, Moze, despacha-te que no podemos perder tempo.
Quando se puseram a caminho ainda o horizonte estava coberto de bruma. O cu, porm, mostrava-se lmpido, o ar fresco e suave e o Sol comeava a avermelhar o Nascente.
Rolly Little estudou o caminho, os carros seguiram, uns atrs dos outros e, ao fim de tudo, os cavalos de reserva, conduzidos por Reddie e Brite. Os animais estavam 
folgados e trotavam  vontade, no caminho duro, fazendo saltar a gua das inmeras poas. Entretanto, o vermelho do Nascente tornara-se rosado e o Sol nasceu, por 
fim, dissolvendo e apagando sombras e bruma, os mistrios da distncia e a obscuridade da madrugada.
Aps terem percorrido umas cinco milhas, Rolly Little saiu da Pista, parecendo observar qualquer coisa. Quando os cavalos de reserva alcanaram o mesmo ponto onde 
ele parara, Brite deteve-se tambm, para ver de que se tratava, e descobriu que fora ali que Ross Hite acampara. Albardas, selas e utenslios variados, junto de 
cinzas apagadas, atestavam a partida precipitada dos ladres. Um grito agudo sobressaltou Brite, arrancando-o s suas reflexes. Little acenava-lhe,

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a certa distncia, num gesto que traduzia mais excitao do que alarme. Curioso e excitado, tambm, Brite cavalgou ao encontro do vaqueiro, mas o rapaz apontou para 
qualquer coisa, no cho, e afastou-se.
A breve trecho o velho rancheiro descobriu um homem morto, de braos abertos e arma cada, numa cena bem elucidativa das leis da pradaria. Galopou  volta de um 
crculo imaginrio e no tardou a descobrir outro cadver, hirto e horrvel, com metade do rosto arrancado por um tiro e a camisa aberta e ensanguentada. Ainda mais 
longe divisou um cavalo e dois homens mortos, em grupo, mas no se aproximou. Preferiu voltar para junto de Reddie, que o fitou com um olhar carregado de perguntas 
e temores.
- Quatro homens do Hite cados, naquele crculo... e s percorri metade do caminho!
Reddie engoliu a saliva e no disse nada. Continuaram a cavalgar, de olhos postos na pradaria ondulante e enganosa. Fora da Pista viam-se bfalos, pondo manchas 
negras no verde dos pastos, e os cabeos cor de prpura convidavam-nos a avanar, a avanar sempre. Para l deles erguiam-se, ameaadoras, as montanhas Wichita.
As horas de incerteza iam decorrendo, os carros rolavam, barulhentos, pelo caminho, os cavalos trotavam e os guias incitavam os mais ronceiros.
- Olhem ali  frente! - gritou Reddie, de sbito.
Smiling Pete estava em cima do carro, acenando com o chapu, com uma energia que tanto podia traduzir alegria como pnico.
- Estar a ver os nossos rapazes e a manada ou um bando de comanches? - murmurou Brite.
- No sei, pap, mas rezo, rezo muito!

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Captulo XIII


Do alto da interminvel ladeira Brite e Reddie soltaram gritos de alegria, ao divisarem, muito ao longe, no vale verdejante, a mancha de cor, cuneiforme, que escurecia 
a pradaria. Era a manada, a sua manada outra vez reunida, com a frente voltada para o Norte e a larga retaguarda estendendo-se para Este e Oeste.
- Oh, aquele vaqueiro! - exclamou Reddie, delirante.
Brite encontrou no silncio o melhor tributo que podia prestar aos seus rapazes e, acto contnuo, cavalos e carros comearam a descer a encosta cada vez com maior 
velocidade.
Em breve a frescura da manh deu lugar ao calor do meio-dia, e, quando alcanaram o fundo arenoso do vale, tanto os homens como os cavalos estavam extenuados e atormentados 
pelo calor.
Para alm daquele lugar rido estendia-se uma rampa pouco acentuada, onde a erva abundava. A manada estava mais adiante, numa clareira bordejada de salgueiros que 
denotavam a existncia de gua.
A cavalgada de Brite chegara ao fim, pois o gado parecia cansado e s no dia seguinte sairia dali. Reddie conduziu os cavalos de reserva para lugar abrigado e o 
velhote dirigiu-se para o extremo da clareira, onde Moze se detivera.
Com o gado s estavam dois guias, um de cada lado, inclinados sobre as selas; todos os outros se haviam apeado.

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Brite desmontou tambm, e comeou a andar, com as pernas dormentes, at descobrir Texas Joe e Pan Handle.
O corao deu-lhe um pulo no peito, quando divisou o primeiro deitado debaixo de uma rvore, com um pano ensanguentado  volta da cabea.
- O que queres fazer nem parece teu, Tex - dizia Pan Handle.
- No amor e na guerra tudo  permitido! Estou doido por ela, e ela no se interessa nada por mim...
- Vem a o patro - avisou Pan. Brite, porm, ouvira o suficiente para calcular o que o velhaco do seu capataz premeditara, mas decidiu agir como se de nada desconfiasse:
- Tex, meu filho, espero que no seja nada de grave! - exclamou, dando  voz uma entoao alarmada.
- Estou quase pronto, patro!
- Meu Deus,  horrvel!
- Chame a Reddie, depressa! - pediu Texas, angustiado.
Reddie estava a desaparelhar o cavalo, do lado oposto do acampamento, e no mostrou pressa em acorrer ao chamamento de Brite.
- Talvez seja melhor eu ir prepar-la... - insinuou o patro, desejando ser leal com a pequena.
- Mas traga-a, traga-a depressa! - insistiu Texas, em tom cada vez mais lamentoso.
Brite no perdeu tempo a ir ao encontro de Reddie, que estava plida e a tremer.
- Eu vi! - exclamou a jovem. - O Tex... foi ferido! Pelo amor de Deus, por piedade, no me diga...
- O diabo do rapaz nem ferido est, Reddie!  verdade que tem uma ligadura ensanguentada na cabea, mas desconfio que quer apenas assustar-te.
Reddie compreendeu, corou e perguntou, mais calma:


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- No me mente, pap?
- Juro!
- Obrigada! - exclamou, alegre. - Se no me avisasse, o malvado apanhava-me, pela certa!
- Agora apanha-o tu!
- J vai ver!
Numa corrida, dirigiu-se para onde estava Texas. Brite seguiu-a, conforme lhe foi possvel, e chegou a tempo de ver a rapariga cair de joelhos, com um grito de dor:
- Oh, Pan, feriram-no!
Pan acenou afirmativamente, e Texas deixou-se ficar imvel, com a ligadura ensanguentada posta de maneira a cobrir-lhe os olhos, talvez com medo de os expor  perspiccia 
da rapariga.
- Pois feriram... Reddie - gemeu, em voz abafada - ...mas no importa, recupermos o gado.
- Mas, Jack... no ests... no ests... - titubeou, em tom que devia ter enchido de xtase o corao do vaqueiro.
- Estou... pronto.
- No vais morrer! No, Jack! Oh, meu Deus!
- Sim, pequena... Vou morrer... na pradaria imensa...
- Jack, querido! - soluou, cobrindo o rosto com as mos.
- Vais ter pena? - perguntou, com voz doce.
- Ficarei com o corao despedaado... morrerei tambm.
Texas Joe agitou-se de maneira pouco peculiar num homem prestes a dizer adeus  vida e a prpria Reddie pareceu  beira de ter convulses...
- D-me um beijo de despedida - suplicou o vilo, disposto a levar a farsa o mais longe possvel.
Reddie descobriu bruscamente o rosto, corado e convulso, mas de riso, e arrancou-lhe a ligadura, expondo a ferida superficial que ele tinha na fronte.
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- Raios! - praguejou Texas. - Voc  esperta!
- Descobri-lhe a manha assim que o vi! - afirmou, trocista, levantando-se.
- Ah, sim?! - exclamou, agastado. - O Pan disse que esta farsa no era digna de mim, e eu dou-lhe razo. Da prxima vez no ser a brincar!
Como sempre Texas Joe no s se mostrava adversrio digno de Reddie, mas, tambm, um mestre de finura. Os olhos negros da jovem mudaram bruscamente de expresso, 
pois estava convencida de que, naquele momento, o complexo vaqueiro falava srio. Deixou de rir, baixou a cabea e retirou-se.
- Foi voc que me traiu, patro? - perguntou Texas, fitando Brite.
- Eu? Como podia faz-lo?
- Pois sim, o senhor  um velho muito sabido! Diabo da rapariga quase me fez perder a cabea! No achas que a Reddie  a moa mais maravilhosa do mundo? - inquiriu, 
dirigindo-se a Pan.
- Como queres que te responda se no as conheo todas? - resmungou o pistoleiro, irnico. - Concordo que ser difcil ultrapass-la... Parece-me, tambm, que, de 
facto, no te liga nenhuma...
- O qu?
- Nenhuma rapariga desconfiaria com tanta facilidade, ao ver-te assim, todo ensanguentado, tanto mais que s um bom actor e um excelente mentiroso! Na minha opinio 
ficaste a saber o que querias...
- J no foi mau de todo - replicou Texas, carrancudo. - Ento, velhote, j viu?
- Quase me saltam os olhos, rapaz! No sei como agradecer-vos, nem que dizer! Espero... que me contem tudo. - Que dizes, Pan?

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- Se tivesse olhado bem para a manada teria descoberto que temos mais mil e quinhentas cabeas do que quando comemos a leva - observou o fora da lei.
- O qu?
-  verdade, patro! - asseverou Texas. - A nossa boa sorte comea a equiparar-se  m. O Hite tinha uma manada sua, roubada, creio a outros guias.
- Estou pasmado! Qual  o ferro?
- Vimos uma quantidade de "X" e dois riscos e alguns "HE" dentro de crculos. Conhece-os?
- No.
- Desconfio que so marcas novas sobre outras, anteriores. Os bichos so bravos como o diabo! Como se j no tivssemos trabalho de sobra! O Pan que lhe conte o 
que se passou, a noite passada.
Texas afastou-se e Brite esperou que o sombrio pistoleiro falasse, mas ficou desiludido. Pouco depois, pretextando trabalhos a fazer, o velho dirigiu-se para junto 
da fogueira, onde os guias estavam reunidos, conversando em voz baixa. A chegada de Ann e de Reddie f-los calar, e Brite, que julgara ir encontr-los contentes, 
ficou desconfiado de que queriam esconder dele e das raparigas qualquer coisa pouco agradvel.
Hardy ia-se aguentando, em virtude da natureza sria do ferimento, mas tinha febre e o seu aspecto era o de uma pessoa muito doente. William dizia que se conseguissem 
transport-lo para Doan, no Rio Vermelho, teria boas possibilidades de se salvar.
Pouco depois, Moze chamou-os para comerem e a refeio decorreu mais silenciosa do que habitualmente.
San Sabe e Little regressaram da ronda, anunciando que havia bfalos e ndios algumas milhas a Oeste.
- Esse grupo acompanhou-nos todo o dia - observou Williams.

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- Mas no me parece numeroso. No sero precisas grandes precaues esta noite, mas ser melhor no deixar a fogueira acesa.
- Tenho de dormir! - resmungou Texas Joe. - O Pan Handle  como as corujas, mas eu, se no durmo, estou arrumado!
Antes de cair a noite Texas chamou Brite de parte, longe dos ouvidos dos outros:
- D-me lume, patro.  estranho, mas estou nervoso. O Pan contou-lhe o que se passou?
- Nem uma palavra!
- Estes pistoleiros so duma fora! No se consegue faz-los falar! Ou por outra, falam com a pistola, como ele fez, a noite passada... O que aconteceu foi a coisa 
mais estranha a que j assisti! Se soubssemos que em vez de seis homens teramos de enfrentar dez ou doze... andaramos mais devagar.
- Podes dizer o que quiseres, Tex. Basta-me saber que esto vivos e recuperaram o nosso gado.
- A sorte esteve connosco, patro. S depois de tudo acabado  que verificmos que o Hite no tinha a manada guardada. Localizmos o gado antes de comear o temporal 
; por isso, quando relampejou pela primeira vez, no tivemos de andar muito. Vimos um guarda a galopar que nem um danado, quando estvamos j perto. Tinha-nos visto, 
pela certa! Logo a seguir comeou a chover e fomos um para cada lado, como estava estabelecido. O gado berrava, baixava a cabea e entrechocava os cornos, inquieto. 
Era uma sorte que a chuva, o vento e os relmpagos estivessem por detrs de ns! Ainda no tinha andado muito quando soou um tiro e ouvi um dos homens de Hite gritar: 
"s tu, Bill? Ouviste um tiro?" Respondi-lhe que sim e continuei a galopar. Estava escuro como breu, excepto quando relampejava, e aproximei-me do tipo precisamente 
quando o cu parecia incendiar-se. S teve tempo de gritar:

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"Quem diabo?...". Continuei a galopar, s cegas, quase tropeando no gado. Se calham a espantar-se tinham-me atirado ao cho. No chovia, caa gua a potes; no 
via nada a mais de vinte passos nem ouvia outra coisa alm da chuva, do vento e dos troves. Vi outro guarda, vi-o claramente, mas o relmpago foi curto e disparei 
s escuras. Quando relampejou de novo vi um cavalo cado e um homem a levantar-se. Disparei outra vez, mas a luz extinguira-se. Ele disparou, tambm, pois ouvi a 
descarga e vi o claro, mas o tiro falhou-lhe, como acontecera ao meu. Como deixei de o ver fui avanando sempre. Depois disso tive luz  farta, mais do que se fosse 
dia e durante segundos a fio... mas no encontrei mais guardas! Muito tempo depois do que calculara vi o trapo a esvoaar na cabea de Pan e fiquei contente. Oh, 
se fiquei contente! Gritmos um para o outro e o diabo dos bichos deu-lhes para correrem mesmo para cima de ns! Tivemos de galopar de novo, para sairmos do caminho, 
mas a chuva acabou por enfraquecer e conseguimos domin-los bem. Devem ter corrido umas dez milhas antes de pararem, quando a trovoada acabou.
- Como arranjaste esse ferimento na cabea?
- Foi esta manh, um pouco depois do romper do dia. Estvamos junto da manada, com os ouvidos e os olhos alerta, quando fomos atacados por quatro cavaleiros. Tinham 
s uma carabina e ns as nossas caadeiras de bfalos; foi-nos fcil correr com eles. Apanhei logo esta esfoladela ao princpio e, pelo que vi, no acertmos em 
nenhum. Vimo-los afastarem-se e reconhecemos, no que trazia a carabina e me feriu, o Ross Hite. S quero voltar a encontr-lo no meu caminho!
- E eu s desejo que tal nunca acontea!
- O Pan tambm  dessa opinio, mas por motivos diferentes. Parece-me que teve sarilhos com o tipo antes disto.

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 por isso que, se o Pan o topa primeiro do que eu, escuso de procur-lo mais. No acha, patro?
- Hum... - resmungou Brite, ao ver que as duas raparigas se aproximavam.
-  melhor irem-se deitar, pequenas - aconselhou Texas. - No tardo a fazer o mesmo.
- No quer que lhe liguemos a cabea - ofereceu-se Ann, solcita. - A Reddie disse-me que o senhor tinha uma ferida horrvel...
- Pois tenho, Ann, mas no  na cabea - resmungou o capataz. - Na cabea  s uma arranhadela que j nem sangra.
- No nos conta o que sucedeu a noite passada? - pediu Reddie, curiosa. - O Pan tem um ar muito estranho e distante; desistimos de o fazer falar...
- No aconteceu grande coisa, Reddie. Assustmos o pessoal do Hite, espantmos o gado... e c estamos!
- Assustaram o pessoal do Hite! - zombou Reddie. - Julga-nos garotinhas que se contentem com tretas?
- Se chama tretas  verdade...
- Vocs mataram diversos homens do Hite! - afirmou Reddie, com ardor. - Eu vi-os!
- Refere-se aos guardas fulminados pelas fascas, ontem  noite? - perguntou Texas, friamente. - Sabem, meninas, o Senhor esteve do nosso lado, a noite passada... 
 bastante vulgar as fascas matarem guias e vaqueiros, e de vez em quando, mas logo quatro de uma vez, e todos perto uns dos outros...  um nadinha sobrenatural.
As duas raparigas encararam-se, com expresses diferentes: Ann com os olhos muito abertos, cheia de temor e respeito; Reddie com sombrio desdm.
- Realmente h qualquer coisa de sobrenatural em si, Texas Jack, se  isso que quer dizer... - zombou.

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Naquela noite Brite dormiu com um olho aberto e outro fechado, mas nada quebrou a paz do acampamento. Os guias levantaram-se vagarosos, quando o Sol j comeava 
a tingir de rubro o horizonte.
Constantemente atentos, os homens perscrutavam a distncia, onde, de ambos os lados da Pista, se movimentavam manadas de bfalos, a passo ronceiro, Brite assestou 
o culo sobre eles, diversas vezes, mas a sua ateno dirigia-se, com maior frequncia, para os outeiros e cabeos longnquos, procurando sinais de ndios.
Os guias no conseguiam, agora, avanar mais de oito a dez milhas dirias - e nem sempre - devido aos obstculos que se lhes deparavam a cada passo: rios caudalosos 
que era preciso atravessar, bfalos por todo o lado e a ameaa, quando no a presena, dos selvagens. Os receios e as incertezas pareciam, porm, no afectar os 
valentes rapazes. S Brite dava j sinais de fadiga.
Foi quase com alvio que, pelo meio da tarde, lobrigaram, no cimo de uma colina, um bando de cavaleiros ndios. Para Brite, pelo menos, a incerteza cessou. Com o 
auxlio do culo identificou-os sem dificuldades: eram Comanches e em nmero suficiente para causar apreenses.
Correu a dar a notcia a Hash Williams que, sem uma palavra, pegou, por seu turno, no culo.
- Bem os vejo! Quarenta, pouco mais ou menos - confirmou, praguejando entre dentes. - Parecem-me Comanches. Se for o bando do "Cavalo Negro" temos o enterro pronto... 
V dizer ao Shipman que avance at descobrir um lugar onde possamos defender-nos, se nos atacarem.
Texas tambm j vira os ndios e resmungou: - Parece-me que vamos ter sarilho. No diga nada s raparigas. Eu vou seguir o conselho do Williams.

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Apesar de todos os cuidados, quando Brite retomou o seu lugar junto dos cavalos de reserva, Reddie, que desconfiara de qualquer coisa, interrogou-o. Teve de contar-lhe 
o que se passava, pedindo-lhe, contudo, que nada dissesse a Ann.
- No sei para que me serviria ser sua herdeira se tivesse de perder os cabelos! - exclamou a jovem, tentando brincar.
Depois de muitas buscas a manada parou, ao lusco-fusco, num lugar onde corria um fio de gua, atravs de um barranco lamacento. Escolheram para acampamento o lado 
Norte, ao abrigo das rochas, e mandaram acender a fogueira num pequeno nicho que a tornava invisvel. Os guias passeavam de lado para lado, silenciosos, atentos 
e sombrios.
Anoiteceu. Os lobos comearam a uivar e o ar quente do Vero envolveu o acampamento, num abrao ardente, como se nada ameaasse a tranquilidade dos homens. Nas cavernas 
e fendas das rochas havia, porm, sombras ameaadoras...
Trs homens montaram guarda ao acampamento e seis ao gado, s permitindo dormir a dois guias de cada vez. Mas a noite extinguiu-se, a hora pardacenta do alvorecer 
passou, tambm, e nada de anormal aconteceu.
O dia, porm, seria frtil em provaes: falta de pasto para o gado, mau piso para os cavalos e constante temor pelas duas raparigas e pelo ferido, que era preciso 
defender. Por diversas vezes depararam com os Comanches a observ-los, seguindo na mesma direco e mantendo o andamento lento da manada. E como tudo aquilo era 
sinistro! Aqueles diabos vermelhos conheciam a Pista e esperavam chegar a qualquer parte ou que qualquer coisa acontecesse para atacarem.
Os bfalos continuavam, tambm, a aparecer por todos os lados,

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ainda distantes, mas j mais prximos, formando uma linha negra que se estendia para o Norte, to longe quanto a vista podia alcanar. Era evidente que a caravana 
ia ao encontro da enorme manada, que pastava pachorrentamente, e que a situao se tornava, de hora para hora, mais inquietante. Seria impossvel desviarem-se para 
qualquer dos lados; parar ou recuar redundaria em desastre: s lhes restava prosseguir, dentro da Pista, para a frente, sempre para a frente, ainda que ao encontro 
da morte.
A Pista Chisholm obliquava de novo, ligeiramente, para Noroeste, e talvez, depois de passado o Rio Vermelho, seccionasse a manada de bfalos. Para complicar ainda 
mais a situao, a leva que os seguia vinha j escassas dez milhas atrs e, no encalo dela, uma outra. Sobressaltado, brite perguntou aos seus homens por que seria 
que os outros guias o perseguiam com tanto af e a resposta que obteve foi esta: ndios, bfalos e duzentas mil cabeas de gado que haviam partido para Dodge e que 
queriam l chegar a todo o preo.
Naquele dia Texas Joe fez a caravana avanar at mais tarde do que era hbito e teve de acampar onde a gua no existia. Durante toda a noite, os vaqueiros cantaram 
e cavalgaram, esforando-se por manterem o gado deitado, e a manh rompeu com a viso aterradora dos bfalos, cada vez mais perto, e sinais de fumo pouco tranquilizadores, 
em dois montes distantes.
A falta de descanso, a interminvel vigilncia nocturna e a marcha forosamente lenta, de dia, comeavam a afectar os homens, a torn-los irritveis e carrancudos. 
Brite deixara j de contar os acampamentos por onde iam passando, sempre preso de incertezas e angstias. Chegaram, finalmente, ao Rio Vermelho, que os bfalos atravessaram 
algumas milhas acima da Pista. Texas Joe apontou a manada, tomando ele prprio a dianteira, magnfico de energia e temeridade.

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O maior perigo deste rio residia no facto de correr entre duas guas, uma alta, e outra baixa, pelo que foram precisas mais de quatro horas para o atravessar e se 
perderam mais de cem cabeas de gado. Para se conseguir passar os carros para a outra margem foi preciso todos unirem os seus esforos, numa luta titnica e desesperada 
que s homens comoeles eram capazes de empreender e vencer.
A noite encontrou-os exaustos, mas encorajados pelo facto de o Posto Doan ficar a pouca distncia e de poder ser talvez alcanado na tirada do dia seguinte.
Texas Joe percorreu as dez milhas que os separavam de Doan antes do meio-dia. Os guias ansiavam por umas poucas horas de folga, para beberem, conversarem e esquecerem-se 
de um perigo ouvindo falar de outro, qui maior; mas quando Brite pediu voluntrios, para montarem guarda  manada, durante umas horas, todos se prontificaram a 
faz-lo.
- Temos de resolver o caso de outro modo, meus filhos - disse Brite, comovido. - Tu, Ackerman, conduzes os Hardy ao Posto, e vocs dois, Texas Joe e Pan Handle vm 
comigo. Fiquem tranquilos que no nos demoraremos e, depois, todos podero sair.
Naquele dia Doan tinha mais habitantes e forasteiros do que habitualmente. Viam-se numerosos cavalos defronte do Posto e meia dzia de carros junto das casas cinzentas 
e baixas estragadas pelo tempo. Na fachada da maior lia-se, em grandes letras negras: "Armazm Doan". Este estabelecimento, dirigido por Tom Doan, era uma espcie 
de posto comercial para ndios e rancheiros e estava nos dias felizes da sua existncia til e perigosa.

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Vaqueiros, homens montando cavalos em pelo e ndios agachados defronte das portas, observavam, interessados, os recm-vindos, pois os viajantes de passagem eram 
a prpria essncia da vida em Posto Doan. A maneira como Texas Joe e Pan Handle desmontaram, a boa distncia dos observadores barbudos, e prosseguiram, a p, o seu 
caminho, deve t-los impressionado bastante, pois, acto contnuo, um grupo de uns doze dispersou, para lhes dar passagem. Atrs dos dois guias, e ao lado do carro 
dos Hardy, vinha Brite, e logo depois Reddie que, desobediente como sempre, se lhes juntara.
- Viva, Tom! - saudou Brite, dirigindo-se ao homem corpulento que aparecera  porta.
- Ol - correspondeu, efusivo, o outro. - Diabos me levem,  o Adam Brite! Desmonta, homem, e entra!
- No sei se tens ouvido falar do meu capataz, Texas Joe - apresentou o velho rancheiro. - Este  Pan Handle Smith. Naquele carro vem um tipo ferido, chamado Hardy, 
mais a filha, aquela pequena que est sentada no banco. So o que resta de uma caravana que ia para a Califrnia... Podes olhar por eles, at o Hardy estar apto 
a seguir de
comboio?
- Claro que posso!
Enquanto retiraram o ferido do carro e o conduziram para dentro do Posto, Ann permaneceu sentada, de rosto triste e olhos cheios de lgrimas.
- Chegmos a um lugar sossegado da Pista, "miss" Ann - dizia-lhe Ackerman, com voz exageradamente forte e vibrante. - Aqui ficar em segurana, graas a Deus, e 
o seu pai h-de curar-se! Quanto a ns, talvez cheguemos vivos a Dodge... Acha que faria bem... que no ofenderia... se... se... os esperasse l?
- Oh, teria muito gosto! - afirmou, tmida!
- E... seguir para a Califrnia... consigo? - rematou o rapaz, vencendo o seu acanhamento.

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- Se quiser... - respondeu a jovem.
Durante momentos, tempo e local deixaram de existir para os dois e s ao fim de um bom bocado Deuce conseguiu murmurar:
-  muito gentil! Foi... maravilhoso conhec-la... maravilhoso! Agora, adeus; tenho de ir ter com os rapazes.
- Adeus - titubeou Ann, estendendo-lhe a mo. Deuce beijou-lha, com galanteria, e esporeou a montada,
freneticamente, partindo a galope.

248


Captulo XIV


Reddie saltou do cavalo junto do carro, no assento do qual Ann continuava, imvel como uma esttua, de olhos postos no vaqueiro que desaparecia. Ackerman voltou-se 
uma vez, acenou com o chapu, Ann correspondeu com o leno, e o rapaz seguiu em frente, sem se deter mais.
- Custa dizer adeus, Ann - murmurou Reddie. - Vamos para dentro; tenho a certeza de que vou chorar e no quero faz-lo  frente destes homens.
- Oh, Reddie, eu... eu... j estou a chorar! - soluou a outra, descendo do carro, meio cega pelas lgrimas. - Ele era to bom, to gentil! Tornaremos a ver-nos, 
Reddie?
Brite viu as duas jovens encaminharem-se para a porta e Ann estremecer, de pavor, ao passar por dois ndios sombrios e descarnados.
- Temos de resolver isto depressa, Tex - disse o velho. - Comprarei tudo quanto o Doan puder vender.
- Est bem, patro. Eu e o Pan vamos fazer por a umas perguntas a que, talvez, o Doan no possa responder... No nos demoramos.
Brite apressou-se a entrar no Posto. Era um estabelecimento pitoresco, atravancado e odoroso, com enfeites ndios cheios de colorido, um formidvel arsenal, gavetas 
e prateleiras atulhadas de mercadorias.
Quando Doan apareceu, depois de ter instalado Hardy, Brite escreveu o que queria.
- Julgas que isto aqui  Santone ou Abilwie?

251


- Admirou-se o lojista, ao olhar para o rol. - Posso arranjar-te farinha, feijo, caf, tabaco e, talvez...
- Arranja o mais que puderes, Tom - interrompeu Brite. - No sou nenhum ladro, sou um homem honrado. Depois podes mandar tudo ao acampamento.
- Daqui a uma hora l ir ter.
- Obrigado. Passaram alguns guias  minha frente?
- Ultimamente, no. Tens a Pista toda para ti... e isso  mau.
Brite calou-se, pensativo, pois bem sabia que assim era, na realidade.
- Os Comanches e os Kiowas andam ariscos - prosseguiu Doan. - O "Cavalo Negro" e o Santana meteram-se na ladroeira e eu vou dar-te um conselho: se o velho comanche 
te aparecer pela frente, podes parlamentar e argumentar... mas acabars por dar-lhe o que te pedir.
Por isso, deves levar mantimentos em abundncia, principalmente caf e tabaco. Se for o chefe Kiowa que te visitar, limita-te a puxar pela inteligncia; o Santana 
 perigoso, quando apanha gente fraca, mas  cobarde e fcil de enganar. Mostra-lhe que ests bem armado e pronto a disparar ao primeiro sinal!
- Lembrar-me-ei do conselho, Doan, obrigado!
- Vais ser bloqueado pelos bfalos, a no ser que consigas escapar... Este ms j passaram por aqui dez milhes de bichos desses!
-  verdade, em que dia do ms estamos?
- A dezasseis de Julho.
- Eu no digo? Na Pista o tempo voa! No me sabes dizer se o Ross Hite passou por aqui, mais trs tipos?
- Esta semana estiveram a alguns grupos pequenos - respondeu o negociante, evasivo. - Gente que viaja leve e depressa... De resto, s conheo o Hite por ouvir falar 
dele... no fao perguntas aos meus clientes, Brite.

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- Tu l sabes o que te convm; no entanto, para teu governo, sempre te digo que o Hite e a sua companhia me roubaram por duas vezes! Conseguiram ter nas mos a
minha manada toda!
-  o diabo o que me conta?! - exclamou Doan, cofiando a barba. - E que se passou depois?
- Recupermos o gado e deixmos alguns homens a
apodrecer na Pista.
Reddie Bayne apareceu naquele momento, enxugando
os olhos.
- Espera, Reddie, vou contigo - disse Brite. - Onde
posso despedir-me dos Hardy?
A jovem apontou para a porta aberta, de onde sara, e Brite foi despedir-se de Ann e do pai.
- S mais um minuto, Brite! - chamou Doan, vendo-o preparar-se para sair. - No sou to discreto acerca dos ndios como dos homens da minha cor, embora tenha de 
manter relaes amigveis com todas as tribos, pois todas me compram... Quero avisar-te de uma coisa: os dois passares que esto l fora so espies de um chefe 
Comanche e tm estado  espera da primeira leva que passasse. J sabes o que os guias fazem, quando podem: recambiam-nos para trs, para a manada que os segue. Ora 
isso  m poltica, Brite! O conselho que quero dar-te  este: faz o possvel por "parar" os dois tipos!
- Parar?
- Com certeza! No os deixes ir bisbilhotar a tua gente e a tua carga e, depois, irem contar ao chefe... que por acaso  o prprio "Cavalo Negro"!
- Mais uma vez obrigado! Direi ao Texas - e saiu, acompanhado de Reddie.
- Aconselhou-nos a furar mais Comanches! - exclamou Reddie, admirada.

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- Assim parece... No entanto, a respeito do Ross Hite, nada adiantou.
Texas Joe e Pan Handle conversavam com dois homens e Williams e Smiling Pete com outro, o nico branco presente, naquela ocasio.
- Ainda vai despedir-se de ns ao acampamento, Williams? - perguntou Brite.
- Decerto! No imagina como gostaria de seguir at ao fim com vocs!
- E eu tambm! Foram-nos muito teis e nem sei como agradecer-lhes.
- O Pete est com a mania de caar bfalos! - desculpou-se Williams. -  por isso que ficamos.
- Vem c, Tex - chamou Brite, quando j estava perto do cavalo.
Texas aproximou-se, ajudou Reddie a montar e ficou  espera.
- Aqueles dois comanches so espies de um bando de salteadores, segundo me avisou o Doan - murmurou Brite, baixando-se sobre o pescoo do cavalo. - Macacos me mordam 
se no me deu a entender o que  preciso fazer... Ele tem de manter relaes amistosas com todos os peles-vermelhas...
- J nos aconselharam a esse respeito, patro. Tambm ouvimos umas coisas acerca do Hite, mas conto-lhas depois, no acampamento.
Reddie percorrera j metade da distncia entre o Posto e o acampamento quando Brite a alcanou.
- Poupa o cavalo, rapariga! Para que  essa pressa?
- Fico doente c por dentro quando vejo aquele olhar no Texas Jack! - exclamou, incoerente.
- Mas que olhar, pequena?
- No sei explicar! A primeira vez que lho vi foi no dia em que matou o Wallen... precisamente antes de disparar...

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 assim como os relmpagos daquela noite...
- Ora, Reddie, j  tempo de te ires habituando ao olhar duro dos guias!  uma vida perigosa, a deles...
- Mas eu quero que o Texas Jack deixe de dar ao gatilho! - gritou, com inesperado ardor.
- Pronto, pronto! E porqu, pequena?
- Porque, em breve, ser outro pistoleiro como o Pan Handle e, mais cedo ou mais tarde, acabar por ser morto!
- Confesso que tens razo! Quando penso nisso, sinto o mesmo que tu, filha; mas, que havemos de fazer, para o deter?
- Para deter quem? O Texas? Oh,  impossvel!
- Aqui na Pista ser... mas se terminarmos esta leva vivos... ento, talvez! Tu podes conseguir isso, pequena!
Sem lhe dar resposta, Reddie esporeou o cavalo e afastou-se, veloz como o vento, e Brite teve a certeza de que ela sabia muito bem como poderia amansar o indmito 
Joe Shipman.
O gado pastava, sossegado. Para os lados do Oeste, ao longo do rio, erguiam-se nuvens de poeira e, de quando em quando, a brisa quente trazia o ressoar abafado dos 
cascos: eram os bfalos que continuavam a atravessar o Rio Vermelho.
Brite e Reddie substituram San Sabe e Rolly Little na guarda  manada, e os dois rapazes partiram, contentes como garotos em frias, a caminho da cidade.
As horas foram passando, lentas e montonas, sem que a manada se afastasse mais de meia milha. Brite viu um ndio montado, a espiar o acampamento, e no gostou nada 
do seu aspecto, mas calou-se para no assustar ningum.

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Um pouco mais tarde, quando descansava, foi acordado pelo barulho de tiros e levantou-se a tempo de ver um ndio a fugir, a toda a pressa, pela planura.
Texas e Pan Handle, a umas duzentas jardas  esquerda, disparavam sobre ele, furiosamente, e, na opinio de Brite, haviam-no assustado bastante, se era isso que 
pretendiam. Ningum galopava to bem como os Comanches, mas aquele batia todos os mximos de velocidade! O homem, na pressa de fugir, tomou por um atalho, que o 
levou perto da manada, onde um dos vaqueiros que estava de guarda disparou sobre ele. Desde ento, e at se sumir, o ndio cavalgou escondido num dos flancos do 
animal.
Quando Texas Joe se aproximou, vinha manifestamente irritado e dando largas a uma linguagem demasiado grosseira.
- Que tens, homem? - perguntou-lhe Brite. - Eu estou bem contente!
- Voc est mas  doido! Sabe o que fizemos? Subornmos aqueles tipos, para prenderem, uns dias, os dois comanches, no armazm do Doan... Grande ideia no foi? Mas 
para nada! Este passaro teve tempo de contar os nossos carros, os nossos cavalos, o gado e os homens! Atirmos-lhe a matar, mas estava fora de alcance. Que raio 
estavam vocs a fazer, que no o viram h mais tempo?
Brite no respondeu, comprometido, e Texas Joe desmontou.
- Os mantimentos devem estar a chegar - informou o capataz, um pouco mais calmo. - Se houver outro cavalo a  mo vou render um dos rapazes.
- E eu tambm - declarou Pan Handle.
- Arranja qualquer coisa para comermos, Moze, mas depressa! Sabe que o nosso Hite passou por aqui, anteontem de manh?

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Trazia trs homens, um dos quais to ferido que ia atado  sela! O Hite vomitava fogo e os outros pouco menos...
- Pararam no Doan?
- Sim, segundo me informaram. Tinham falta de mantimentos e de munies e s traziam dois cavalos de carga. Com certeza no voltaremos a v-los antes de chegarmos 
a Dodge. Disseram-me, tambm, que o tipo costuma ficar por Hays City e que vai muitas vezes a Dodge.
- Pois deixem-no ir! No se ganha nada em procurar o perigo - ponderou Brite.
- O patro est sempre pronto a perdoar, mas eu no! O Pan  capaz de andar mil milhas para o topar e eu irei com ele!
- No vai nada! - gritou Reddie, com as faces escarlates.
- No querem ver a menina, autoritria como sempre? Sabe o que o patro deve fazer se me abaterem antes de chegarmos? Entregar  Reddie a direco da leva!
Texas Joe descobrira o ponto fraco da rapariga e, sempre que podia, martirizava-a. Era, de facto, muito possvel que, antes de chegarem ao fim da Pista, o ousado 
vaqueiro perdesse a vida, mas a jovem no podia ouvir falar em tal coisa sem trair O medo que a dominava. Daquela vez, a julgar pelo brilho dos seus olhos, preparava-se 
para dar-lhe rplica forte, mas Hash Williams e Pete Smiling apareceram e teve de calar-se.
- C estamos para comer a ltima refeio cozinhada pelo Moze! - exclamou o primeiro, procurando mostrar-sa alegre. - Custa-me deix-los. As pessoas tornam-se singularmente 
unidas em levas como esta!


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- A Reddie no quer ficar aqui connosco? - perguntou Smiling Pete, irnico. - No seramos tiranos para si, como o amigo Texas...
- Gosto muito de vocs, acreditem, mas tambm gosto muito de Santone e do rancho do pap... - respondeu, no mesmo tom.
- Do pap?! - exclamaram os dois caadores, ao mesmo tempo.
- Sim. No sabiam que o senhor Brite  meu pai adoptivo?
- Olha o felizardo! No  ainda to velho que... Bem, estou a ver que, eu e o Hash, teremos de mandar-lhes os nossos cartes de parabns quando vocs...
Reddie, porm, no os deixou acabar e, a correr, foi esconder-se atrs do carro de Moze.
- Falemos a srio - pediu Brite. - Precisamos de todos os conselhos que possam dar-nos, para o resto da viagem.
A caravana de Brite deixou Posto Doan antes do nascer do Sol, no dia seguinte, com perto da seis mil cabeas de gado. Aparentemente, a manada de bfalos ficara ao 
longo do Rio Vermelho.
Na tarde desse mesmo dia, um bando de Comanches saiu-lhes ao caminho, entre dois outeiros, e obrigou-os a parar. Brite galopou  frente, excitado, gritando a Reddie 
que deixasse os cavalos e o seguisse. Quando chegou  cabea da manada, deparou com Texas Joe, Pan Handle e os outros alinhados diante de uns trinta ndios de caras 
afiladas e cabelos compridos.
- Apresento-lhe "Cavalo Negro" e os seus ladres - murmurou Texas Joe, lacnico.

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- Viva, chefe! - saudou-o Brite, enfrentando "Cavalo Negro".
O comanche no correspondia  fama que tinha; parecia um pele vermelha vulgar, esttico e inofensivo. No entanto, no lhe faltava dignidade. Para Brite, aquele homem 
era, ao mesmo tempo, uma surpresa e um alvio, embora naquele momento, desse muito para ter ainda consigo os dois caadores de peles.
- Viva! - cumprimentou o ndio, erguendo vagarosamente a mo.
- Que deseja, chefe?
- Carne.
- Sirva-se - ofereceu Brite, apontando a manada.
O comanche falou aos seus homens, em voz baixa e gutural, e, depois, prosseguiu, voltando a fixar Brite com os seus olhos negros e insondveis:
- Tabaco.
- Tenho bastante, no carro - respondeu Brite, apontando Moze, que se aproximava a trote.
"Cavalo Negro" observou o carro, a seguir a enorme manada e, por fim, os guias, armados at aos dentes.
- Farinha - o seu ingls era complicado, mas Brite compreendeu-o e fez sinal de concordar.
- Caf.
O velhote levantou cinco dedos, designando assim o nmero de sacos que estava disposto a dar.
- Feijo.
- Um saco grande - acedeu.
Era manifesto que tanta generosidade, da parte de um guia de gado, no era habitual.
- Olhe que a velha coruja quer que lhe recusemos qualquer coisa! - avisou Texas.

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- E continuar a pedir, at termos de recusar - confirmou Pan Handle.
Moze chegou com o carro, atrs do qual os comanches se postaram, em semicrculo, vorazes e falando entre si numa algaraviada gutural. O rosto negro de Moze no podia 
empalidecer, mas tinha um ar bem estranho...
- Descarrega, Moze - ordenou Brite. - Abre a caixa e tira o que escolhemos para este... negcio missionrio...
- Si "si", si "si" - tartamudeou o negro, assustado.
- Primeiro o saco da farinha - continuou Brite. - Coloca-o no cavalo dele e mostra-lhe que  pesado.
Esta ltima recomendao no teria sido necessria, pois, ou o saco era realmente pesado ou Moze enfraquecera muito, visto que, para o colocar no cavalo, quase atirou 
o ndio por terra. Brite mandou depois carregar a generosa ddiva de tabaco, caf e feijo.
- A tem, chefe! - exclamou, com um gesto amigvel.
- Farinha - recomeou "Cavalo Negro".
- J lha dei - respondeu Brite, apontando o saco maior.
- Velho ladro! - resmungou Texas. - Quer mais! Se no se ope, leva-nos os mantimentos todos!
- No d mais nada, Brite - aconselhou Pan Handle. - Mais vale lutar do que morrer de fome.
- Mais, no! - afirmou Brite, sacudindo a cabea.
O comanche berrou qualquer coisa na sua lngua, com modo pouco tranquilizador.
- Plvora... tiros - exigiu.
- No! - recusou Brite.
O ndio repetiu a exigncia, a berrar, o que teve o condo de irritar Brite, coisa, alis, fcil. Sacudiu a cabea, numa recusa lenta e positiva.
- Dem tudo ao ndio! - berrou o chefe.

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- S se for o inferno! - gritou Brite, por seu turno.
- Assim  que se fala, patro! - apoiou Texas. -
Pode intrujar o velho chaveco.
- No ceda! - aconselhou Pan Handle, com voz vibrante. - Escutem todos! Se isto redundar em sarilho eu e o Texas chegamos bem para "Cavalo Negro" e para mais quatro 
ou cinco de cada lado dele. Vocs encarreguem-se dos das pontas.
- Reddie, v para trs do carro e atire de l! - ordenou Texas.
O momento era crtico: a vida ou a morte pendiam dum cabelo. Que hediondos eram os esgares daqueles selvagens! O velho comanche quisera lograr e fora logrado, e, 
naturalmente, compreendia melhor a lngua dos brancos do que queria fazer supor. Mas mesmo que assim no fosse, a atitude daqueles guias, frios e duros, era elucidativa 
e clara.
- Vamos a descer, rapazes! - gritou Texas, desmontando e avanando,  frente do cavalo.
Num instante, todos o imitaram, com excepo de Brite. Texas e Pan Handle tinham uma arma em cada mo e estavam to perto dos ndios que teriam tempo de sobra para 
deitar por terra diversos, antes que os outros pudessem, sequer, erguer uma carabina ou retesar um arco. "Cavalo Negro" devia ter visto que batera a porta errada, 
mas nem por isso abateu a sua arrogncia selvagem.
- Chefe - comeou Brite, inspirado -, j lhe fizemos bem, j lhe demos muita coisa; mas, agora, acabou-se: no daremos mais nada. Se quer luta, ter luta... Amanh, 
duas levas -, esticou dois dedos e apontou a manada, querendo, com isso, dizer que vinha mais gado, pela Pista. - Vm muitos, como bfalos: homens brancos e gado, 
a todo o instante - abriu ambas as mos, esticou os dedos e contou-os uma vez, e outra e outra...

261


"Cavalo Negro" compreendeu e, convencido pela inteligente persuaso de Brite, soltou algumas frases guturais e imperiosas. Dois dos seus homens esporearam as montadas, 
na direco da manada, e ajustaram as flechas aos arcos, enquanto o chefe, carregado com as ddivas de Brite, que por nada deste mundo confiaria s mos vidas dos 
seus homens, retrocedeu sem mais palavra, seguido pelo resto do bando.
- Estivemos por um triz! - exclamou Brite, aliviado.
- Mais  tangente, ainda, escapou esse comanche cabea de boi e os seus gatunos! - replicou Texas. - Viu bem que se enganou connosco e arrepiou caminho a tempo! 
Limpvamo-los todos em dez segundos, hem, Pan?
- Bastante pena tive de no poder agir! - lamentou o outro, contrafeito.
- Esto sempre esfomeados de tiros! - censurou Brite.
- Ficamos juntos at passarem os cavalos de reserva - ordenou Texas, mudando de assunto.
- Somos um grupo valente, viva! - exultou Deuce Ackerman, entusiasmado, atirando a cabea para trs.
Todos os outros soltaram frases idnticas, aliviados e ardentes, e s Whittaker, que era o mais comedido, murmurou, com voz serena, como se falasse consigo prprio:
- No sei como tivemos tanta sorte!
- A mim o que me parece  que teria sido preciso que vocs fossem muito ligeiros a dar ao gatilho, para atirarem primeiro do que eu sobre aquela nojenta mmia! - 
declarou Reddie por seu turno.
- A pequena est perdida, meu Deus! - zombou Texas.
- "Whoopee!" - berrou o tenro Bender, sentindo crescer em si o esprito bravio e violento que a Pista acaba sempre por transmitir aos que a percorrem.

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Brite olhou com um pouco mais de ateno o rosto queimado e forte do jovem vaqueiro da Pensilvnia e verificou que o rapaz estava muito diferente do que fora nos 
primeiros dias.
- Eh, gente! Depois de passado o Canadiano, estaremos a mais de meio caminho de Dodge! - exclamou Brite, querendo dar-lhes nimo.
- Havemos de l chegar, patro! - afirmou Texas, decidido. - Daqui por diante o gado tem de deixar o passo pachorrento de bois na engorda!
Antes de anoitecer tinham percorrido dez milhas - a mais longa jornada desde a partida de Santo Antnio. A noite chegou, negra e tempestuosa. Ouvia-se, ao longe, 
o ribombar dos troves, e viam-se os relmpagos riscarem o cu com a sua luz azulada. Os animais deitaram-se cedo, cansados, e estiveram sossegados at de manh.
O dia rompeu sombrio e ameaador, com um vento frio e cortante a soprar do Norte. No tardou que escurecesse, tornando-se quase to negro como o fora a noite, e 
que uma terrvel chuva de pedra se desencadeasse sobre a infeliz manada e os seus guias. O granizo aumentava de volume  medida que a tempestade crescia, chegando 
a atingir o tamanho de nozes. No se tratava, j, de sofrerem violento apedrejamento: era a prpria vida que a violncia da saraivada lhes punha em perigo, obrigando-os 
a protegerem-se com tudo quanto se lhes deparava. Reddie foi retirada do cavalo, sem sentidos, e conduzida para dentro do carro; San Sabe oscilava na sela, como 
se estivesse embriagado; Texas Joe atara o casaco  volta do chapu e soltava gritos de dor quando as pedras lhe atingiam o corpo, e os outros homens, ensanguentados 
e feridos, pareciam haver tomado parte numa luta terrvel.
Quando a saraivada parou, a altura de pedras acumuladas no cho atingia quase vinte centmetros!

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Toda a pradaria estava juncada de coelhos e antlopes mortos e, to longe quanto a vista alcanava, havia gado cado por terra, aturdido, ou mal se tendo de p.
- Desta vez, est escrito que ter de acontecer-nos tudo! - resmungou Texas quando, naquela noite, encharcados e modos, montaram o acampamento. - Tudo, porm, esqueceria 
se, ao menos, nos poupassem os bfalos!
No dia seguinte visitou-os uma tribo Kiowa que vivia em termos amigveis com os brancos, aps longas conferncias de paz com o tio Sam... Brite, embora no lhes 
desse tanto quanto dera aos Comanches, fez por eles quanto lhe foi possvel.
Como paga da sua generosidade, os selvagens, durante a noite, espantaram a ponta sul da manada. S durante o dia os guias descobriram a tramia, ao verem entre o 
gado assustado, alguns bois com flechas cravadas nos flancos. Mais de um teve de ser abatido e a manada ficou imobilizada at todos os novilhos e vacas tresmalhadas 
se lhe reunirem, de novo, o que custou trs dias de extenuante trabalho diurno e nocturno que, na expresso de San Sabe, foi de dar em maluco.
O que mais os desgostou, porm, foi verem passar-lhes  frente duas manadas, depois de, durante mais de sete semanas, levarem a dianteira a todos. Brite no tomou 
o caso muito a peito, pois, em seu entender, seriam agora essas manadas - que, todas juntas, eram menores do que a sua - que suportariam o primeiro embate dos contratempos 
que os esperavam pelo caminho.
Quando, no quarto dia, se puseram novamente em marcha, mais uma vez os bfalos fizeram a sua apario. Soldados do Forte Cobb, um posto que ficava quarenta milhas 
a Este da Pista, informaram que haviam sido obrigados a retroceder pela enorme e impenetrvel massa de bisontes, quando perseguiam um bando de salteadores apaches 
de Staked Plain.

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Os homens de Brite continuaram a avanar, embora deparando cada vez com maiores dificuldades. O gado espantava-se com frequncia; eram apanhados por temporais violentos; 
tinham constantemente cheias e enxurradas a vencer, e at o carro de Moze deixava entrar gua pelo fundo e, para atravessar a ponta norte do Vermelho, quase teve 
de ser transportado pelos vaqueiros! Diversas vezes foi preciso construir pontes e, para o conseguir, os homens tinham de meter-se  gua, com os cavalos, a fim 
de os fixarem. Mas, apesar de tudo, continuavam a avanar, teimosamente, seguindo o seu capataz frio e cheio de recursos, por completo devotado  realizao daquela 
tarefa que quase parecia sobre-humana.
Pond Creek, sessenta milhas a noroeste de Forte Cobb, foi um objectivo de que Texas Joe falou durante vinte e quatro horas e que levou um longo e difcil dia a alcanar.
Brite assustou-se quando, ao pr do sol, subiu a uma encosta e viu a manada ganhando mpeto no caminho em declive, enlouquecida pela viso e pelo cheiro da gua, 
aps uma jornada de seca e de calor.
Este ribeiro, que, geralmente, no passava de um pequeno curso de gua pouco profundo, levava agora forte enxurrada e transformara-se num rio estreito e veloz, extremamente 
perigoso, tanto para os homens como para os animais.
Nas proximidades da regio que a manada atravessara no chovera naquele dia, e Texas Joe pensara, logicamente, que o Pond Creek estaria com o curso e a profundidade 
normais,

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e deixara, por isso, a manada alcanar o cume do outeiro sem primeiro ir ver o que ficava do outro lado, como era seu hbito. Agora era demasiado tarde para recuar, 
a no ser que fosse possvel deter a avalanche de monstros enlouquecidos.
Brite esporeou o cavalo pela encosta abaixo, gritando a Reddie que se apressasse. Os guias ladeavam o gado, tentando colocar-se-lhe  frente, inspirados, sem dvida, 
pelo veloz galope de Texas Joe. Tal tctica, porm, era perigosa, como Brite teve de reconhecer, ao ser atirado por cima da cabea do seu cavalo. Reddie desmontou 
sem demora, correndo, solcita, para junto dele:
- Que trambolho, pap! Julguei que tivesse partido o pescoo. Sente-se bem?
- Parece-me que no parti nada - resmungou o velhote, levantando-se com dificuldade. - Se o cho no fosse macio... tu...
- Meu Deus, pap! Olhe! - gritou a jovem, tornando a montar. - O gado vem por a abaixo, de cambulhada!
Brite ficou a observar a cena, com os ouvidos quase a rebentar sob a aco do tremendo barulho produzido pelos cascos, pelo entrechocar dos chifres e pelos mugidos 
dos animais.
-  s a rectaguarda que vem desordenada...
- Pois , mas empurra os da frente!
- Corre! Foge! Podemos ajudar um pouco, mas  intil arriscarmo-nos demasiado.
Galoparam ao longo do flanco do gado em fuga, que apenas um quarto de milha separava da gua. Os guias, em grupo, gritavam galopando e disparando as armas, atirando, 
a bem dizer, as montadas para a frente dos bois.
Todos os homens se tinham juntado, numa ofensiva desesperada e veloz, para deterem a imensa mole de carne,

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alardeando coragem e valentia que quase tocavam as raias da loucura. Texas gritava ordens, de lbios exangues e delgados, mas os guias no o ouviam, tal era a barafunda. 
Conseguiram que os animais da frente deixassem de correr, mas esse triunfo de pouco valia, pois, mal os detrs recomearam a exercer presso sobre eles, ei-los que 
baixam as enormes cabeorras e escarvam o cho, inquietos e ameaadores. Era na rectaguarda, que ocupava a parte mais ngreme da encosta, que se encontrava o maior 
nmero de bestas, enlouquecidas pela sede. Seria impossvel sust-las pelo simples facto de a vanguarda no avanar.
- Para trs! - gritou Texas Joe, a plenos pulmes, abrindo ambos os braos.
Todos o ouviram ou viram o seu gesto, e afastaram os cavalos para o lado, excepto San Sabe, que estava colocado no centro da manada. Deuce, Texas, Reddie, Whittaker 
e Bender conseguiram pr-se a salvo, por detrs de Brite, e, todos  uma, continuaram a gritar e a gesticular, num esforo supremo para que San Sabe os ouvisse, 
pois a sua situao era extremamente perigosa. O cavalo dele recuava, e o vaqueiro, com um revlver em cada mo, disparava fumo e fogo sobre o focinho dos touros.
Pan Handle, Holden e Little, quase voando sobre os cavalos aterrorizados, juntaram os seus esforos aos dos outros guias, mas no conseguiram atrair-lhe a ateno. 
Como eram apaixonados e ardentes os gestos de San Sabe! Sem chapu nem casaco, de cabelos ao vento, o valente vaqueiro enfrentava, sozinho, a manada enfurecida, 
dando largas ao instinto milenrio que lhe corria no sangue.
A fila de cabeas e chifres arqueou em ambas as extremidades, como um dique que rebenta, e, bruscamente, o centro cedeu, num estrondear de cascos, cornos e corpos 
e, como uma mar, avanou direita ao rapaz... O cavalo deu um formidvel salto para o lado, escapando a custo da avalanche,

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como se compreendesse, por si e pelo cavaleiro que o montava, que a fuga era impossvel. Assim, quase empurrado pelos chavelhos das bestas, foi recuando, aproximando-se 
cada vez mais do rio, sem conseguir ganhar, sequer, um centmetro de intervalo entre ele e os milhares de bois que, inexoravelmente, o levavam  sua frente. Horrorizado, 
Brite viu o gado ultrapassar San Sabe, o cavalo cair, mesmo junto da margem, e o cavaleiro ser arremessado pelo ar... No instante seguinte, como que por magia, uma 
parede viva obliterou, com um rudo cavo, a margem do rio...

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Captulo XV


Brite no despregava os olhos do terrvel espectculo, como que fascinado. Uma onda gigantesca elevou-se a incrvel altura e foi cair com estrondo na margem oposta. 
Logo a seguir a estreita faixa de gua lamacenta desapareceu, dando lugar a outro rio, este de chifres erectos que se entrechocavam por todos os lados e deslizavam 
corrente abaixo. No fora as guas serem profundas e o leito do rio ficaria pejado de gado, de margem a margem, e os bois que ainda estavam em terra no teriam gua, 
mas sim, centenas e centenas de cadveres sob as patas.
Num espao de tempo incrivelmente curto todo o gado mergulhara, fila aps fila, tomando uns o lugar dos outros que a corrente ia arrastando. Os animais nadavam e, 
quando os ltimos entraram na gua, j os primeiros alcanavam a margem oposta, j muito ao longe.
O silncio estranho e pesado que se seguiu ao estrondear ensurdecedor de pouco antes pareceu quase to sobrenatural como a prpria salvao da manada. O mpeto que 
traziam e a fora da corrente haviam obrigado os estpidos animais a atravessar o rio e, duzentas jardas abaixo, todo o declive da margem oposta estava coberto de 
bois.  medida que, s centenas, alcanavam terra, outras centenas se aproximavam, tomando o lugar das primeiras, de tal modo que no havia perigo de atropelos naquela 
mar viva de cabeas e cornos. Nunca, em toda a sua longa vida de rancheiro, fora dado a Brite presencear to fantstico espectculo!

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Texas joe, que seguira toda a cena, foi o primeiro a romper o silncio. Tinha o rosto convulso e, de olhos semi-cerrados, para reter as lgrimas que queriam rebentar-lhe 
por entre as plpebras, fitava o cu de punhos e lbios fechados, como se invocasse auxlio:
- Aquele louco! - gemeu, enrouquecido, revoltado contra a inevitvel e cruel sorte dos guias de gado.
Pan Handle cavalgou para onde San Sabe desaparecera, seguido de Holden e Rolly Little, vagarosos e aturdidos.
Foi ento que Brite se lembrou de Reddie e correu para junto dela. Encontrou-a inclinada sobre a sela, com os ombros sacudidos pelos soluos.
-  preciso coragem, filha! - murmurou, dolorosamente impressionado. - Temos de ter coragem!
- ramos j... como uma famlia! - soluou a jovem, levantando a cabea.
- Reddie! - chamou Texas Joe, enrgico. - Faa os cavalos atravessar o rio! O Deuce e o Holden seguem a manada e os outros vo ajudar-me a transportar o vago.
Mais uma noite desceu sobre a Terra, como outras, silenciosa e triste. Moze atarefava-se  volta do lume e alguns homens comiam, alheados, como se alimentarem-se 
constitusse, apenas, parte da tarefa que tinham de executar.
Texas, Pan Handle, Deuce e Rolly ficaram de guarda, famintos, molhados e tristes. Reddie deitara-se sem comer e Brite permanecera junto do lume, secando as calas 
e lutando contra a conscincia atormentada, que lhe mostrava, entre as labaredas, como espectros acusadores trs rostos jovens e fortes.
No dia seguinte dir-se-ia que nada de anormal acontecera, que a dor no os havia quase enlouquecido na vspera. Eram assim os guias: os obstculos fortaleciam-lhes 
o nimo e matavam-lhes as recordaes.
Deer Creek estava seco e o gado teve de passar o dia sem gua.

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Nova jornada de milhas e milhas de terra rida e areia solta tornou precrio o estado dos animais que, durante toda a noite, mugiram em altos berros, no deixando 
os homens sossegar. Se, na manh seguinte, o brao sul do Canadiano estivesse, tambm, seco e poeirento, seria o fim. Nessa mesma noite, alguns ndios passaram por 
Moze
e gritaram:
- No h gua! Bfalos a Oeste! De madrugada, os guias apontaram a manada, incitando-a sem piedade. O Sol nasceu, vermelho, no cu cor-de-cobre, e um manto pesado 
de calor envolveu a Terra. A milhas de distncia do Canadiano os animais farejaram a gua e foi impossvel det-los. Mal os da frente comearam a correr, toda a 
manada fugiu, como se obedecesse a uma voz de comando, e os homens tiveram de acompanh-la, num galope desenfreado, embora sem esperana de conseguirem det-la. 
No corriam; rolavam com fragor mais forte do que o trovo, estremecendo a terra e erguendo grandes nuvens amarelas de poeira.
S o rio conseguiu sust-los, evitando a Brite considervel prejuzo.
Uma vez atravessado, sem novidade, o brao sul do Canadiano, e de novo cavalgando numa plancie onde abundava o pasto, os guias esqueceram dores passadas e olharam 
apenas para a frente. Dia aps dia, a Pista ia sendo vencida. Em Wolf Creek descobriram a to temida manada de bfalos, estendendo-se para Este. Texas Joe resolveu 
descansar um dia naquele excelente acampamento, a fim de recuperarem foras e nimo para as provaes que ainda teriam de vencer. A noite, ardente, pressagiava trovoada; 
mas as horas pasmaram interminveis, e no choveu. Prevendo novo temporal o capataz conduziu o gado para o extremo de um estreito vale, entre encostas escarpadas 
e fcil de guardar.


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- No gosto deste tempo - observou Whittaker, quebrando o sombrio silncio que se estabelecera  volta da fogueira.
- Haver quem goste? - ripostou Texas, abatido. - No entanto, uma boa chuvada ajudar-nos-ia...
- Sim, se fosse de gua!
- Hum, o meu cabelo est muito estaladio!... - agourou outro.
- Como esto os cavalos de muda, Reddie?
- Inquietos. Farejam o ar, martelam o cho e no sossegam.
Brite estava, tambm, preocupado, pois a cor do cu e a atmosfera irrespirvel pressagiavam uma daquelas tempestades magnticas, devastadoras e temveis, a que a 
regio era propcia. Recordava o que ouvira contar tantas vezes e to incrvel lhe parecera, mas em que tinha, agora, de acreditar, pois se desenrolava ante os seus 
prprios olhos: o pr do Sol, de um vermelho to esquisito; o lusco-fusco, to absolutamente sereno e ardente; o cu, sombrio, que mal deixava tremeluzir as plidas 
estrelas; a fantasmagoria da terra, que parecia perdida no espao!
-  o fim do mundo! - exclamou Texas Joo que, apesar de habituado  fria dos elementos, era, como todos os guias de gado, supersticioso em extremo e concedia  
Natureza uma omniscincia misteriosa.
- Linda noite para estar em casa, a fazer tagats  minha pequena! - brindou Rolly Little.
- Rolly, meu amigo, no voltars a casa nem vers mais a tua bela ruivazinha! - murmurou Deuce Ackerman, fatalista.
- Tambm me parece... Todas as ruivas so frvolas e voluveis - filosofou Texas.
Reddie bem o ouviu, mas pela primeira vez, no pensou em responder-lhe.
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- No  natural isto - murmurou, nervosa.
- Ora, pequena, o que quer que seja ter de suceder e passar, e talvez praza a Deus poupar-nos ainda desta vez! - respondeu Brite.
- Parece-lhe que ser uma daquelas tempestades em que a electricidade corre como gua? - inquiriu Texas.
- No sei, Texas; juro que no sei! Tenho ouvido dizer que quando o cu parece um grande globo branco, como uma luz a brilhar l dentro, abre-se e deixa cair um 
milho de estrelas, bolas, cordas de fogo e fascas!
Texas ergueu-se, carrancudo e grave, e ordenou.
- Todos a cavalo! Se temos de ir para o inferno iremos juntos! Vamos ter com os que esto de guarda!
- Que se passa? - gritou Less Holden, vendo-os aparecer.
- Andamos a brincar com a morte, vaqueiro! - respondeu Texas Joe.
E talvez tivesse razo. A claridade era tanta que os rostos dos homens brilhavam, como mrmore polido, ao luar, e no havia sombras nem escurido, embora fosse de 
noite e no se vissem estrelas nem Lua.
- O gado aqui est bem, a no ser que se espante - observou Texas. - Como est a manada?
- No come. Os cavalos esto sossegados.
Brite seguiu Reddie at junto da reserva, reunida num grupo compacto, sob a vertente do lado oeste, ngreme e alta, que no lhes permitiria fugir.
Ao sentirem-nos aproximarem-se, os animais comearam a bater com as patas no cho, inquietos.
- No tem importncia, pap - murmurou Reddie, mais para si do que para Brite.
- No podes cantar qualquer coisa, para ver se sossegam?

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- Tentarei, embora esta noite no me apetea fazer de rouxinol...
Em voz baixa e trmula, a jovem comeou a cantar "La Palotiia", mas,  medida que as estrofes se sucediam, a sua voz doce e lamentosa tornava-se mais forte. A atmosfera 
estranha que os envolvia parecia aumentar-lhe o volume, de tal modo que, por fim, sob a sua sonoridade e beleza, os vaqueiros pareciam fascinados. Texas Joe esperou 
que ela terminasse para cantar, tambm, ele que raramente o fazia, expandindo a sua voz de tenor impetuosa e vibrante. A pouco e pouco, todos se lhe juntaram, enchendo 
de msica o vale solitrio.
Os cavalos estavam, de novo, sossegados, assim como o gado, e os guias foram cantando em coro, em quarteto, em dueto e em solo, at esgotarem o seu reportrio e 
exaurirem a sua fora vocal.
Quando se calaram era j tarde e os relmpagos rasgavam o cu, plido ainda...
Esperaram, inquietos, no ousando fumar nem mexer-se, muito juntos uns dos outros e falando com frequncia. Aparentemente, a tempestade ainda estava longe, mas a 
luminosidade aumentara e o ar tornara-se mais pesado, como se um cobertor transparente casse sobre os homens.
Subitamente, barras de fogo cruzaram o cu, ao mesmo tempo que se ouvia um rudo estranho, como se o prprio firmamento estalasse e se fendesse. Comeou a chover, 
mas Brite esperou, em vo, que trovejasse, at que acabou por ter a certeza de que iam presenciar uma das terrveis tempestades de que tanto ouvira falar.
- Vai ser uma das tais, rapazes! - gritou.
- Passe a mo pela crina do seu cavalo, pap! - gritou Reddie.
Brite assim fez, surpreendendo-se de ver e ouvir faiscar perto

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das orelhas do animal, que escouceou como se recebesse um tiro. Brite no repetiu o gesto e olhou para o cavalo de Reddie. Passava-se o mesmo com ele: dir-se-ia 
que um fludo elctrico, uma luz esverdeada, percorria a crina do animal, at s pontas das orelhas, de onde saam pequenas fascas. Era evidente que o valoroso 
animal no gostava de tal fenmeno, mas mantinha-se firme, apenas ligeiramente empinado.
- A atmosfera est carregada - murmurou Brite, para
dizer qualquer coisa.
- Pois est e... vai rebentar tudo! - gritou Reddie, ao mesmo tempo que a plancie se iluminava sob a abbada
branca do cu.
Os guias soltaram um grito dilacerante e ficaram mudos de espanto e pavor. Brite cerrara os olhos, cego pelo imenso claro, mas mesmo com eles fechados, com as plpebras 
apertadas, via os relmpagos iluminarem o cu. Contudo, no trovejava: os clares saam de todos os lados, na direco do znite, e, fundindo-se num s, terrvel, 
pareciam incendiar o firmamento.
Os cavalos uniram-se mais, to assustados que nem se moviam, e o gado tremia, de cabea baixa, e mugia tristemente.
No havia escurido nem se reflectia no solo a sombra dos cavaleiros. De sbito, os clares dividiram-se, como que bifurcados, e espantosas fitas de fogo branco 
riscaram o cu, logo transformadas em longas e simples cordas
de luz.
As montadas dos guias iam-se aproximando-, por iniciativa prpria, e, desobedecendo aos cavaleiros, esfregavam os flancos uns nos outros e uniam as cabeas, procurando
escond-las.
-  terrvel, meu Deus! - exclamou Texas, arquejante. -  melhor sairmos daqui; quando este inferno terminar o gado ficar doido.

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- Agora, esto paralizados pelo medo - murmurou Holden. - Olhem, alguns esto a cair!
- Saiamos daqui, homens! - ordenou Brite.
Abandonaram a estreita garganta seguidos pelos cavalos de reserva, de cabeas voltadas para a encosta, de tal maneira que foi a recuar que deixaram o vale.
As fitas de luz aumentavam em nmero, em intensidade, em comprimento e em largura, at se fundirem num docel do tamanho do cu, to azul que os olhos dos homens 
no suportavam o seu fulgor. Nenhum deles saberia dizer quanto tempo durou o fenmeno; quando descerraram as plpebras, o claro azul seccionara-se em incontestveis 
bolas de fogo.
Brite julgou endoidecer, assim como os seus destemidos vaqueiros, ao ver, com os olhos muito abertos, as bolas de fogo aparecerem por todos os lados, rolarem pelas 
encostas e estoirarem, desfeitas em mil fascas, como se algum oculto se divertisse a jog-las em todas as direces. O velho rancheiro tomou nos braos a quase 
desfalecida Reddie e apertou-a com fora ao peito, esperando a morte a todo o momento. As bolas aumentavam em nmero, tamanho e velocidade, entrecruzavam-se no cho, 
desfaziam-se em chispas ou uniam-se numa bola maior. Com grande pasmo dos homens, corriam sobre os cavalos, detinham-se-lhes nas orelhas, saam-lhes pelas narinas, 
giravam sobre as rdeas, saltavam para as abas dos chapus - de tal modo que tudo aquilo lhes parecia iluso de ptica ocasionada pelo pavor. S se admiravam de 
ainda estarem vivos-, de no terem j cado, fulminados.
Brite sentia um calor intenso e sulforoso envolver tudo, e reparou que as bolas de fogo, tal como acontecera s faixas precedentes, se transformavam, com um som 
esquisito, numa neblina branca e transparente.

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O ar estava saturado de enxofre queimado e o oxignio que continha, mal chegava para manter vivos homens e animais. Aqueles tossiam, meio sufocados, e s devido 
a grande fora de vontade Brite no caiu do cavalo, arrastando consigo Reddie, que estava inconsciente nos seus braos. De sbito, todos se olharam, atnitos: a 
manada estava envolta naquela cortina plida e misteriosa e deixara-se de ouvir o som rascante das fascas.
Lentamente, a neblina foi subindo, como um vu que se levanta, e descobrindo as formas negras dos cavalos e cavaleiros. Uma brisa fresca sucedeu ao calor sufocante, 
e um estremecimento de vida percorreu o gado, dando novo nimo aos vaqueiros.
- Acabou-se o inferno, camaradas! - gritou Texas. - J passou, amigos! Acabou-se a tempestade e estamos vivos, todos vivos, para contar a histria! Vivam os homens 
de Brite! Viva! Viva! A manada move-se! Aguentem! Guiem-na, vaqueiros! Louvado Deus, a nossa sorte  grande! M, no; grande, sim; muito grande! E chegaremos a Dodge, 
chegaremos a Dodge! Guiem-nos, homens! Carreguem e atirem a matar! A noite findou, vem a novo dia! - Viva! Viva! - gritaram os vaqueiros, exuberantes, reunindo 
o gado de volta ao seu lugar.
No regresso ao acampamento, Brite amparou Reddie, que cambaleava na sela.
- E os meus cavalos? - perguntou, com um soluo, a jovem. - Como esto?
- Esto bem, filha, guardados pelos rapazes. Descansa que olharo por eles.
S a realidade do nascer do Sol, o ar calmo e doce, a solidez da terra sob os ps e o pasto abundante, foram capazes de vencer o pesadelo daquelas horas de tormenta.
Texas chegou ao acampamento, deixou-se cair do cavalo e coxeou para junto do fogo, abrindo os braos como se quisesse abarcar toda a doura da alvorada.

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- A caminho, homens! - ordenou. - A manada est apontada. Caf, quero um galo bem medido de caf! - e deixou-se cair pesadamente sobre um fardo, amparando a perna 
doente. - Creio que os meus pecados esto expiados; todo o inferno que merecia o sofri, a noite passada, de uma s vez!
Aps mais cinco dias extenuantes e interminveis a leva ultrapassou o brao norte do Canadiano e acampou em Rabbit Ear Creek. No dia anterior, haviam passado por 
Cam Supply, a meio da manh, e Texas Joe tivera a sensatez de parar.
O lugar regorgitava de soldados, ndios, vaqueiros e homens barbudos sem ocupao aparente, e corriam boatos acerca do massacre dos passageiros do comboio que Hardy 
tencionava apanhar, em Forte Still; de desastres acontecidos a levas de gado; de faanhas de salteadores que eram dirigidos no Kansas e assaltavam em territrio 
ndio; de vinte milhes de bfalos entre os rios Canadiano e Arkansas - em suma, do inferno que parecia reinar em Dodge e Abilene. Brite tudo ouviu e tudo calou, 
dizendo para consigo que os seus rapazes tinham j preocupaes de sobra e mereciam que se lhes poupasse o relato de tais horrores.
- Que dia  hoje, mais ou menos? - perguntou Whittaker, com ar sonhador, quando estavam no acampamento.
- No vs que o Sol est a pr-se, meu parvo? - zombou Ackerman.
- Bem vejo, mas queria saber o ms e o dia.
- Ah, isso s Deus sabe! A mim nem me interessa...
- Apostava as minhas esporas em como o Less Holden  capaz de te informar!  um tipo esquisito, mas gosto dele.
E tu?
- Sei l! - replicou Deuce, carrancudo.
Brite notara mais de uma vez como os rapazes do Uvalde eram dedicados uns aos outros e como Ackerman parecia ciumento de Little, agora que os outros haviam desaparecido. 
Sobretudo a perda de San Sabe perturbara dolorosamente Deuce.
- Vou perguntar-lhe - insistiu "Whittaker. - Eh, Less, s capaz de me dizer em que dia estamos?
- Claro! Sou um calendrio ambulante! - exclamou Holden, senhor de si, tirando a bolsa do tabaco da algibeira. - Mas no digam nada ao Tex, pois ele nem quer saber 
a data em que estamos. - Tirou da bolsa um punhado de pequeninos seixos e comeou a cont-los, cuidadosamente: - Irra, cinquenta e seis dias de viagem! Cinquenta 
e sete, com o de hoje! Rapazes, faltam s trs dias para completarmos dois meses de Pista!
- J? - admirou-se Whittaker.
- Nesse caso, estamos quase em Agosto... - ponderou Deuce, pensativo. - Devemos alcanar Dodge em fins de Agosto, portanto. Estou preocupado por causa do comboio 
de Forte Still.  verdade, patro, esquecia-me de perguntar-lhe se ouviu falar desse comboio que o Doan esperava?
Brite no foi capaz de fitar os olhos negros e ansiosos do rapaz, nem de dizer-lhe a verdade...
No dia seguinte, a meio caminho de Sand Creek, Texas Joe ergueu-se nos estribos e assinalou bfalos. Dia aps dia vinham  espera de tal notcia, pois a grande manada 
devia atravessar a Pista Chisholm algures ao norte do
Canadiano.
No tardou que Brite visse, tambm, as manchas negras e irregulares dos bisontes, que mal pareciam mover-se, mas que se aproximavam cada vez mais.

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Texas Joe ordenou que parassem, ainda cedo, todas as conversas convergiram para o assunto dos bfalos.
- No haver nada a recear se seguirmos na direco deles - observou Bender.
-  s isso que sabes?
- Talvez retrocedam para Oeste, de manh...
- E se continuarem para Este... atravs da nossa Pista?
- Os guias de gado nunca voltam para trs!
- Seremos cercados por milhares de bfalos? Gado, cavalos, carro, guias, tudo?
-  muito provvel. J ouviu falar em tal coisa, patro?
- Em qu? - disfarou Brite, que compreendera perfeitamente.
- Em caravanas completamente cercadas pelos bfalos.
- Acontece com frequncia levas de gado seguirem a par de manadas de bfalos...
- Hum!... E que acontece, se os bfalos lhes d para desatarem a correr, espantados? Trinta milhes de bfalos a correrem todos ao mesmo tempo?...
- Isso  inconcebvel, rapazes.
- Apostava o meu ltimo cigarro em como pode acontecer.
Eram assim as conversas deles. Uns mostravam-se optimistas, outros pessimistas, mas todos, sem excepo, ousados, destemidos, inalterveis!
De manh, viam-se j longas filas de bfalos atravessando a Pista, e, durante todo o dia, a manada teve por companhia monstros hirsutos. Passaram por pequenos e 
grandes grupos, centenas de uma vez, dois ou quatro de outra, pastando pachorrentamente, satisfeitos e indiferentes.
Sand Creek proporcionou-lhes excelente acampamento e bom pasto para o gado. Os touros pareciam to satisfeitos quanto os seus irmos bisontes, deitavam-se cedo e 
no davam trabalho aos guias, que at conseguiam dormir na sela.

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No dia seguinte, a Pista seguiu por Sand Creek e os rapazes andaram preocupados com as descargas de caadeira que se ouviam, a Este e a Sul. Ou se tratava de caadores 
que atacavam os bfalos, ou de outras levas que se aproximavam. Nesse mesmo dia, uma longa e compacta coluna daqueles animais atravessou por detrs da manada e, 
virando para Norte, seguiu paralelamente o gado. Para a rectaguarda e para Oeste aquela onda negra, avanando imperceptivelmente, ia aumentando devagar e aproximando-se 
cada vez mais da leva de Brite. Como parecia agora insignificante e reduzida a sua manada de seis mil cabeas! Apenas um simples ponto na infinita plancie.
No entanto, pelo menos at onde a vista alcanava, o caminho a Norte e a Oeste continuava livre e aberto. Brite pensou, por isso, que atravessara mesmo  frente 
da grande massa de bfalos e que podia seguir assim, tranquilamente, durante dias... a no ser que uma simples nuvem de poeira, o chicotear de um redemoinho de vento 
ou algo semelhante, inevitvel e imprevisvel, a espantasse, transformando os pachorrentos animais numa avalanche descomunal e destruidora.
Sand Creek desaguava em Buffalo Creek, um ribeiro frio e profundo, marginado de salgueirais e de toda a luxuriante vegetao da pradaria. Texas Joe acampou perto 
do ponto onde as duas correntes de gua se uniam.
- Descansaremos aqui um ou dois dias - disse. - Que algum abata um bfalo... um belo bife do lombo calhava bem! A Reddie quer matar algum?
- No. Tenho um corao demasiado sensvel... - troou a jovem. - Vi muitos bfalozinhos e tenho medo de matar a me de algum deles...
- Corao sensvel, bem? Raios me partam! - praguejou Texas,

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que nos ltimos tempos evitava as habituais disputas com Reddie. - E ns que estvamos convencidos de que voc era uma matadora fria!
- No me importo de matar peles-vermelhas, canalhas, gatunos... e um ou outro guia, para variar.
- Compreendo... Mas referia-me a matadora com a sua arma e no com os seus caracis ruivos, os seus olhos atrevidos, a sua elegncia que nenhuma roupa de homem pode 
disfarar... Afinal voc  assassina das duas maneiras!
Reddie desapareceu num pice, encerrando, assim, toda a conversa agradvel.
- Gostaria bem que o Hash Williams ainda estivesse connosco - murmurou Texas, pouco depois, como se falasse consigo prprio.
- Ora, Tex, que diferena faria isso, agora?
- Muita! Se, ao menos, soubssemos o que os malditos bfalos vo fazer!
- A ns s nos resta continuar para a frente...
- Tal vez os bfalos se desviem...
- Aquela manada? No o far, este Vero. So tantos como os tufos de grama que h por a!
- Que acha o patro? - perguntou o capataz, desejoso do que algum compartilhasse as suas ideias.
- Esperemos at amanh - aconselhou o velhote.
A manh seguinte trouxe-lhes menos bfalos  vista e maior espao livre. No entanto, a Sul e a Oeste havia manchas negras sobre o capim verde...
- Aponta a manada! - ordenou Brite, indeciso entre esperanas e temores.
- Ia faz-lo - resmungou Texas. - S se morre uma vez e se temos de morrer que seja depressa! Isto de ir morrendo todos os dias a todas as horas  como tentar conquistar 
o amor de uma mulher.
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Se Joe soubesse, se visse, como Brite, a luz que brilhava nos olhos de Reddie, aprenderia que essa conquista era bem fcil e que, para a levar a efeito, bastavam 
pequenos nadas a que ele teimava no ligar importncia.
Avanaram e os bfalos foram-nos cercando, cada vez de mais perto. Manada, cavalos de reserva e guias eram o centro de uma ilha verde rodeada de vagas negras, alterosas 
e invencveis, de uma ilha que tinha um par de milhas no maior comprimento e mais ou menos outro par na maior largura, formando um crculo quase perfeito.
Brite sabia que os touros no temiam os bfalos, pois lembrava-se bem de como berravam e erguiam os potentes chifres quando os topavam no seu caminho, mas, para 
uma manada descomunal como aquela, o seu gado e os seus cavalos no passariam de meros gros de areia sob as suas
patorras.
Pelo meio-dia, Brite teve a impresso de que algo se modificara, de que os bfalos se apressavam por qualquer motivo, mas ficou sem saber que deciso tomar, pois 
era impossvel descobrir as intenes dos bichos.
- Ouo qualquer coisa l para trs, pap - disse Reddie, cheia de medo.
- O qu?
- No sei bem; parece o vento nos pinheiros... Brite apurou o ouvido, mas em vo. Texas deteve o cavalo e voltou-se na sela,

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de p sobre os estribos. Tambm ouvira qualquer coisa... Os bfalos estavam apenas  distncia de uma milha, e avanavam a passo mais largo, sem se importarem com 
o pasto.
- Ouo outra vez, pap!
Pan Handle contornou a rectaguarda da manada e foi juntar-se a Texas, olhando para o mesmo lado que ele, assim como todos os vaqueiros. Fosse o que fosse, a verdade 
era que o gado continuava a andar pachorrentamente, como se tremendo perigo o no ameaasse, e s os pequenos cavalos espanhis denunciavam inquietao, trotando 
de um lado para o outro, com as orelhas erectas e a cabea voltada para o Sul. Ao v-los, Brite sentiu o corao desfalecer-lhe e esforou-se por no pensar, por 
no escutar a voz da conscincia.
- Agora ouo ainda mais forte! - avisou Reddie, que correra para junto dele.
- E como , filha?
- Parece trovoada, ao longe... Talvez seja uma tempestade a aproximar-se...
O cu, porm, mostrava-se azul e sereno, sem nuvens. Algumas milhas  rectaguarda, ao fundo da linha negra e irregular de monstros hirsutos, erguia-se uma espcie 
de fumo amarelado. Nuvens de poeira! Brite preferiria ser cego, a ter de ver tal coisa.
- Olhe, poeira! - gritou Reddie, assustada, apontando com a mo trmula.
- Talvez no seja nada de grave - murmurou Brite, desviando os olhos.
- Vem a o Texas. Olhe para o cavalo dele!
O capataz galopou para junto de trs outros vaqueiros e, aps breve concilibulo, um deles correu para Este, rodeando por a a manada, e Texas foi ter com Brite.
- Ouviu alguma coisa, patro? - perguntou, com o rosto tenso e os olhos em fogo.
- Eu, no; mas a Reddie ouviu. S vi poeira, l para trs...
- Espantaram-se! - berrou Texas, confirmando os seus receios.
- Oh! Meu Deus! - gemeu Reddie, acabando por compreender o que se passava. - Estamos cercados por eles! Que faremos, Jack?
- A ameaa tem-nos acompanhado todo o caminho e creio bem que se cumprir agora... Se aqueles brutos caem sobre a manada,

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temos uma probabilidade, em mil, de escaparmos; mas, mesmo para isso,  preciso que o gado se mantenha unido na rectaguarda, num grupo compacto, como est agora. 
V para l, Brite, e boa sorte! Quanto a si, Reddie, se os bfalos se aproximarem v para o vago. Um carro grande e pesado, como o nosso,  bem capaz de fender 
uma manada que esmagaria os cavalos.
- Oh, Jack! No se v embora... enquanto eu... Quis correr atrs dele, mas Tex acenou-lhe com a mo, num adeus, e foi ao encontro de Moze, que se aproximava a trote. 
Devia ter-lhe dado ordens alarmantes, pois o negro incitou a parelha e partiu a galope. Texas esporeou a montada e retrocedeu para a esquerda.
Brite e Reddie conduziram os cavalos de muda para a rectaguarda, atrs dos vaqueiros, e, pouco depois, juntou-se-lhes Moze. Tomaram todos os seus lugares, de acordo 
com os movimentos da manada. Eram apenas sete, atrs do
gado...
Brite voltou a observar os bfalos. Aparentemente, o imenso oval verde que rodeava o gado permanecia to grande como dantes, mas quem poderia garantir que no se 
estreitara ou encurtara? S uma diferena era visvel: moviam-se a passo lento, por todos os lados. Quis convencer-se de que tudo corria bem e esforou-se por dominar 
os nervos, mas foi trabalho intil; no fundo de si mesmo sabia que algo de terrvel ia passar-se. Consigo, pouco se importava, embora no lhe agradasse a ideia de 
ser pisado por milhes de patas e reduzido a uma polpa sangrenta; mas Reddie e o seu amor, e todos aqueles homens valentes e leais que o seguiam, no lhe deixaram 
o pensamento. Deus  que mandava, porm! Orou mentalmente por todos eles e, depois, como um bom texano, preparou-se para lutar at ao ltimo arranco de vida.

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Olhou para trs, corajosamente, para avaliar o mais depressa possvel o que os esperava. Nos bfalos no se notava alterao, mas a nuvem amarela subira mais alto, 
encobrindo o cu, a meia distncia do znite.
Os seus ouvidos encheram-se, de sbito, dum som cavo e longnquo, e gritou:
- Tambm ouo, Reddie!
A jovem, porm, correra para junto de Texas Joe e este, num gesto autoritrio, mandava-a para o carro.
Apesar de todas as aparncias, Brite recusava-se a pensar no pior. No haviam sido j poupados, mais do que uma vez, nesta leva fatal, por uma fora invisvel e 
poderosa? "Quien sabe?" - murmurou, por entre os dentes cerrados.
Ambos os flancos da grande massa de bfalos se haviam modificado profundamente. Onde h pouco se notava, apenas, ligeira ondulao, imperava, agora, o tumulto. Os 
da frente, porm, ainda caminhavam a passo lento, no obstante o barulho aumentar cada vez mais. O cavalo de Brite resfolegava e escarvava a terra, e era preciso 
espore-lo, como a todos os outros, para no fugir. A prpria reserva escouceava, tornando-se difcil sust-la atrs do gado.
Esta situao manteve-se durante instantes, at que Texas ergueu as mos, de modo estranho, avisando-o de que os bfalos vinham a galope. Segundos mais tarde, o 
som cavo adquiriu intensidade capaz de amedrontar o mais ousado, e a distncia que separava a rectaguarda da caravana da manada de bfalos comeou a decrescer a 
olhos vistos. Ao mesmo tempo, de ambos os lados,  frente, os monstros principiaram a apertar o cerco, aproximando-se e formando uma parede impenetrvel e movedia.
Sentindo o perigo, o pachorrento gado comeou a correr, tambm, o que poderia ter o condo de apressar o desfecho por que Brite ansiava, fosse qual fosse. A reserva 
parecia mais sossegada e Moze continuava a conduzir o carro, atrs dela,

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Acima do estrondo provocado pela corrida dos bois, ergueu-se outro que o reduziu a nada: o do galope dos bfalos espantados,  rectaguarda da colossal manada. Tal 
rudo, se, por um lado, obrigava o gado a fugir, por outro forava a vanguarda dos bisontes a apressar, tambm, submergindo tudo, como uma onda cada vez maior e 
mais
possante.
Chegara o momento trgico, em que o desejo de fugir enlouquecera todos os brutos, e Brite sentiu o cho oscilar sob as patas dos cavalo e os seus ouvidos quase rebentarem 
com tanto barulho. De repente, porm, deixou de ouvir e, como de comum acordo, bois e cavalos romperam num galope desenfreado.
Olhou para trs. Um milhar de cabeas hirsutas e de cornos hediondos formava a primeira fila, a escassas cinquenta jardas, ganhando terreno gradualmente, mas devagar. 
Durante algumas milhas, o gado acompanhou o andamento dos bfalos, enquanto o crculo se ia apertando. Os touros investiam contra aquela parede negra, de plo crespo, 
e eram atirados ao cho e esmagados.
Os olhos de Brite viam,  sua frente, um vasto mar negro, uma mar ondulante, como se uma enxurrada de peles cobrisse a pradaria por todos os lados. Apesar da tragdia 
que viviam, Brite sentiu-se empolgado pela magnificncia do cenrio, pensando para consigo que a Natureza concedera aos seus hericos rapazes um cenrio digno do
seu fim.
Texas Joe, de um dos lados do carro, e Pan Handle, do outro, disparavam no focinho dos bichos que se aproximavam demais. A parelha de Moze galopava, os cavalos de 
reserva galopavam, as seis mil cabeas de gado galopavam... Mas onde? Perdidos, como gros de areia, naquela horda de bestas.

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Quando os bfalos cobriam a terra completamente a poeira obscureceu a viso de Brite, que apenas lobrigava indistintamente e a pouca distncia. Nem por isso, contudo, 
perdeu de vista Reddie e o carro, esperando, a todo o momento que este se voltasse ou perdesse uma roda, devido aos balanos que a velocidade lhe imprimia.
Apenas a reserva se mantinha unida. Todos os guias, excepto Pan Handle, Texas e Reddie, estavam cercados de bfalos. Os estribos do cavalo do velho roavam pelos 
monstros, que o faziam oscilar de um lado para o outro.
Bender, no seu cavalo branco, era um alvo demasiado exposto... Brite viu-o afastar-se para um dos lados... o cavalo branco cair... e o stio onde ele estivera ficar 
coberto de corpos negros. No podia mais, no queria ver mais nada, sobretudo no queria ver Reddie, a sua Reddie, sacrificada a to atroz destino! Cerrou os olhos, 
com fora.
Entretanto, a fuga desordenada prosseguia, aquela fuga que, talvez, um nada provocara e to terrveis consequncias podia ter. Um empurro violento quase o arrancou 
da sela e Brite abriu os olhos a tempo de ver um monstro gigantesco passar. Louco de medo disparou sobre ele e logo outros o pisaram e esmagaram. Por vezes, conseguia 
ver nesgas de cho, mas num instante tudo voltava a ser amarelo, infernal, movimentado. Tinha de acabar, tinha de haver um fim para semelhante horror! O gado seria 
capaz de continuar a correr um dia inteiro, mas os cavalos, apavorados, acabariam por cair, como o de Bender.
Reddie e Texas cavalgavam junto do vago; portanto, com bfalos apenas do lado exterior. Brite olhou-os, como se estivesse certo de v-los pela ltima vez. Agoniado, 
aturdido e cambaleante, agarrou-se  sela, certo de que o fim estava perto. Vivera muito... O gado fora a sua Nemsias... Oh, se no fosse Reddie!...
De sbito, pareceu-lhe que os seus ouvidos se abriam, que se enchiam de sons, que ouvia de novo! Num ltimo esforo,

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o crebro enevoado raciocinou: se ouvia era porque o estrondo diminuira, porque a fuga abrandara! Oh, sim, abrandara! Via pedaos de cu e via gua, por entre as 
nuvens amarelas. Abrandara! Haviam chegado ao Cimarron! A sua alegria era to grande que comeou a ver tudo negro  sua volta, e lutou com todas as foras que lhe 
restavam, para no perder a conscincia, agora que tudo ia terminar. Continuava a ouvir barulho, sentia o cavalo arrastar-se pela areia... mas dir-se-ia que no 
era ele prprio, que o seu corpo e o seu esprito se haviam separado. Sentiu ainda um brao rude segur-lo e um homem gritar-lhe aos ouvidos... mas mais nada.
Brite fitava, estupidamente, o largo rio coalhado de gado, que parecia flutuar na direco de uma ilha, e, a pouco e pouco, foi compreendendo o que se passara: a 
fuga terminara no Cimarron, onde os bfalos se haviam dispersado  volta da ilha.
- A Reddie? - perguntou, quando o tiravam da sela.
- Estou aqui, pap, s e salva! No me v?
- E... todos?
- Estamos aqui, menos Bender e Whittaker.
- Sim... Vi o Bender... cair.
- Podia ter sido pior, patro! - exclamou Texas, agradecido.
- Viu-me cair tambm? - perguntou Reddie. - Fui atirada por cima do cavalo, mas aquele vaqueiro apanhou-me, como se eu fosse uma pena!
- Que vaqueiro, filha?
- Texas... Jack!  a segunda vez!
- Parte do nosso gado foi-se com os bfalos - interrompeu Tex, prtico como sempre, afastando a rapariga. - O resto anda espalhado por a. Metade dos cavalos de 
reserva desapareceu, tambm, mas, louvado Deus, estamos aqui, vivos, no Cimarron!

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Quando os malditos bisontes se sumirem, reuniremos o que restar e continuaremos o caminho.
Antes de anoitecer, j os ltimos bfalos tinham desaparecido. Entretanto, haviam acampado num local elevado e dois homens consertavam o vago, enquanto Moze cozinhava 
bifes. Pan Handle esmerava-se a limpar as armas e Texas Joe andava de um lado para o outro, seguindo Reddie com o olhar inquieto. O pesadelo passara, haviam vencido 
outra vicissitude da Pista.
Os guias que restavam a Brite levaram quatro dias para reunir cinco mil cabeas de gado. O resto perdera-se, assim como cem cavalos. Apesar de tudo, como os incansveis 
rapazes no se fartavam de frisar, tinham mais quinhentas cabeas do que quando haviam iniciado a leva!
Todos os dias diversas manadas passavam o Cimarron, chegando a juntar-se cinco num dia! A maior parte dos guias gabava-se de ter tido sorte, at ali, resumindo-se 
os contratempos sofridos a pequenas surrafuscas com "Cavalo Negro", umas desgarradas sem importncia, uma tempestade magntica que os atrasara e uma saraivada que 
matara alguns bezeros.
Um vaqueiro grandalho, de rosto corado e violento, gritou-lhes, acenando com a mo:
- Estamos na ltima etapa da Pista! No falta muito para eu estar a cair de bbado!
Brite continuou a avanar no quinto dia, com o gado e os cavalos folgados e refeitos e os vaqueiros andrajosos como espantalhos, magros e macilentos, mas cheios 
de coragem.
Em todos os acampamentos que se seguiram tiveram companhia. Snake Creek, Bear Creek, Bluff Creek e, finalmente Mulberry Creek, a escassas milhas de Dodge.

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No ltimo, o Sol ps-se num deslumbramento de ouro e carmin sobre a vasta pradaria, e os rancheiros chamaram os guias para tagarelarem:
- Hoje em dia Dodge parece outra! - disse um deles.
- Tiros, bebida, jogo e mulheres pintadas! Elas esperam-vos, rapazes, essas bonecas pintadas e decotadas, assim como os baralhos de cartas!
- "Whoope"! - gritaram os rapazes, excitados, com excepo de Deuce, que permaneceu calado.
- Ainda bem que sou livre! - berrou Texas Joe, olhando para a cabea baixa de Reddie e piscando o olho a Brite. - Ainda bem, pois esta Pista foi um inferno e deu-me 
de tudo! Quero receber depressa, patro! No beberei enquanto no encontrar o malandro do Hite e o encher de balas, mas depois arranjarei uma dessas raparigas de 
olhos bonitos, rosto claro, lbios pintados, braos nus e...
- No tem vergonha! - interrompeu Reddie, furiosa.
- Detesto-o! S pensa no vinho e nessas bonecas nojentas... esquece-se dos nossos rapazes... dos nossos camaradas mortos, para sempre, na pradaria! Como tem coragem 
para fazer tais coisas?
- Ser por isso mesmo que as farei, Reddie! - respondeu Texas, muito srio. - Custa muito a um homem esquecer os amigos, os camaradas que morreram a seu lado... 
Eu... eu... no tenho nada, mais nada... e uma mulher pintada!...
- Oh, mas tem! - gritou Reddie, apaixonada. - Tem! Doido, oh, doido!

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Captulo XVI


Dodge City era, na verdade, uma cidade barulhenta! Brite comparava o trfego, na rua larga, o p, o barulho e o arrastar de ps ao estrondo de uma desgarrada, na 
Pista.
Deixando o gado nas pastagens, j contado, correu  cidade, com Reddie, mas a pequena ficou a dormir, no hotel, no sabendo resistir  viso de uma cama, enquanto 
ele se dirigia ao escritrio de Hall & Stevens, com quem j negociara mais vezes. Receberam-no ruidosamente, antevendo negcio chorudo:
- Voc parece um pedinte, Brite! - exclamou o mais velho. - Por que no faz a barba e despe essa farpela?
- Amanh terei tempo de sobra para essas ninharias; agora, interessa-me vender e... dormir. Quanto pagam, este ms?
- Oferecemos doze dlares - respondeu o outro, com ar indiferente.
-  pouco. Tenho uma manada de cinco mil e oitenta e oito cabeas, digamos cinco mil e oitenta... Belos bichos e gordos que  um amor!
- Quanto quer?
- Quinze dlares. No interessa, Hall. O melhor gado  o meu.
- Treze...
- Nada feito. Vou ao Blackwell - respondeu, encaminhando-se para a porta.
- Catorze, o mximo! Vende?

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- Vendido! Virei amanh buscar o cheque. Entretanto, podem mandar os vossos homens tomar conta dos bichos.
- Combinado, Brite. Estou satisfeito e espero que voc tambm o esteja. Quantas cabeas calcula que chegaro antes de comear a nevar?
- Duzentas mil.
- Dodge vai ficar lindo, em fins de Agosto! - exclamou Hall, esfregando as mos.
- Bem, tenho de andar.
- No precisa de dinheiro, para pagar?
-  verdade, j me esquecia! Arranjem uns dois mil e quinhentos dlares. Bons dias.
Chegou ao hotel ofegante e mal se tendo nas pernas. Deu cinco, dlares a um preto para lhe arranjar gua, tomou banho, barbeou-se e adormeceu mal encostou a cabea 
 almofada.
Acordou-o uma pancada na porta, na sua opinio, pouco tempo depois de adormecer.
- Est morto, pap?
- Entra!
- Viva, todo bonito - troou Reddie, olheirenta, sentando-se na cama. - Lavado e barbeado, seu tolo! Comprou roupa nova?
- Ainda no. Fica para de manh.
- De manh? J so dez horas! Quando se deitou?
- s quatro! Dezasseis horas a dormir! --Onde est... onde esto os rapazes?
- A dormir, tambm, no te preocupes. Ho-de aparecer por a,  procura do dinheiro.
- Faz-me um favor, pap?
- Com certeza; tudo quanto quiseres.
- No lhes d... isto , pelo menos ao Texas Jack, o dinheiro.

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- No posso fazer isso, querida! - protestou Brite, admirado. - No tarda que ele a esteja.
- Mas ele ir embriagar-se, como prometeu, e... e...
- Mas com certeza, todos se embriagaro!
- E no poderei impedir o Jack de o fazer?
- Creio que sim, mas custar um bocado... Interessas-te assim tanto por ele?
- Oh... amo-o!
- Ento ser fcil! O pobre rapaz adora o cho que pisas!
- D o seu consentimento?
- Porqu, filha?
- Porque  o meu pai... e eu no me lembro do verdadeiro.
- Tu s tudo para mim, querida, e tambm gosto muito do Texas Joe.
- Ele no poder deixar de guiar gado? Se continuar a faz-lo, terei de acompanh-lo...
- Ganhei uma fortuna com essa leva... Espera, agora me lembro de que ainda tenho noventa e dois cavalos para vender!
- No pode vender o meu!
- Deixamo-lo com o Selton e ele manda-o para o Sul na primeira caravana.
Reddie levantou-se, corada e feliz, com o rosto queimado brilhante de lgrimas.
- Despache-se, pai, vamos fazer compras! Vou ter roupas de rapariga! Oh, parece um sonho! O pior  que no sei o que hei-de comprar... Ento, pap, depressa, no 
me atrevo a sair sozinha.
- No acredito...
Mal ela saiu, Brite apressou-se a vestir o fato velho e roto que trouxera e em breve caminhavam os dois pela rua principal de Dodge, onde, apesar do movimento, ainda 
no havia muito

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barulho, pois era cedo. Reddie era toda olhos, no deixava escapar nada. Vaqueiros, jogadores, carroceiros, pretos, mexicanos e ndios pejavam a rua, como se esperassem 
que acontecesse qualquer coisa.
Brite levou a rapariga ao grande estabelecimento de Denman e pediu a uma empregada que lhe fornecesse o que tivesse de melhor, sem olhar a despesas. Em seguida comprou 
um fato para si prprio, para o que no precisou de muito tempo. Demorou-se depois a conversar com um guia conhecido, chamado Lewis, e quando correu  procura de 
Reddie foi encontr-la, deslumbrada e feliz, sentada no meio de um monto de embrulhos que lhe deram grande trabalho a transportar para o hotel.
Mal chegou, a jovem trancou-se no quarto, com as suas preciosas compras.
Pouco depois, uma pancada na porta interrompeu Brite, que dava os ltimos retoques na indumentria.
- Entre.
- Bons dias, patro - saudou-o Texas Joe, satisfeito. - Santo Deus, como o senhor est fino!
- E tu tambm estars, em breve. Os rapazes?
- No sei, calculo que estejam a dormir. Vieram a Dodge s para se meterem na cama! Hei-de encontr-los em qualquer lado.
- E o Pan?
- Tambm est a dormir, para acalmar os nervos. No tarda que ande  caa do Hite.
- Ouve, Texas. Se eu te pedisse que tomasses o primeiro transporte comigo e com a Reddie, em vez de ires meter-te em pardias, fazias isso?
- Est a pedir demais, patro! Nesta leva aconteceram-me coisas espantosas, no sei ainda se boas, se terrveis...

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- Compreendo-te, mas  um favor que te peo. Anda comigo ao escritrio do Hall e ao Banco, e, depois,  loja onde comprei este fato.
- At a ainda  fcil... Ter a minha companhia at receber a massa... Estou lisinho, patro! E olhe que ainda tinha dinheiro quando sa de Santone! Santone!... 
Voltarei a v-la?
- Claro que sim! Vamos.
- Importa-se de ir do meu lado esquerdo? - perguntou Texas, ao chegarem  rua. - - Posso precisar de espao para agir... Se encontrarmos o Hite, o Pan fica a perder.
No o encontraram, porm. Quando voltaram ao hotel Texas alugou um quarto e foi mudar de fato, e Brite dirigiu-se ao escritrio de Blackwell, para vender os cavalos.
Na volta, foi rodeado por diversos conhecidos que, alegres, o interrogaram sobre diversas coisas, aludindo, sobretudo,  prosperidade do Texas e ao seu fato novo.
Brite reparou numa rapariga bonita, com um vestido colorido e alegre, que passeava no trio e atrara a ateno de um elegante de sobrecasaca. O atrevido dirigiu-se-lhe 
e Brite pensou, para consigo, que devia, primeiro, certificar-se se a jovem gostaria das suas atenes, para evitar desaires. Qual no foi, porm, o seu espanto 
ao ouvi-la dizer, numa voz familiar:
- Fique sabendo, seu bonitote, que se tivesse trazido a minha arma o faria danar ao p coxinho!
- Reddie! - exclamou Brite, reconhecendo-a.
- No me conhecia, pap? Empreste-me o seu revlver!
O homem no precisou de ouvir mais nada, para desatar a fugir, e Brite ficou a olhar, mudo e incrdulo, para a sua filha adoptiva.
- Mas s tu, Reddie?
- Claro! Isto , s quando me vejo ao espelho  que fico sem saber se sou eu! Oh, pap, sinto-me estranha, atormentada...


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e feliz! Aquela empregada tinha gosto, escolheu todas estas coisas bonitas para mim! Estou bem?
- Se ests bem? Nunca vi ningum to bonito como tu! Nem calculas como estou alegre! E pensar que s minha filha!
- Se estivesse noutro lugar dava-lhe um beijo! Acha que "ele" vai gostar de mim, assim?
- Ele quem?
- O Texas Jack, claro!
- Cair aos teus ps se lhe deres oportunidade!
- Olhe, vem a! Quase que nem o reconhecia, tambm! Ajude-me agora, pap! O meu amor vai estar em jogo! Se, ao menos, no me faltar a coragem...
- Lembra-te do Wallen, querida, e daquele dia dos bfalos! - foi tudo quanto Brite teve tempo de dizer.
- Patro... Quem?...
- No me conhece, Jack? - perguntou Reddie, atrevida.
- Valha-me Deus! - exclamou Texas.
- Vamos - disse a jovem, segurando cada um por seu brao. - Venha connosco ao quarto do pap, pois tenho uma coisa para lhe dizer.
Joe parecia em transe, ao acompanh-los pelas escadas acima, mas Reddie tagarelava sem parar, falando da cidade, dos habitantes e da alegria de terem chegado vivos 
ao fim da Pista.
Mal entraram, porm, no quarto de Brite a sua atitude modificou-se. Atirou o chapelinho para cima da cama, como se toda a vida o houvesse usado, e, girando sobre 
si mesma, perguntou, com voz suave e olhar meigo:
- Gosta de mim, Jack?
- Est encantadora, Reddie! No a teria reconhecido...
- Fica-me melhor este vestido do que as calas esfiampadas que usava, no acha?
- Melhor? Oh, agora j no  um rapaz,  uma rapariga, uma...

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senhora! Ningum que a tivesse visto na Pista gostaria de voltar a v-la vestida de homem!
- Com este vestido no ousaria espancar-me, pois no?
- No, meu Deus! - afirmou, corando at  raiz dos cabelos. - Alis nunca a espanquei como rapariga.
- Espancou, sim, pois sabia que eu o era. Tinha-me visto tomar banho... despida. No se atreva a negar!
Texas baixou a cabea, torturado. - No importa, perdoo-lhe. Agora oua o que queria dizer-lhe:  capaz de desistir de se embriagar?
- Lamento, "miss" Bayne, mas no desisto!  um previlgio dos guias de gado e ningum pode impedir-me de o aproveitar.
- Nem mesmo por mim o faria?
- Nem mesmo por si!
Reddie aproximou-se lentamente, muito branca, e perguntou, com os olhos a brilhar:
- E se eu o beijasse? Uma vez pediu-me um beijo...
-  cmica essa ideia! - e o rapaz soltou uma risada desdenhosa. - Voc a beijar-me!
- No me parece assim to cmica, Jack! Agarrou-lhe o casaco, com fora, ps-se em bicos de ps
e beijou-o. Ficou uns instantes encostada a ele e depois, lentamente, recuou.
Texas Joe estava hirto, de lbios cerrados, todo ele concentrado no esforo de se dominar. Haviam ambos esquecido, mais uma vez, a presena de Brite.
- Beijou-me... e eu envergonho-me de si, Reddie Bayne! A minha liberdade no se compra com um beijo!
- Oh, Jack, no se trata da sua liberdade, mas da sua
salvao!
- Bah, que me interessa a vida?! Tudo quanto quero  beber, lutar, matar e adormecer bbado, bbado, bbado!
- Eu sei, Jack, e compreendo. Tambm fui guia de gado,

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mas desejarei, porventura, esses horrores? No, no, e no! E quero poupar-lhos a si, tambm! A sua frieza enlouquece-me, Jack! Acabe com isto depressa, peo-lhe! 
Poupe-me!
- Estou a poup-la mais do que pode avaliar!
- Com certeza que h alguma coisa capaz de o fazer desistir dessa ideia horrvel! Mas o que ? Diga-me que farei tudo, tudo!
Texas Joe agarrou-a com fora, ergueu-a ao ar e encostou-a ao peito.
- Casaria comigo?
- Oh, sim, sim, sim!
- Mas porqu? - perguntou, cheio de espanto.
- Porque o amo - respondeu rodeando-lhe o pescoo com os braos e beijando-o nas faces - porque o amo muito!
- Ama-me, Reddie?
- Sim!
- Desde... quando? - quis saber, doido de alegria.
- Desde aquele dia em que o Wallen...
Texas beijou-lhe os cabelos, os olhos, as faces coradas e, por fim, a boca que se lhe oferecia.
- Oh, Reddie, valeu a pena todo aquele inferno s pelo prazer de te ouvir agora! Quando casamos?
- Hoje, se quiseres - murmurou, quase desfalecida - mas preferia esperar e casarmos em Santone... em casa de meu pai.
- Ento esperaremos! - concordou, ardente. - Mas temos de partir hoje, querida. Dodge est a aquecer demais para o meu gosto...
- Apressemo-nos ento! - exclamou, soltando-se-lhe dos braos e voltando-se suplicante para Brite. - Est tudo resolvido, pap! Quando podemos partir?
- Hoje - afirmou Brite, entusiasmado. - Embrulha as tuas coisas e vai para a paragem, ao fim da rua. Temos tempo,

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mas despacha-te!  o stio mais seguro para esperares por mim. Eu vou pagar aos rapazes e no tarda que l esteja, tambm.
Perdeu uma hora  procura dos rapazes e, ao voltar para o hotel, disposto a deixar l as soldadas e a parte que a cada um cabia no dinheiro de Wallen, encontrou 
Pan Handle, inteiramente modificado de aspecto e trajo, mas o mesmo nos gestos.
- Andava  tua procura, Pan. Aqui est a tua soldada de guia e a tua parte...
- No me deve nada, Brite - recusou o pistoleiro, sorridente.
- Deixa-te de recusas ou no somos amigos! - protestou Brite, obrigando-o a aceitar. - Parto daqui a uma hora com a Reddie e o Tex. Resolveram-se e somos todos felizes.
- Belo! Tambm fico contente! Irei despedir-me de
vocs.
- No seria melhor ires connosco, pelo menos at
Abilene?
- No, embora gostasse muito. Preciso de encontrar
aqui uma pessoa.
- Lamento. Importas-te de ficar com o dinheiro e pagar
aos outros?
- No  preciso, que eles j a vm.
- Vamos despachar isto depressa! - disse Brite, admirando-se de estar to ansioso por ver-se livre dos seus leais vaqueiros.
Holden estava sentado nos degraus da escada e Ackerman e Little apoiavam-se  balaustrada. Envergavam ainda os fatos velhos, mas tinham os rostos brilhantes e limpos, 
barbeados de fresco.
- Bons dias, patro! - saudou Rolly. - J tem a
massa?

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- Com certeza! Estava  vossa espera para lhes entregar a soldada e o bnus. S a parte do Wallen  maior do que as soldadas todas juntas!
- Eu s recebo dez, patro. Agradecia que pusesse o resto nas mos de algum, para mo guardar - pediu Ackerman. - J sabe que no volto ao Texas...
- Sentiremos a tua falta, Deuce.
Less Holden avanou, com os olhos sfregos postos no dinheiro.
- Eh, Rolly, d-me a bolsa! - pediu Deuce, de brincadeira.
-  o ds! - respondeu Little, escondendo-a atrs das costas.
-  minha, seu filho da me!
E, de brincadeira, engalfinharam-se os dois, contentes como dois garotos. Holden aproximou-se e, aproveitando a confuso, arrebatou a bolsa, exclamando:
- Achei,  minha!
Sempre a rir, os dois rapazes atiraram-se a ele e Brite ficou a ver a brincadeira, com Pan Handle.
Ainda no haviam bebido, e divertiam-se como midos.
- No sejas to duro, Less! - protestou Rolly, quando Less voltou a arrancar-lhe a bolsa da mo, fazendo-lhe sangue.
Litlle olhou para o arranho, sem se ofender, pois era muito bom rapaz, mas Deuce no foi da mesma opinio e arrancou, por sua vez, a bolsa a Holden.
- Toma, Rolly,  tua. Deixemo-nos de brincadeiras. Holden no quis saber do aviso e, dando-lhe um puxo, fez Rolly desequilibrar-se. gil como um gato, o vaqueiro 
ps-se em p e,  brincadeira, sucedeu qualquer coisa pior e mais sria. No conseguindo reaver a bolsa, Holden enfureceu-se e bateu no rosto de Rolly.

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- Oh! - gritou o rapaz, zangado, dando-lhe, por sua vez, com a bolsa na cara, at espirrar o sangue.
- Parem com isso! - gritou Pan.
Tarde demais, porm, Holden puxou da pistola, disparou, e Rolly dobrou-se sobre si mesmo, com o rosto convulsionado, e caiu no cho. Os outros dois enfrentaram-se, 
como tigres, com as armas a vomitar fogo. Holden caiu, de cara para o cho, e Brite, paralizado pelo terror, viu Deuce recuar e apoiar-se  porta.
A expresso feroz desapareceu-lhe do rosto moreno, a arma caiu com estrondo no cho, ainda fumegante, e o rapaz levou a mo ao peito, enquanto o sangue lhe escorria 
por entre os dedos. No olhou para Holden, mas os seus olhos, cheios de mgoa, fixaram o querido camarada Rolly. Depois a bela cabea descaiu-lhe para trs.
Pan Handle ajoelhou a seu lado e Brite, lutando por vencer o terror que o paralizava, inclinou-se tambm, sobre o pobre rapaz moribundo.
- Velho... guia... - murmurou, com um sorriso triste - ns pagamos... Vejo que... no posso esperar... a bela
Ann... dos olhos garos!
Calou-se, toldou-se-lhe o olhar franco e, com um soluo de infinita tristeza, morreu.
Uma hora depois, Brite deixava o hotel, acompanhado por Pan Handle.
- No voltarei a percorrer a Pista, Pan!
- No admira! Os tempos esto maus!
- Queridos rapazes! - gemeu o velho, comovido. - Tudo aquilo em menos de dois minutos! No devemos dizer nada  Reddie, ouviste? Nunca mais esquecerei o olhar de 
Deuce, e as suas palavras: "Velho guia, ns pagamos!". Eu sei, e Deus tambm, que ele pagou, que todos eles pagaram! Oh, que pena, que pena!

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Pensar que a causa da tragdia foi precisamente a sua valentia, o seu esprito ousado, que os torna quase imortais na Pista!
Dodge, porm, parecia no ligar importncia a mais duas ou trs mortes. Eram quatro horas da tarde e o barulho daquela metrpole do gado assemelhava-se ao zumbido 
de um enxame de abelhas.
Havia cavalos selados ao longo dos carris, carros cobertos de lona e veculos de todos os tipos caractersticos do Oeste, e uma multido incansvel andava de c 
para l, de ambos os lados da linha. Por todo o lado ressoava o tilintar de esporas e o bater de taces, os sales abarrotavam e,  porta das casas de jogo, viam-se 
homens de grandes chapus pretos, faces plidas e lbios apertados. Mulheres e raparigas pintadas, de faces macilentas e olhos de ave de rapina, esperavam que se 
lhes dirigissem, numa exuberncia de trajos coloridos e decotados. Passavam vaqueiros, aos grupos, jovens, vivos, violentos e alegres, s centenas, e cada um deles 
fazia aumentar a dor de Brite. Eram a taxa da Pista e de Dodge, o tributo que, talvez, fosse necessrio para a edificao de um imprio e para a tragdia do progresso, 
mas que era odioso ao velho rancheiro. No, ele no voltaria a arrastar para a morte nenhum jovem!
Embrenhado nas suas divagaes nem reparara que Pan Handle caminhava do lado de dentro do passeio e falava pouco. Quando deu por isso, sentiu crescer em si asco 
e frieza pelos pistoleiros que, como aquele, andavam sempre alerta, farejando violncias, sedentos de sangue e fogo.
Sem saber porqu, Brite fitava os olhos de quem passava. Viam-se tantos olhos azuis e cinzentos, atentos e serenos! Passavam ndios, erectos, de olhar sombrio e 
ar distante, mas j prostitudos pelos vcios dos brancos. Naquele ponto da rua j no se viam rameiras, mas apenas velhos e novos que lidavam com gado, que trabalhavam. 
Os parasitas haviam ficado para trs, nas tabernas, nos sales de baile e nos antros de jogo.

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Quando estavam perto dos estabelecimentos de Beauty e Kelly, Brite reparou num homem vestido de escuro, que saa do barbeiro, ao mesmo tempo que Pan Handle gritava:
- Salte!
Brite obedeceu, sem desfitar o rosto macilento, os olhos duros e o corpo curvado do homem... Ross Hite, era Ross Hite, de revlver em punho!
O velho fugiu do passeio, no instante em que soavam dois tiros, quase simultneos, e uma bala se amachucava no cho, a pouca distncia. Olhou para a frente e viu 
Pan Handle, muito direito, tendo na mo a arma ainda fumegante, e Ross Hite estendido no cho,  porta da barbearia.
Bater de ps, gritos excitados, uma gargalhada... Depois Pan Handle baixou-se um pouco, desviou os olhos do adversrio, guardou a arma e juntou-se a Brite.
Quando chegaram  estao, Brite ofegava, de excitao
e pressa.
- Estamos fartos de esper-lo, patro! - gritou Texas, de dentro de uma grande carruagem. - No era preciso vir a correr, dessa maneira; eu no deixaria partir esta 
caranguejola, enquanto voc no chegasse!
- Oh, pap, j estava com medo! - exclamou Reddie,
muito corada.
- Olha o Pan! - gritou Texas, contente. - Foste gentil, vindo dizer-nos adeus, homem!
Pan Handle acendeu um cigarro, com mo firme, e olhou para Reddie, sorridente:
- Tinha de vir desejar-lhes toda a ventura e felicidades possveis neste velho e duro Oeste.
- Obrigada, Pan! Eu desejava...
-  entrar, vamos partir! - gritou o condutor. Brite atirou com a mala para dentro da carruagem e tropeou, ao entrar,

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mas a mo forte do pistoleiro amparou-o, e Pan entrou, tambm, j o comboio comeava a andar.
- Ento Pan, e a bagagem? - perguntou Texas, semi-cerrando os olhos.
- Toda a minha bagagem est aqui, no quadril - respondeu o outro, olhando-o intencionalmente.
- Estou satisfeitssimo por vires connosco!
- O pai no se esqueceu de dizer adeus por mim aos rapazes, principalmente ao Deuce, que no voltar ao Texas?
- No, Reddie, no me esqueci!
- Oxal a Ann saiba convenc-lo a no voltar  Pista! - concluiu a jovem. - Gostaria bem de lhe ensinar como  fcil consegui-lo!


FIM


     Volumes Publicados na Coleco Zane Grey


     1 - At ao ltimo homem;
     2 - O planalto do cavalo selvagem;
     3 - Nevada;
     4 - Sangue, suor e ferro;
     5 - A lei do Oeste;
     6 - Uma aventura no Oeste;



Data da digitalizao


Amadora, Outubro de 2003
